Querido F.,
Só tenho uma coisa a dizer: e o Rio de Janeiro continua lindo...
Até,
M.
Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno
sábado, setembro 04, 2004
terça-feira, agosto 31, 2004
Orlando, 31 de agosto de 2004
Querido F.,
Descobri hoje de manhã que a minha pssagem é para amanhã e não para quinta, como tinha pensado. Onde estou com a cabeça? Quando olhei a data no bilhete só senti vontade de dizer uma coisa: IIIIUUUPPPPPIIIIIIIII!!! Felicidade! Definitivamete, Orlando e eu não nascemos para ficar juntos. Deixo a terra sem saudades. Hoje fui fazer comprar. Quer dizer, olhar lojas, porque o meu orçamento não me permite comprar mais do que o almoço. Fui num shopping aqui só com pontas de estoque. Uma maravilha. Tudo barato mesmo. Tinha loja da Nike com tênis por menos de R$ 100 (em reais mesmo). Tá certo que isso não é barato, mas experimente ir no shopping e ver quanto está custando um sapato da Nike. Quase o dobro. Tinha Gap e um monte de outras lojas que eu adoro. Consegui comprar uma bolsinha na Gap por US$ 2. Dá pra acreditar? Seis reais! Pudera, tava na promoção da ponta de estoque, mas eu juro que não era bagulho não. Bonitinha que só. Bem, mas minhas compras pararam aí.
Amanhã estou embarcando!
Ah, e agosto acabou! Ainda bem! Êta mês difícil...
Até...
M.
Querido F.,
Descobri hoje de manhã que a minha pssagem é para amanhã e não para quinta, como tinha pensado. Onde estou com a cabeça? Quando olhei a data no bilhete só senti vontade de dizer uma coisa: IIIIUUUPPPPPIIIIIIIII!!! Felicidade! Definitivamete, Orlando e eu não nascemos para ficar juntos. Deixo a terra sem saudades. Hoje fui fazer comprar. Quer dizer, olhar lojas, porque o meu orçamento não me permite comprar mais do que o almoço. Fui num shopping aqui só com pontas de estoque. Uma maravilha. Tudo barato mesmo. Tinha loja da Nike com tênis por menos de R$ 100 (em reais mesmo). Tá certo que isso não é barato, mas experimente ir no shopping e ver quanto está custando um sapato da Nike. Quase o dobro. Tinha Gap e um monte de outras lojas que eu adoro. Consegui comprar uma bolsinha na Gap por US$ 2. Dá pra acreditar? Seis reais! Pudera, tava na promoção da ponta de estoque, mas eu juro que não era bagulho não. Bonitinha que só. Bem, mas minhas compras pararam aí.
Amanhã estou embarcando!
Ah, e agosto acabou! Ainda bem! Êta mês difícil...
Até...
M.
Querido F.,
Hoje fui ao Sea World. Como estava cheio. Nunca imaginei. Uma multidão enorme. Vi um berçário de golfinhos. Não achei muita graça. Os pobres ficam numa piscina (pequena, não é grande não) e a gente fica vendo uns rabinhos mexendo e alguns pulinhos de uns mais levados. Almocei num restaurante onde você consegue ver um monte de tubarões passando. No começo fiquei fascinada. Depois me deu um nervoso danado. Eles passavam e passavam e passavam. Fazendo sempre o mesmo percurso. Pareciam mecânicos. Ai, ai, ai... Talvez eu esteja de mau humor. Mas a verdade é que me senti muito sozinha. Podia ficar sentada num canteiro qualquer daqueles. O dia inteirinho, sem nem me mexer. Ninguém nem ia notar... Era tanta gente que eu me senti invisível...
Até mais,
M.
