Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno

domingo, julho 19, 2009

Mais um para o café


Já estávamos na cozinha tomando café da manhã. O Fernando com um roupão azul de toalha e eu com um velho de seda brilhoso, comprado em uma viagem muito antiga, com alguma coisa em japonês escrita nas costas que até hoje não consegui (e nem tentei) decifrar.
Os cachorros começaram a latir antes mesmo que a campainha tocasse.
- Sra. Magnólia Flores? Delegado Edgard.
E me estendeu a mão sem falar sobrenome ou mais nada, como se a palavra delegado fosse o suficiente para que eu o convidasse a entrar. Apertei a mão e continuei em pé na porta, sem sair o lugar.
_ Sou o responsável pela investigação do caso do Sr. Luis Antonio Boas e gostaria de conversar um minuto com a senhora. A senhora me convida para um café?
Eu juro que nunca acreditei que isso realmente acontecesse na vida real. Sempre achei que só nos filmes ou nos livros policiais uma abordagem como essa poderia existir. Eles não tinham que mandar cartas pelo correio, convocando para algum tipo de interrogatório? Uma correspondência dessas que você pode fingir que não recebeu?
Mas eu convidei. E o Fernando foi fazer o tal do café, enquanto a Juma e o Alfredo se encarregavam da vistoria, cheirando cada pedaço do sapato do delegado, verificando por onde ele tinha passado, arquivando aqueles cheiros todos na memória.
Nos jornais a história toda parecia há muito esquecida e admito que até eu, com tanto movimento pela casa - homem, livros, cachorros, estantes - tinha perdido o interesse. Quando passava pela portaria nem via mais o bolo de cartas em cima do armário e tudo estava como sempre esteve desde que me instalei por aqui. Foi isso o que disse para o delegado, depois de ele ter me explicado que os dois ainda andavam sumidos e que as investigações nesse tempo todo pareciam não progredir, até que uma pista importantíssima mudou tudo e a polícia tinha começado a interrogar os vizinhos.
Não conseguia prestar muita atenção nas palavras que o delegado Edgard dizia. Olhava para o senhor de jaqueta na minha cozinha e, bem atrás da sua cabeça, via a carta de amor da vizinha escrita a lápis presa na geladeira e, na mesma parede, o quadro que Fernando tinha organizado com gráficos e anotações. E pensava no que poderia dizer se ele resolvesse pedir para conhecer a casa. No escritório, em cima da mesa do computador, estava uma caixa com os bolos de correspondência que roubei da portaria.
Mas depois de me perguntar sobre o casal, quantas vezes tinha visto os dois, como estavam nesses momentos, como era o movimento do prédio antes e depois, ele quis saber do Fernando. Tá certo que ele chegou do Chile bem depois de a história toda ter acontecido, mas era justamente isso o que parecia interessar ao investigador.

domingo, março 15, 2009

Dedos

Os dedos tocavam o teclado com delicadeza. Só dois. Os outros se armavam como se estivessem em alerta para alguma coisa, qualquer uma, talvez nenhuma, mas sempre alertas. Não procuravam letras, já sabiam o caminho e, além de delicados, eram ágeis, decididos. Nas mãos, unhas cuidadas, limpas, certas, provavelmente semanalmente lixadas. E as mesmas manchinhas cor de ferrugem que acompanhavam todo o corpo estavam ali também. Muito branca, uma pele que, em alguns pontos, dava a impressão de ser transparente, com o desenhos de veias azuis à mostra.

Agora, largavam o teclado e buscavam um livro, quer dizer, alguma coisa dentro de um livro. Viravam páginas com ansiedade e um dos dedos acompanhava linhas de letras, uma após outra. Foi uma operação que, pelo menos para mim, pareceu demorar horas. Dezenas de páginas viradas, talvez centenas, milhares (quem sabe?). Vi no momento exato em que acharam. Uma das mãos se encolheu sobre o papel, formando uma espécie de caracol com os dedos curvados, com dobrinhas gordas que desenhavam uma cara. Se mexesse a mão, a cara ganharia vida, falaria. Mas ele não deveria saber que aquela mão podia tanto.

Meus olhos iam pelo meio, viam tudo num entrepálpebras. Mas ainda vi quando o livro se fechou e elas se deixaram apoiar por instantes na capa dura. Depois, sumiram do meu campo de visão, deixando um vazio naquela cena: computador, livro, estojo com canetas coloridas. Tudo abandonado numa mesa agora sem função. Reapareceram ao meu lado, acariciando meu braço. Até me abraçarem e ficarem aí paradas. Os dedos gordos, as sardas vermelhas, as unhas cuidadas. Podia dormir em paz. E nada mais tinha importância.

domingo, novembro 02, 2008

A biblioteca


Chegaram três caixas de livros ontem do Chile, estão no meio do quarto dos fundos, exatamente no mesmo local onde os carregadores deixaram. Tantos livros que mesmo que eu bote toda a minha força contra a parede de uma das caixas, nada se move. Tantos que pedi para instalarem mais cinco prateleiras numa das paredes, distribuídas do teto até o chão. E olhando agora para eles, reunidos em três blocos compactos, não sei se haverá lugar para todos. Tantos que não consigo mexer em nada. Fico olhando para as estantes vazias e para os volumes encaixotados, sem saber por onde começar.

Fernando monta tabelas no Excel. Achei incrível, mas cada um dos livros está anotado numa longa folha de papel e ele organiza um por um na tabela, planejando sua posição na estante de acordo com uma lógica que não consigo muito entender. Parece que os russos vão ficar perto do teto, mas Crime e castigo vem antes de Noites brancas, que é seguido de Irmãos Karamazóv. E antes que eu abrisse a boca para opinar, ele me explicou que a ordem não era cronológica, mas que Raskólnikov é um rapaz orgulhoso e nunca ia admitir ficar em outro lugar que não em primeiro. Desisti. Já ia me virando quando vi outra lista enorme em cima da mesa.

- Ih, vamos ter livros repetidos! Estes todos aqui eu também tenho. Ainda bem que vão ficar em prateleiras separadas.

- Estes são os seus, Magnólia. Vou organizá-los também. Assim, nossa biblioteca vai estar com todos os livros catalogados e vai ser mais fácil de consultar.

Virei as costas como uma menina que há muito já deixei de ser e saí batendo pés e portas, com um estrondo rouco me acompanhando até o quarto. E, minutos depois, com os olhos marejados e mais calma, voltei para dizer que nos meus ninguém mexia.