Hoje fui ao Sea World. Como estava cheio. Nunca imaginei. Uma multidão enorme. Vi um berçário de golfinhos. Não achei muita graça. Os pobres ficam numa piscina (pequena, não é grande não) e a gente fica vendo uns rabinhos mexendo e alguns pulinhos de uns mais levados. Almocei num restaurante onde você consegue ver um monte de tubarões passando. No começo fiquei fascinada. Depois me deu um nervoso danado. Eles passavam e passavam e passavam. Fazendo sempre o mesmo percurso. Pareciam mecânicos. Ai, ai, ai... Talvez eu esteja de mau humor. Mas a verdade é que me senti muito sozinha. Podia ficar sentada num canteiro qualquer daqueles. O dia inteirinho, sem nem me mexer. Ninguém nem ia notar... Era tanta gente que eu me senti invisível...
Até mais,
M.
domingo, agosto 29, 2004
Querido F.,
Estou há quase uma semana aqui em Orlando e a única coisa que posso dizer é que... não aguento mais. Já comprei um chapéu com as orelhinhas do Mickey, bichos de pelúcia nas muitas lojinhas dos parques (não tenho idéia de onde vou colocá-los depois, mas simplesmente parece impossível deixar de comprá-los) e, sim, preciso confessar, no início parecia uma crinça vibrando em montanhas-russas, tirando fotos dos bichos de pertinho no Bush Gardens e mergulhando com os golfinhos no Paradise Island. A sorte foi ter viajado sozinha. Isso evitou que alguém visse cenas ridículas potagonizadas por mim. No Paradise Island, por exemplo, um parque cheio de lagos, onde você pode mergular junto com os peixes e passar a mão em arraias e golfinhos, cada visitante recebe uma macacão de calça e camisa curtas, justinho ao corpo, além de máscara e snorkel. Me espantei quando vi minha imagem refletida num vidro. Minha aparência se aproximava muito a de uma meninnha de uns seis anos, exatamente ao meu lado. Cabelos molhados e descabelados, máscara na mão, ligando a mínima para os pneuzinhos que apareciam desenhados no macacão. É, eles conseguiram me fazer voltar à infância. Quase saí correndo entre os lagos, segurando as pernas com a mão e dando um pulo na água, BOMBA, para molhar todos em volta. Bem, mas nem que eu tivesse seis anos, poderia fazer isso. Porque os americanos são todos cheios de normas, cuidados, leis. Tem o comportamento todo controlado. E era só olhar com mais atenção para o lado para ver que a água dos lagos tinha um gosto insuportável, salgada artificialmente, com temperatura, PH e tudo mais controlado. A vegetação era um jardim planejado por algum paisagista e o ambiente imitava pedra, imitava grama, imitava areia. Estou agoniada com tudo aqui. Tudo à minha volta finge ser alguma coisa.
Ontem senti um certo alívio. Fui visitar um lugar chamado Ybor City, em Tampa. É um bairro histórico. Eu não sabia, mas muitos cubanos se instalaram nesta localidade no início do século passado e a região chegou a ser um pólo de fabricação de charutos. Hoje ainda é possível comprar charutos feitos lá, mas as fábricas fecharam quase todas. Os prédios, porém, ainda estão de pé, feitos de tijolos de verdade, maçicos, com os enormes janelões para iluminar o ambiente. Tem museu, com aposentados dando explicações sobre a história local, e dá para fazer um passeio a pé (coisa rara nos Estados Unidos) com guia, dando uma volta por todo o bairro. Um alívio... Tudo ali existiu de verdade e tem uma história para contar. Me senti, pelo menos um pouquinho, conectada com o mundo.
Bem, ainda faltam três dias. Mando notícias.
Até.
M.
Estou há quase uma semana aqui em Orlando e a única coisa que posso dizer é que... não aguento mais. Já comprei um chapéu com as orelhinhas do Mickey, bichos de pelúcia nas muitas lojinhas dos parques (não tenho idéia de onde vou colocá-los depois, mas simplesmente parece impossível deixar de comprá-los) e, sim, preciso confessar, no início parecia uma crinça vibrando em montanhas-russas, tirando fotos dos bichos de pertinho no Bush Gardens e mergulhando com os golfinhos no Paradise Island. A sorte foi ter viajado sozinha. Isso evitou que alguém visse cenas ridículas potagonizadas por mim. No Paradise Island, por exemplo, um parque cheio de lagos, onde você pode mergular junto com os peixes e passar a mão em arraias e golfinhos, cada visitante recebe uma macacão de calça e camisa curtas, justinho ao corpo, além de máscara e snorkel. Me espantei quando vi minha imagem refletida num vidro. Minha aparência se aproximava muito a de uma meninnha de uns seis anos, exatamente ao meu lado. Cabelos molhados e descabelados, máscara na mão, ligando a mínima para os pneuzinhos que apareciam desenhados no macacão. É, eles conseguiram me fazer voltar à infância. Quase saí correndo entre os lagos, segurando as pernas com a mão e dando um pulo na água, BOMBA, para molhar todos em volta. Bem, mas nem que eu tivesse seis anos, poderia fazer isso. Porque os americanos são todos cheios de normas, cuidados, leis. Tem o comportamento todo controlado. E era só olhar com mais atenção para o lado para ver que a água dos lagos tinha um gosto insuportável, salgada artificialmente, com temperatura, PH e tudo mais controlado. A vegetação era um jardim planejado por algum paisagista e o ambiente imitava pedra, imitava grama, imitava areia. Estou agoniada com tudo aqui. Tudo à minha volta finge ser alguma coisa.
Ontem senti um certo alívio. Fui visitar um lugar chamado Ybor City, em Tampa. É um bairro histórico. Eu não sabia, mas muitos cubanos se instalaram nesta localidade no início do século passado e a região chegou a ser um pólo de fabricação de charutos. Hoje ainda é possível comprar charutos feitos lá, mas as fábricas fecharam quase todas. Os prédios, porém, ainda estão de pé, feitos de tijolos de verdade, maçicos, com os enormes janelões para iluminar o ambiente. Tem museu, com aposentados dando explicações sobre a história local, e dá para fazer um passeio a pé (coisa rara nos Estados Unidos) com guia, dando uma volta por todo o bairro. Um alívio... Tudo ali existiu de verdade e tem uma história para contar. Me senti, pelo menos um pouquinho, conectada com o mundo.
Bem, ainda faltam três dias. Mando notícias.
Até.
M.
terça-feira, agosto 24, 2004
Querido F.,
Saudades suas... Acabou o período de luto. Pelo menos, decidi que era hora de retomar a vida. Estou aqui no aeroporto. Parei um minuto para lhe enviar esta mensagem. Vou para Orlando. Tantos e tantos brasileiros fazem este mesmo percurso todo ano. Os americanos mesmo, basta ter um pequeno feriado, para se enfiarem nos parques de diversões. Vou também. Colei adesivos coloridos na minha mala. Portanto, acho que não vou ter problemas em encontrá-la e ando animada. Quero experimentar tudo, deixar a parte criança que ainda existe aqui dentro fluir. Vamos ver o que acontece.
Ah, os dias voltaram a nascer ensolarados....
Até mais...
M.
Saudades suas... Acabou o período de luto. Pelo menos, decidi que era hora de retomar a vida. Estou aqui no aeroporto. Parei um minuto para lhe enviar esta mensagem. Vou para Orlando. Tantos e tantos brasileiros fazem este mesmo percurso todo ano. Os americanos mesmo, basta ter um pequeno feriado, para se enfiarem nos parques de diversões. Vou também. Colei adesivos coloridos na minha mala. Portanto, acho que não vou ter problemas em encontrá-la e ando animada. Quero experimentar tudo, deixar a parte criança que ainda existe aqui dentro fluir. Vamos ver o que acontece.
Ah, os dias voltaram a nascer ensolarados....
Até mais...