- Mas estão de qualquer jeito! Não há ordem nenhuma...

Como não? E mostrei, meio envergonhada, com a culpa de quem minutos antes tinha olhado com desdém para sua tabela de Excel, que na minha parede os guias de viagem ficavam perto do teto. Abri o de Londres e mostrei os bilhetes de metrô colados pelas páginas, as entradas de museus, as minhas fotos arrastando malas pelo aeroporto de Heathrow, com os cabelos louros que imitavam uma moda da época e a pele bronzeada de quem tinha vindo do verão carioca.

Nas prateleiras que ficam na altura dos meus olhos, guardo os melhores, uma coleção que eu poderia chamar de meus livros de cabeceira. Fernando me olhou com um sorriso disfarçado. Só uma indecisa como eu poderia ter feito uma seleção de favoritos tão extensa. Não importa. Me dava conforto ver os Machados seguidos das Lygias, acompanhando Clarices e Virginias. Era bom ter eles todos reunidos por perto.

Na prateleira debaixo, vários livros com a correspondência de escritores e (isso não contei), dentro deles distribui cartas que troquei ao longo da vida. No volume com a correspondência de Guimarães Rosa para um de seus tradutores, cartas que troquei, aos 22 anos, com um analista, quando fui passar dois meses circulando de mochila pela Itália. Toco a lombada e, ainda hoje, lembro de suas mãos expressivas e os óculos de aros finos. Ali, estão os bilhetes breves que me enviou como resposta, sempre ambíguos, sempre carinhosos.

Fernando me devolveu a lista, resignado. Não tive coragem de jogar fora. Achei bonito ver todos os meus livros enfileirados. Botei no mural da cozinha, junto com a carta de amor da vizinha.

segunda-feira, outubro 06, 2008

mais um para o café da manhã

Da janela eu via ele se afastando. As sandálias de couro batendo no chão de pedra e o cabelo ainda molhado do banho frio que insiste em tomar toda manhã. Em casa ficou o cheiro forte do perfume, que se espalha pelo jornal, a maçaneta da porta e todo local que os seus dedos toquem. Saiu para comprar pão e voltou horas depois com um embrulho extra embaixo do braço. Me contou a história sem soltá-lo do colo, cortando um pedaço de bisnaga e besuntando a fatia com manteiga Aviador, evitando me olhar nos olhos.
O dia tava novo ainda e foi por isso que o barulho dos carros não tinha tomado conta de tudo. Passava perto de casa, o saco pardo já agarrado pela mão, quando ouviu algo baixo, mas constante. Difícil precisar de onde saía o choro. Uma senhora de vestido vermelho passou assim rentinho dele e continuou com o andar firme pela rua, sem parecer escutar coisa alguma. Um surfista veio logo depois com uma prancha grande demais para o seu tamanho e o Fernando ficou olhando atento os pés do moço tocarem o chão, num ritmo constante, que se aproximou e se afastou sem se conter minuto algum, sem mudar a rota para detectar de onde vinha aquele barulho estranho. Talvez não existisse som algum. Talvez só ele escutasse. Uma voz dentro de seu ouvido que ninguém conseguia notar.
Foi quando olhou para as rodas de um Gol vermelho parado na esquina e viu alguma coisa preta se mexendo de leve. Quanto mais se aproximava, mais escutava com nitidez. O preto levantava e descia como num respiro, soltando um sonzinho constante e desanimado.
Era pequeno, magro, cabia na palma da mão e me olhava do seu colo enquanto a história ia ganhando forma, abanando um rabo fino e com pouco pêlo. Chegou na minha casa sem choro algum e parecia consolado, aninhado nas mangas grossas do casaco. Peguei o cachorrinho e levei para a área de serviço, com a Juma curiosa e animada atrás de mim.
Temos um novo integrante em casa. Alfredo gosta de Papita com água morna.

domingo, setembro 28, 2008

A nuca fazia uma curva e era de um branco que eu nunca tinha imaginado que existisse, pontilhado de pequenas sardas avermelhadas. E ele estava de cabeça abaixada, lendo com atenção uma carta que eu tinha acabado de roubar da portaria (confesso que fiquei compulsiva. Agora, não consigo passar sem arrumar um jeito de pegar uns envelopes “emprestados”). Rasgamos mesmo, sem nos preocupar em ferver uma água na chaleira para que o vapor soltasse a cola com cuidado. Mas depois de ler o que vinha dentro, me deu uma dó profunda. Porque essa era uma carta de amor. Sem remetente como as outras, sem destinatário. Não consigo decifrar, pelo texto, se foi escrita por mulher ou homem, mas veio a lápis, com letra embaralhada e disforme, como se tivesse sido feita num ímpeto.
E fiquei com o papel numa das mãos e o envelope rasgado na outra, sem saber o que fazer com os dois. Eu que já me sentia tão dona de todas elas e, de uns tempos pra cá, já as abria como se tivessem chegado pra mim, como quem abre um envelope de figurinhas comprado na banca, ansiosa e apressada. Eu que vinha lendo os textos e comentando com o Fernando os engraçados e curiosos e colando no quadro de cortiça da cozinha os que mais me agradavam, criando teorias que dessem sentido para o conjunto. Foi só nesse momento que me dei conta: “Estamos lendo a correspondência de outra pessoa!”
E essa era uma carta de amor. E com o papel nas mãos eu tinha certeza de que, agora, descolada de todas as outras, fora do seu envelope de origem, nunca mais acharia o seu caminho. Palavras de amor que ficaram paradas no meio. Escritas de forma apaixonada e embaralhada, com tanto sentimento que nem se entendia direito. Senti uma vergonha profunda. Fernando me olhava do canto, quieto, imóvel, com a mão apoiada na boca e os olhos claros que quase nem piscavam.
Estendi o papel sem muita convicção e foi nesse momento que ele abaixou a nunca e ficou estudando as letras que tanto tinham me perturbado. Foi quando notei que a sua pele era branca que só, mas ao mesmo tempo vinha manchada, pequenos pontos cor de ferrugem. Foi quando vi onde os seus cabelos nasciam e que a gola da blusa fazia uma volta, caindo pelo pescoço. E que as suas mãos tinham veias saltadas e dedos grossos e fortes, mas que seguravam o papel de forma gentil. Pela postura curvada pra frente e toda a atenção que dedicava, senti que ele se importava.

quarta-feira, setembro 24, 2008

e se for a felicidade...

Fernando chegou do Chile e está hospedado aqui em casa. Pela quantidade de malas, imagino que vai ficar por semanas. E estamos passando tardes e mais tardes a descolar envelopes no vapor da chaleira. Talvez nem fosse necessário tanto cuidado. Mas no fundo ainda acredito que alguém vai aparecer para buscar o bolo de cartas um dia desses.
Descobri que o porteiro vem guardando os envelopes destinados à vizinha em cima das estantes onde fica a correspondência do condomínio. A quantidade começou a ficar tão grande, que ele passou a deixar tudo por cima do móvel. Roubei alguns. Ou melhor, peguei emprestado. Vou devolver todos bem fechados dentro de uns dias.
O primeiro que eu abri vinha com um texto estranho, descrevendo uma manhã na beira de uma piscina. A história vinha escrita em caneta preta, com uma caligrafia tão forte que quase chegava a furar o papel. O segundo vinha como uma tira de quadrinhos, esta abaixo.

Ainda não consegui entender o significado... Talvez sejam mensagens cifradas. Fernando começou a desenhar gráficos na cozinha.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Uma manhã de exercícios na piscina

Era um exercício de respiração. Ele subia e descia, fazendo um bico engraçado com a boca toda vez que levantava da água. O sol estava fraco e talvez sentisse frio. Se a friagem incomodasse, teria levantado e corrido para a toalha aos saltinhos. Mas continuava lá. Trinta e um, trinta e dois...
_ Chega perto da borda?
Fui andando calmamente, mas ele tinha pressa. Alguma coisa tinha urgência de ser feita. Quando cheguei, passou as instruções.
_ Vou ficar embaixo d’água e você liga o cronometro logo que eu descer.
_ Sei. É para medir o tempo que consegue ficar sem respirar?
_ Isso.
Abriu a boca o mais que pôde e puxou o ar para dentro com força. Um, dois, três.... Foi. A cabeça embaixo d’água, o corpo boiando e eu lá, olhando os números no cronometro. Um minuto, dois... Fiquei preocupada e toquei numa parte do seu corpo. Recebi um safanão de volta. Estava vivo. Dois e meio, três... Repeti o gesto sem me preocupar com humores. Novo soquinho. Vivo. Quatro, quatro e meio...
Ele subiu abrindo a boca ao máximo.
_ Quanto foi?
_ Quatro e meio.
Não falou nada. Mas apareceu um meio sorriso no rosto e senti que o peito estufava de orgulho.
_ Tenho que chegar até cinco.
E lá ficou. Levantando e subindo. Minha função tinha acabado e voltei para a cadeira. Mas e se ele se machucar na piscina? E se o frio deixá-lo resfriado? E achava que estava lindo lá dentro. O cabelo grudado na testa e o biquinho engraçado aprisionando o ar dentro do peito.
_ Já está na hora do almoço.

Ele levantou e foi aos saltinhos buscar a toalha. Se aninhou nos meus braços e cobri sua testa de beijos. Me beijou de volta, na boca. Meu marido.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Vi na TV que hoje está fazendo sol

O céu ficou dourado, azul, cinza. Já tirei casacos do armário, arrumei os maiôs enrolados na gaveta. Tirei todos de novo, comprei novas cangas e guardei o suéter de volta na estante perto do teto. Chegaram cartas. Li algumas, outras eu joguei fora. Desinfetaram o prédio, fiz faxina no apartamento, mas hoje de manhã encontrei uma baratinha francesa subindo pela parede da cozinha. Num dia, achei que precisava sair e apanhar sol. No outro, corri para dentro de casa e me refugiei num bolo de edredon perfumado.

Na porta ao lado, a vizinha sumiu e eu cansei de colar a orelha na parede cada vez que ouvia o trinco da fechadura dando voltas. O namorado famoso não inspira mais matérias nos jornais e os repórteres que subiam as escadas do prédio parecem ter se mudado pra outra parte, pra outra vida, pra outra história. Mas o porteiro fala que os bilhetes ainda chegam. Cartas endereçadas a ela ou a ele. Envelopes vezes com a letra redonda que a moça fazia com lápis, vezes com a dura fôrma de imprensa que ele reforçava com caneta Bic preta. De alguma forma, a vida continua.

segunda-feira, março 31, 2008

O dia em que descobri Amália Mirandas

Me identifiquei totalmente com Amália Mirandas, escritora portuguesa que viveu entre o fim do século XIX e o início do passado. Confesso que nunca tinha ouvido falar e que, algumas vezes, desconfio de que nunca tenha existido. Mas, o que importa? É uma boa história. Descobri sua existência pesquisando num sebo aqui perto de casa. Sua vida estava num livro escrito pelo catalão Javier Mattos. Num exemplar de 370 páginas, ele mapeou as escritoras que viveram na Espanha entre o fim do século XIX e início do XX. E foi isso o que Amália fez. Se casou aos dezessete anos, com um homem vinte e cinco anos mais velho e, por causa dele, se mudou para o Sul da Espanha, mais especificamente para Sevilha, a capital da Andaluzia.

Teve cinco filhas e comandava uma espécie de escola que funcionava em sua própria casa. Passava horas trancada dentro de um dos aposentos, um lugar destinado exclusivamente pra ela, escrevendo, escrevendo, escrevendo. O marido acreditava que se tratavam de cartas para os parentes distantes, mas Amália produzia romances.

Não quero entrar no mérito da qualidade de seus escritos. Não li nenhum. Mas posso imaginar o seu conteúdo. Parece que vejo as histórias acontecendo. Na época, Sevilha tinha cerca de 150 mil habitantes. Ela era de família rica, mas vinha do campo e caiu de uma hora para outra num centro urbano que começava a fervilhar, com mulheres elegantes caminhando pelas ruas. O que mais poderia escrever? Histórias românticas de moças casadoiras. Só podiam ser. Mas não apenas isso. Javier Mattos acredita que Amália escreveu cerca de dez romances, depois de pesquisar as anotações que a escritora mantinha num diário. Mas apenas quatro foram achados e tiveram sua autoria confirmada.

Um de seus textos contava a história de Don Juan Tenório, que disputava com o amigo Don Luís o número de mulheres que conseguia conquistar. Para provar que era melhor galanteador que o colega, propõe conquistar a própria noiva de Don Luís, moça pura e devota, recatada ao extremo, daquelas que nem se permitem encarar um homem nos olhos. E ele consegue. Encontra o verdadeiro amor, mas precisa se deparar com a vingança do noivo e de seus familiares.

Achei a história supimpa, baseada na lenda de Don Juan que já circulava pela época. Mas vai lá saber se foi apenas isso que a inspirou. Tenho aqui comigo que ela usou a lenda apenas para despistar o desejo de escrever uma história que mesclasse amor, traição e moças que escondem uma natureza outra, atrás de uma imagem séria e recatada. Quem sabe não falava de si? Vai saber...

Por muito tempo, a autoria da história foi dada a José Zorrilla, marido de Amália. Mas a descoberta de seu diário e muitas pesquisas posteriores, desfizeram o engano. Aliás, Zorrilla era poeta e dramaturgo e, talvez, alguns de seus textos tenham sido escritos pela própria esposa. Acho difícil que fossem todos, mas não duvido da mistura de alguns.

Onde está a solidão em nome da escrita nisso tudo? Calma. Chega agora. Quando o esposo morreu, Amália tinha cerca de 40 anos. A escola fechou e ninguém nunca mais viu seu rosto pelas ruas da Sevilha da época. O isolamento não veio por luto ou tristeza. Foi uma forma de recuperar o tempo perdido. Mattos acredita que mais da metade de seus livros foram escritos neste período.

E o que isso tem a ver com o escritor sumido da minha vizinha sem expressão? Não foi apenas o isolamento de Amália que me fez selecionar a sua biografia entre as minhas preferidas, mas a confusão na autoria dos textos. Quem escreveu as cartas? Quem escreveu os romances? Ando me fazendo estas perguntas e observando, cada vez mais atentamente, minha vizinha. Meu próximo plano é oferecer uma faxineira para a moça. Preciso saber se tem máquina de escrever em casa, computador, canetas tinteiro... O que faz com o tempo livre, estas coisas.

E por que me identifiquei tanto com a história de Amália? Bem... isso ainda não posso revelar. Ainda...

sexta-feira, março 28, 2008






O que mais me impressionou foram as fotos em preto e branco. Os quartos vazios, os muitos cachorros circulando, móveis velhos e pequenos objetos de uma vida solitária espalhados pelos cantos: uma xícara, um cobertor jogado em cima de uma poltrona, chinelos encostados ao pé da cama. Não era pobreza o que se via, mas simplicidade. Na capa vinha o seu retrato em close, o rosto marcado pelas rugas, os cabelos brancos desalinhados.
Na parte de dentro do Caderno de Literatura dedicado a ela estava uma longa entrevista e a história de sua vida. E foi assim que eu fiquei sabendo que Hilda Hilst era uma moça bela, de vida boêmia e namorados mil. Tinha fortuna, morava em São Paulo, passou meses viajando sozinha pela Europa e chegou a ter um caso com Marlon Brando (dizem!). Tinha livros publicados desde os 20 anos. Mas aos 33 resolveu se mudar para uma fazenda a onze quilômetros de Campinas. Deixou as festas de lado, os namorados, a vida boêmia. Tudo pela literatura. Os dias a escrever e ler, escrever e ler, escrever e ler. Talvez não fosse tão mal assim.

E a idéia nem foi dela. A inspiração de optar pela solidão e se dedicar aos poemas e romances veio de outro escritor: o grego Nikos Kazantzakis. Autor de “Cartas a El Greco” e que defendia que só no isolamento o homem pode conhecer a si mesmo e estudar a complexa natureza humana. Talvez tivesse razão. Talvez. Provavelmente, também ele tenha feito o mesmo. Ainda não sei. Ainda.

E porque não poderia ser este, justamente este, o motivo do sumiço do escritor da minha vizinha? A necessidade de paz, concentração e de horas dedicadas aos livros. Ok. A idade avançada e o sucesso profissional depunham contra a minha teoria. Mas quem sabe ele não chegou à conclusão de que sua literatura era falha, superficial ou que não tinha escrito todos os livros que desejava? Quem sabe o problema não era um único livro, o livro. A obra-prima que pretendia deixar para a posteridade. Aquele que valia a pena o sacrifício, que demandava dedicação exclusiva, total.

Onde poderia estar agora? Escondido numa fazenda no interior de Minas? Numa casa de madeira em Visconde de Mauá? Pode ter ido para a Europa também. Como a polícia não cogitou esta hipótese? Quantos não fizeram o mesmo ao longo da história? Por que não ele? Passei a pesquisar os escritores que achavam que a literatura não podia ser dividida com mais nada.


domingo, março 09, 2008

O dia da carta




Comecei com as palavras cruzadas. Uma chatice. Verdadeiros enigmas que me estimulam apenas a correr até as últimas páginas do livrinho atrás das respostas. Passei para a tapeçaria. Comprei uma tela aqui na esquina, alguns novelos de lã, desencavei as lições que minha mãe me dava em Petrópolis e dei início aos trabalhos. Já fiz cinco tapetinhos! Isto tudo para aproveitar o novo espaço que arrumei aqui em casa. Colado à porta de serviço, coloquei uma mesinha com cadeiras. Bem arrumadinho, com um vaso de plantas e tudo.

Foi assim, meio sem querer, enquanto desfrutava deste meu novo espaço, que descobri quando chegou a primeira carta. Era dia 5 de janeiro, um mês depois do sumiço. Saí para jogar o lixo e a vi no corredor. Achei que estava ainda mais magra e mais pálida, parecia frágil e ouvia sem se mover um homem alto e moreno dizer repetidas vezes:

- Não pode ser! Não pode ser! Por que ele faria isso? Por que mandaria esta carta justamente pra você?

E ela ouvia sem mover músculo. Ainda tentei me demorar, fingindo que a porta da lixeira tinha emperrado, mas, nada, daquela boca não saía palavra e tive que voltar para casa, com a Juma me seguindo de perto, desconfiada (até ela!) do encontro no corredor.

Me custou um bocado entender o que estava em volta daquelas quatro frases soltas. Não me perguntem como juntei a história. Tenho fontes. Só posso adiantar isso: tenho minhas fontes. Mas logo nas primeiras horas da manhã ela recebeu uma carta. Era dele. Peritos conferiram a caligrafia. Definitivamente, dele. Disse que estava embaixo da porta quando acordou, mas nem o porteiro e nem ninguém no prédio lembra de ter visto alguém entregando uma correspondência.

Isso, depois que tudo parecia resolvido. Depois de um enterro simbólico ter se realizado. Depois de a imprensa alardear o namoro secreto do escritor e do filho ter reivindicado respostas, acusado minha vizinha de assassinato, cobrado explicações em relação aquele relacionamento secreto que ninguém nunca tinha ouvido falar. Juntei os recortes de jornal com todas as declarações da família.

“- Desde que ficou viúvo meu pai nunca mais se relacionou com mulher nenhuma. Passava os dias em casa, escrevendo e lendo.” O Globo, 29 de dezembro de 2007.

“- Ninguém viu ele pular na água. As buscas se basearam apenas no depoimento dela. Mas quem é esta mulher? Onde está meu pai? O que fez com ele?” Época, 16 de dezembro de 2007.

“ – Estive com ele no dia do sumiço. Não comentou que ia caminhar na Lagoa. Não disse que estava saindo com alguém, muito menos que estava apaixonado. Estava satisfeito e só. Não me pareceu como uma pessoa que quisesse cometer suicídio” Veja, 16 de dezembro de 2007.

Tive vontade de ligar para a imprensa, de descobrir o telefone deste filho e ter com ele dois dedos de prosa que fosse. Dizer que, sim, eu já tinha visto os dois juntos. Uma, duas vezes, mas vi. Não, não pareciam tão apaixonados. Mas quem olhar a minha vizinha pela rua vai entender. Não há como saber o que sente, pensa, o que está prestes a fazer. Talvez estivesse apaixonada. Como saber? Um rosto sempre sem expressão, pra dentro, contido. Mas em uma das vezes, juro, eu vi, tenho certeza, quase certeza absoluta, de que estavam de mãos dadas. Bem dadas. Atadas mesmo.

Assim que viu o envelope, ela achou que era uma propaganda. Pegou. Não havia nada escrito em nenhum dos lados. Um envelope bege, como tantos outros que encontramos nas papelarias. E abriu sem dar grande importância. Numa folha pautada, pequena, estava um poema. A letra inconfundível e, antes mesmo de ler qualquer palavra, duas lágrimas desceram pelo rosto (Me deixem! Me deixem! Não posso imaginar duas lagriminhas? Ok, eu não vi a cena, mas elas devem ter existido!).

Achou que era um sinal. Se tinha mandado uma carta, estava vivo. Um poema. Palavras de saudade. Versos de quem sente a distância. Eram palavras dele. Embaixo, uma frase que ainda não consegui entender direito: “Junte todos. São o meu presente para você”.

Desde então, todo dia 5, a cena se repete.


sábado, março 01, 2008

O sumiço no lago (na verdade, foi na Lagoa, mas lago ganha um ar mais misterioso)

Ando ocupada. Não preciso ligar a novela quando o relógio marca nove horas, assistir filme de suspense em algum canal da TV a cabo (é lógico que eu tenho! Por que todo mundo sempre acha que idoso não tem TV por assinatura ou computador?) ou ler a seção do jornal que traz as notícias da cidade (sem dúvida, a opção mais apavorante das três. Para dias em que você anseia por emoções fortes). Está acontecendo no meu prédio mesmo. Aqui: Copacabana, Rio de Janeiro.

Não quero concorrer com o Espinosa, do Garcia-Roza, e perder os dias andando atrás de pistas no Bairro Peixoto, mas é inevitável que me interesse. Olhar a movimentação pela janela, abrir a porta para jogar o lixo no momento exato em que conversas acontecem no corredor (coincidências fazem parte da vida!), tirar informações truncadas em conversas aparentemente inocentes com o porteiro. Me sinto, de uma hora para outra, um pouco Miss Marple, num dos livros da Agatha Christie (sim, admito que li alguns na adolescência).

É um caso que envolve cartas que chegam, apesar de ninguém saber como, morte e amor. E estes três ingredientes foram suficientes para despertar o meu interesse. Ela mora no meu andar (veja que sorte!), num apartamento de fundos. Sempre fechada, calada, de poucos sorrisos. É jovem de aparência, mas tão séria que tenho a impressão de ser mais idosa do que eu, quando divido com ela o elevador e tenho a oportunidade de, disfarçadamente (claro!), observá-la de perto.

Ele? Confesso que vi apenas duas vezes, mas nunca tinha suspeitado que fosse um escritor de sucesso. Tão simples, tão comum, sem nenhum pingo do glamour que sempre imaginei que os autores de grandes livros levassem para a vida. Seus personagens, eu conheço, têm histórias movimentadas, dúvidas profundas, vícios e passados condenáveis. Ele sempre me pareceu sem graça e, por isso, infelizmente, nunca tinha prestado muita atenção na sua presença. Andava de bermuda, tênis e regata, mas era, pra mim, como se estivesse sempre de terno, de uniforme, misturado na massa. A diferença de idade entre os dois era gritante. Trinta anos? Mais, talvez. E, quando andavam de mãos dadas, despertavam a atenção mesmo de quem nunca teve preconceitos (como eu! Ok, ok, tenho alguns... Contra homens de terno, por exemplo, não os que usam para trabalhar, mas os que valorizam o traje).

Foi num domingo de tarde, me falaram. Os dois estavam caminhando na Lagoa, roupas esportivas. Estava sol e o ambiente era movimentado, famílias, casais, crianças, gente de todo tipo andando e conversando. E os dois se sentaram num dos píeres para descansar, pernas estendidas, calmos. E, de repente, sem nenhum movimento que anunciasse a decisão, ele se levantou e mergulhou na água. Naquela água imunda da Lagoa, a mesma dos peixes volta e meia boiando, das ondas de fedor regulares, da aparência turva e lamacenta. E foi só nisso que ela se preocupou, quando, ao ver que ele demorava a voltar, resolveu sair em busca de ajuda num dos quiosques próximos.

Ninguém viu nada. E buscas foram feitas por mais de uma semana no local, com máquinas removendo o fundo, mergulhadores com lanternas e roupas a prova da podridão. Nada. Ninguém nunca mais viu o escritor por aqui, por ali, por lugar algum que fosse. Mesmo assim, depois de muito choro, roupas pretas, dias de óculos escuros, chegam recados.

sábado, setembro 22, 2007

Variações sobre o mesmo tema


Comentei com a Sheila a minha campanha e eu tenho a impressão de que ela deixou escapar a história para o Seu Zé, meu porteiro, porque, de repente, passei a receber bolos e bolos de bilhetes e cartas de pretendentes, de pessoas que não me conhecem, que nunca viram o meu rosto. Imagino que devem ter achado a história engraçada, curiosa, e resolveram participar, mandando não apenas suas próprias intenções, mas enviando fotos de pais, tios e avôs (avôs? Quanta audácia!).

Num mural na cozinha prego enfileiradas as fotos que recebo. Outro dia descobri porque ninguém parecia se destacar naquele painel e, apesar do número sempre maior, ele ia ficando cada vez mais homogêneo. Notei que 80% dos homens vestiam terno na fotografia! Com gravata e tudo. Mas por que será que eles acham necessário o traje? Será que passa idéia de seriedade? Em mim, o efeito é este mesmo que falei: me parecem todos iguais, de uniforme, um painel composto de dezenas de fotos da mesma pessoa.

- Magnólia, mas que quantidade, hein? Já encontrou algum pessoalmente? – Me perguntou a Sheila, no chá que tomamos ontem aqui em casa.

- Não... Tudo tão parecido, não é? Cabelo grisalho, terno escuro, gravata... Acho que vou escolher pelo cachorro. Por enquanto, nada adequado. Só pastor alemão, rotweiller, pitbull. Imagina?

- A Juma não tem estirpe! Vira-latas. Tem que aceitar qualquer um.

- Mas como qualquer um? Para ficar com qualquer um eu deixo o rádio ligado na sala sintonizado na CBN. Pronto. Gente falando comigo o dia todo. E compro um bicho de pelúcia pra ela que fale au-au. Cada uma que você tem, Sheila. Onde já se viu?
E ela ficou encantada com uma figura de terno cinza e gravata abóbora. Cara de estrangeiro. Olho azul piscina.

- Mas que graça este! Cristian. – e consertou rápido, meio envergonhada - Ou será Christiãn? Ou Christian, com sotaque americano?

E notei que temos esta mania estranha da busca pela pronuncia perfeita. Na França me chamariam de Magnoliá sem culpas. Na Inglaterra, de Megnôlia. E aqui, esta vergonha do sotaque do português impresso no nome. Bem, mas por via das dúvidas, tirei o Christian da lista. Sheila levou a foto embora quando foi pra casa. Talvez ela ligue.

domingo, setembro 02, 2007

Procura-se um amor que tenha um cachorro

Comecei a campanha hoje de tarde e a Juma já está interessada em um dos pretendentes. A história toda veio meio de repente. Acordei e fazia frio aqui em casa. Olhei para o despertador e ainda estava cedo, muito cedo, e a vontade de dormir mais um pouco brigava com o arrepio que subia pelo braço. Gelado. Me senti ainda criança, em Petrópolis, presa na cama pelas cobertas, enquanto o despertador gritava, chamando para a escola. E pensei que seria bom se tivesse alguém do lado pra buscar no armário do corredor mais uma manta para aquecer a cama.

Depois, veio o café da manhã. Sem querer, arrumei a mesa com duas xícaras e fui botando tudo aos pares ao lado: duas facas, dois garfos, dois pirezinhos. Meio envergonhada, espantada com a iniciativa de meus próprios braços, guardei a sobra de volta na despensa. O relógio andou mais um pouco e passei a achar a casa grande e fiquei horas discutindo com a Juma uma notícia que tinha lido no jornal. Depois disso tudo, senti que estava na hora de preencher a casa com mais uma pessoa.

Resolvi iniciar a busca olhando pela janela mesmo e vi logo, na banca de jornais, um senhor muito do bem apessoado. Já tinha encontrado com ele pela vizinhança. Agora, estava de blusa quadriculada, daquelas de botãozinho (não gosto muito do modelo, mas não posso começar assim já tão exigente), calça comprida e um tênis branco (acho que era tênis. Com a distância, não consegui ver os detalhes direito). Mas o rosto era simpático que só vendo. Gostei.

Decidi que ia descer também, comprar uma revista na banca ou algo assim. Olhei para ele de novo. O que poderia causar boa impressão? Veja, Marie Clarie, Uma? Talvez fosse melhor comprar uma Caras mesmo e deixar de fazer tipo. E quando já ia pegar a bolsa para descer, vi a Juma. Me olhava de esguelha sem se mexer, mas entendi tudo no mesmo momento. Se sentia sozinha também. Foi quando decidi: o pretendente precisa ter um cachorro!
Voltei para a janela e a Juma, animada, se aninhou logo ao meu lado, com o focinho colado no vidro. O primeiro poodle que passou pela rua ela já abanou o rabo e olhou para mim com aprovação.

- Este não, Juma. Um menino! Um menino! Não seja afobada. Temos tempo. Logo aparece outro.

sábado, agosto 04, 2007

Sinopse

Medos privados em lugares públicos
“Coeurs” (França/Itália/..., 2006)

Drama (talvez nem seja tanto). E o filme começa com uma das personagens visitando um apartamento para alugar. Um dois quartos apertado em Paris, como a maioria dos apartamentos por lá (Não que eu saiba. Nunca fui. Os amigos é que contam nas cartas). E, justificando sua insatisfação com o tamanho dos cômodos, ela prova ao corretor que o proprietário na verdade dividiu o único quarto em dois. E vemos o seu braço entrar no vão entre a janela e a parede e sair do outro lado.

- Vê? Uma única janela. A parede divide a janela em dois. Originalmente, havia apenas um quarto amplo.

E ela continua (não me cobrem fidelidade nos diálogos. Não tenho a memória tão boa assim):

- O que acontece quando o dono de um dos quartos abre a janela e o outro fecha? Nada. Não tem jeito. Ou os dois morrem congelados ou os dois ficam abafados aqui dentro.

E o longa continua mostrando sua seleção de personagens. Isolados em salas, bares, apartamentos. Todos solitários. Mas, vez ou outra, para surpreender, a câmera sobe e, então, nós, espectadores, podemos ver. As paredes que separam os ambientes não vão até em cima, não encostam no teto. Os personagens estão ligados pelo mesmo espaço, separados por divisórias ilusórias. É possível transpor cada uma delas, mas eles acreditam que, por algum motivo, precisam continuar onde estão e ficam.

O cenário é como a solidão que o filme estuda. Há algo que liga a todos. Os mesmos medos, anseios, esperanças, alegrias, sofrimentos. Como a janela do início: não há como fugir, o frio ou o abafamento é o mesmo. Apesar disso, os personagens terminam como começaram. Sim, acaba assim mesmo. É... contei o final.120 minutos. Livre.

quarta-feira, julho 18, 2007

Longe de casa


Fiquei numa fila quilométrica durante a Flip, tentando pegar um autógrafo verdadeiro de J.M.Coetzee. Sempre achei uma besteira esta história de ter um livro assinado na estante de casa. Para quê? Qual a diferença? Na verdade, não quero saber absolutamente nada da vida dos escritores que admiro. Quando leio um livro, tenho a impressão de que o nome impresso na capa não se refere a uma pessoa de carne e osso. Não me interesso em saber se o autor acorda todo dia de manhã e come queijo-quente no café. Se tem a mania de organizar sua escrivaninha com esmero antes de cada dia de trabalho. Tenho curiosidade em relação à obra e ao universo que se abre ao virarmos cada página. E ponto. Nada mais.

Mas Coetzee subiu no palco silencioso, recitou uma introdução ensaiada sobre a obra que ia ler para o público. Com voz pausada, calma, leu trechos de seu novo livro e foi só. Gestos estudados. Fiquei com vontade de olhar ele bem no olho e a assinatura na primeira página serviu de desculpa. Fui.

Ele me recebeu com um sorriso, contido, como tudo mais. Rabiscou seu nome e olhou pra mim com riso igual ao primeiro, sem mostrar os dentes. Os olhos se tornaram expressivos, apesar do rosto de pedra. Tive a impressão de que ia falar alguma coisa, que as palavras estavam subindo pela garganta, mas por lá ficaram e saí com o exemplar embaixo do braço e a certeza de que eram tantas as histórias que criava que não tinha sobrado mais nada para viver de verdade. Uma vida que só existia na imaginação.

Depois, na orelha do romance, vi que ele tem mais ou menos a mesma idade que eu. Será? E descobri que morava não sei onde e que lecionou em tais e tais lugares. Não pode ser! A partir de então, me dediquei a procurá-lo pelas ruas de Paraty. Queria flagrá-lo se movendo de improviso, numa situação inesperada.

Avistei Coetzee no domingo de manhã. Levei um susto. Caminhava pelas ruas de pedra quando percebi que o escritor passava quase ao meu lado, o mesmo rosto da véspera. Os mesmos olhos expressivos e a mesma boca muda. Mas, de repente, tive a impressão de que perguntava: Quando me cumprimentarem, o que respondo?

Antes de pegar meu ônibus, vi mais uma vez. Uma cabeça branca saindo de um café. Foi parado por uma senhora, uma fã provavelmente, que lhe dirigiu palavras que não consegui escutar. Coetzee ficou parado olhando, perplexo, e, depois de alguns segundos, tirou de dentro seu sorriso sem dentes e inclinou a cabeça de leve.

Inadequação. Deve ter sido esta a palavra que ficou entalada na sua boca na noite de autógrafos. Talvez, sentisse falta de casa.

segunda-feira, julho 02, 2007

uma história, mais uma história...

Nem olhei as prateleiras e fui direto no atendente. Queria o primeiro livro autobiográfico escrito pelo Coetzee, Cenas de uma vida, editado pela Best Seller e esgotado há tempos por aqui. Tinha. Nem acreditei. Tinha! Depois de uma peregrinação por dezenas de sebos da cidade, achei. Fui pra casa com aquela sensação de quem ganhou brinquedo novo. Quarta-feira agora começa outra edição da Flip e o cara vai estar em Paraty. Queria ler antes da festa, levar para ele autografar depois da palestra.
Li num dia, mas passei outro inteiro só tentando decifrar os garranchos que alguém deixou no topo de algumas páginas. Logo no começo, descobri, estava escrito num canto: “o que é ser normal?” Percorri a página inteira pra tentar entender e, naquele ponto da história, o Coetzee menino estava tentando imitar os colegas no colégio. Sofrendo por não saber os códigos que devia seguir. E, por mais que se esforçasse, inadequação era a única coisa que encontrava.
Mais algumas folhas pra frente e outra anotação, desta vez em letra de imprensa: “memória ou ficção?” E entendi que ela se referia ao estilo narrativo que o autor escolheu. Uma autobiografia toda feita em terceira pessoa. Ele conta suas memórias como quem fala de outro. Talvez fale mesmo. Quem disse que um adulto pode lembrar tintim por tintim da sua rotina aos dez anos?
Mas o que mais me intrigava não era decifrar as interpretações que alguém tinha feito, tentar descobrir como cada trecho tinha tocado este ser, o que chamava atenção em cada parte. Mas, sim, quem era este leitor. Eu não era a primeira a percorrer aquelas páginas. E, tentando imaginar este outro, ia criando uma segunda história na cabeça. Estava diante de um livro duplo. Dois romances em um.
Acho que era homem. Letra sem capricho, seca, cheia de ponta. Imagino que era jovem e que ganhou o livro de presente. Olhou para a capa curioso. Relato de um escritor da África do Sul, contando as primeiras dúvidas e questionamentos de sua infância. Acho que leu com calma, aos poucos, anotando os pontos pra não esquecer mais tarde, sentado em alguma cadeira de praia, baixando o livro e fixando o olho no mar enquanto pensava nos trechos da história. Se tinha gostado? Sim, tinha, tinha. Mas porque se desfez do livro, então? Não faz muito sentido alguém perder tanto tempo anotando nas bordas para, mais tarde, deixar o exemplar em alguma prateleira de sebo.
Virei a capa e fiquei olhando o título impresso bem no centro da primeira página. Com uma caneta preta escrevi em inglês:

Um lugar pro coração pousar.
Um endereço que freqüente sem morar.
Ali na esquina do sonho com a razão.

Não me dei nem ao trabalho de inventar algo original. Marisa Monte cantava os versos aqui na casa do vizinho, enquanto eu copiava apressada, tentando acompanhar sua fala. Mesmo assim, embaixo das três frases, assinei com letras pouco desenhadas: J.M.Coetzee.
No dia seguinte, estava em frente ao atendente novamente:
- A senhora não gostou? Não é possível, me amarro nesse cara!
- Gostei. Gostei. É por isso que eu tô devolvendo.
- ?
- É pra mais gente poder ler, sabe. Acho que os livros não podem ficar parados não. Têm que circular.
Ele gostou da explicação e pareceu acreditar. Agradeceu e, naquele segundo, foi até a mesma estante de dois dias atrás e depositou o livro entre os romances classificados como literatura estrangeira. De longe, fiquei olhando a lombada negra descansar na prateleira. Me despedi com um riso no canto da boca.

sexta-feira, maio 04, 2007

ai, ai, ai...


Acordei com o joelho doendo. Nem consigo andar. Talvez seja carência... Sempre achei que hipocondria era carência afetiva e, agora que me nasceu este problema na rótula, posso confirmar a tese. Saí pela manhã para o supermercado. Mais de 30 minutos para caminhar, arrastando a perna, a extensão da Barão de Ipanema. No trajeto fui parada por três pessoas que nunca tinha visto na vida. Repito: NUNCA na vida.

- Machucou a perna?

Contente, expliquei:

- Não. É uma inflamação na cartilagem do joelho. Nada demais. Preciso fazer fisioterapia, mas demora pra ficar bom. O médico disse que isso é comum em mulheres, que têm a musculatura da perna sei lá como e precisam de mais exercício e coisa e tal. Mas escapo de uma operação. Bem, o médico acha. Nunca se sabe...

Mais alguns passinhos e um senhor me repetiu a mesma pergunta.
- Machucou o pé?
Feliz, repeti o discurso.
- Não, é uma...
E, invariavelmente, recebi uma receita infalível para curar inflamações na cartilagem do joelho.
- É só botar gelo no local três vezes ao dia.
- Experimenta umas gotinhas de arnica dissolvidas na água. Tiro e queda.
- Repouso. Não devia estar andando. Um dia deitada e levanta nova.
Solidários. Não na alegria e na felicidade, isso é certo. Mas, SEMPRE, na tristeza e na doença. Agradeci a todos os conselhos. Prometi com ar convincente seguir as instruções à risca. E voltei do supermercado com um saquinho envolvendo o detergente. Quando cheguei em casa, vi que nem precisava ter comprado. Tinha um refil guardado na despensa.
Agora, deitada no sofá, mudando os canais da TV com um controle remoto, já me sinto bem melhor. O joelho nem me dói tanto... Mas... se piorar amanhã... talvez tenha que comprar uma bengala!

terça-feira, maio 01, 2007

Risadas ao telefone



Não fui eu quem inventou esta história. Li numa crítica de jornal. Destas de cinema. Logo na primeira frase o autor repetia o verso de Vinícius de Moraes: Todo grande amor só é bem grande se for triste. E eu ri da cabeça virar até atrás e parei para me ver assim no espelho, cheia de certezas, olhos cansados de quem já passou da metade da vida. Tirei o telefone do gancho e liguei pra Olga de troça.

- Tá no jornal de hoje. Olha lá.
- Quem assina? O Romeu?
- É! Deve ser ele! Acabou de conhecer a Julieta no baile e se deu conta de que ela é da família inimiga.

E um monte de hahahahahas preenchendo o tempo entre as frases.

- Mas Romeu é um adolescente!!!!

E a gente ria, ria, como quem sabe de tudo. E da crítica do jornal, passamos pro poema do Vinícius.

- Mas ele tava falando que quem se protege da vida perde a melhor parte dela – arrisco a Olga.
- Acho que não. Acho que é coisa de gente apaixonada. Ele sabe que ficar junto vai ser difícil, mas que chegou a um ponto que não tem como ir embora mesmo. O famoso se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.

E as duas ficaram em silêncio. Fazendo na cabeça uma retrospectiva dos amores do passado. E desatamos a soltar um bando de nomes: João, Felipe, Tobias, Delfim, Juca, Célio, Anderson, Francisco...

E a Olga empacou no Felipe.

- Verão de 64. Nunca esqueci. Aquele sim. Grande amor... – e um suspiro subiu pelo telefone.

E não me arrisquei a falar, mas me lembrei do Alberto de pronto. Namoro cheio de brigas, que terminava e voltava, terminava e voltava, terminava e voltava. Até que um dia eu arrumei uma mochila enorme e falei pra minha mãe que ia viajar nas férias pro Nordeste. Fiquei três meses pulando de cidade em cidade. Demorei umas semanas na Bahia. Fiz amigos em Fortaleza e voltei no inicinho das aulas. Ele já estava com outra, se casou com ela. Teve três filhos e hoje deve ter uma penca de netinhos. Amorzão. Não esqueço.

Falei pra Olga que a máquina de lavar tinha parado. Tava na hora de estender as roupas. E desliguei o telefone pensando porque afinal de contas a gente só se lembra dos que não deram certo, das histórias cheias de sofrimento. É por que ficamos pensando no que poderia ter sido? Se Romeu tivesse se casado com a Julieta a gente não lembrar mais dele? Vou guardar esta crítica pra ler de novo mais tarde...

domingo, abril 15, 2007

procura-se um verso desesperadamente

Uma vez, quase escrevi o verso perfeito. Uma frase só, mas perfeita. Não tinha a ver com métrica, rima ou nada relacionado à forma. Me refiro a idéias. Bombástico e sutil ao mesmo tempo. Surpreendente e simples na medida certa. Sim, teve uma época em que eu escrevia. Chegava a virar noites inteiras preenchendo páginas com a letra quadrada e antiquada da minha Olivetti. Mas, deste período, só ficou na minha cabeça a cena desta noite. A frase brotando, quase pronta e um barulho de chinelas batendo ao longe. O coração disparado, lutando com pressa pras palavras chegarem logo, e o arrastar das chinelas vindo mais depressa que as sílabas, cada vez mais perto. E minha mãe surgiu na porta do quarto com sua camisola azul de listrinhas e, sem perguntar nada ou deixar espaço pra defesa, desligou a luz da luminária:
- Isso são horas? Já pra cama. Amanhã não acorda pra escola.
E o verso se perdeu para sempre.

Pensando bem, não era a minha mãe. Sim, sim. Mas o meu pai. Ele e seu estilo seco. Em vez das chinelas atoalhadas da mãe, o calçado de couro do pai. Inclemente, forte, quase acordando a casa intera com as batidas no chão de taquinho. E, sem deixar espaço para argumentações, me olhou da porta.
_ Magnólia, já está na hora de dormir.
E eu fui e obedeci, olhei para o lado e a escrita foi dormir junto e creio que não se levantou até agora.

Pensando bem, talvez isso não tenha acontecido. Talvez cena mais ou menos assim pertença a um poema chinês que Kafka endereçou a Felice Bauer para justificar encontros que nunca saíam do papel. Ou talvez eu estivesse lendo uma das cartas de Kafka quando o verso me bateu na cabeça, inacabado, mas quase presente. E um pico de luz fez a energia do prédio cessar e, sem poder anotar as idéias, esqueci a arrumação das palavras. Não importa agora.