M.
quinta-feira, agosto 05, 2004
Minha mala não saiu do armário, estou sentada na minha própria cama, do lado da minha mesinha de cabeceira, longe de qualquer mobiliário impessoal de um quarto de hotel. Mas hoje eu acordei e estava tudo diferente. Olhei pela janela e juro que o prédio da frente não estava mais lá, colocaram uma névoa densa e cinza no lugar. Não havia árvores na rua e pessoas de roupa fluorescente circulavam lá embaixo. Que cidade é essa? Tantas vezes já acordei assustada no meio da noite numa cidade distante, de um país esquisito, tentando fazer na memória o percurso das últimas semanas. Tentando me localizar num espaço irreconhecível. Nunca tinha acontecido era de despertar em casa e me sentir no apartamento de outra pessoa, como nos sonhos, você gira a chave e encontra do outro lado da porta uma casa que não é mais a sua, ocupada por pessoas que você nunca viu. É como se de repente, não existisse mais lugar para você no mundo, puxaram o tapete e, junto com ele, foi tudo o que tinha sido estruturado, arrumado, empilhado.
Caminhei até a sala e meu sofá tinha mudado de cor, pelo menos eu não me lembrava de ter escolhido um tecido verde para forrar aqueles módulos de espuma. A janela estava coberta de plantas, folhas que eu nunca vi, que parece terem crescido ao longo da noite. Abri o vidro e entrou uma brisa empoeirada e um tufo de vento jogou folhas secas que estavam na rua para dentro de casa. Agora, é como se estivesse num edifício abandonado, destes que se vê no noticiário da noite, invadido por um bando de gente que não onde viver. Onde é que eu estou? Pela geladeira, fico com a impressão de estar na casa de alguém de regime, muito magro. Dois vidros de iogurte desnatado já fora de validade pendem da porta, junto com cinco maçãs meio passadas. Me espanto quando olho para o chão. Botaram um tapete azul celeste ali que eu nunca teria escolhido, com um bordado bem no meio, um coração explodindo.
Pelo frio fico achando que estou no Sul do país ou talvez esteja em pleno inverno de Londres, isso explicaria a névoa lá fora. Um frio forte. Não consigo fazer mais nada, volto pra cama. No caminho tropeço numa toalha embolada na porta do quarto. Recolho e sinto um cheiro tão familiar que lembro de tudo. A Juba, perdi a Juba. Fui levá-la para passear de noite e ela começou a correr de repente, correr, correr. No meio da calçada, sumiu na escuridão. Gritei, chorei, chamei, procurei em toda parte. Sumiu a minha vida.
Desculpe não ter botado data nesta carta, não sei que dia é hoje. Já estamos em agosto?
Até M.
Caminhei até a sala e meu sofá tinha mudado de cor, pelo menos eu não me lembrava de ter escolhido um tecido verde para forrar aqueles módulos de espuma. A janela estava coberta de plantas, folhas que eu nunca vi, que parece terem crescido ao longo da noite. Abri o vidro e entrou uma brisa empoeirada e um tufo de vento jogou folhas secas que estavam na rua para dentro de casa. Agora, é como se estivesse num edifício abandonado, destes que se vê no noticiário da noite, invadido por um bando de gente que não onde viver. Onde é que eu estou? Pela geladeira, fico com a impressão de estar na casa de alguém de regime, muito magro. Dois vidros de iogurte desnatado já fora de validade pendem da porta, junto com cinco maçãs meio passadas. Me espanto quando olho para o chão. Botaram um tapete azul celeste ali que eu nunca teria escolhido, com um bordado bem no meio, um coração explodindo.
Pelo frio fico achando que estou no Sul do país ou talvez esteja em pleno inverno de Londres, isso explicaria a névoa lá fora. Um frio forte. Não consigo fazer mais nada, volto pra cama. No caminho tropeço numa toalha embolada na porta do quarto. Recolho e sinto um cheiro tão familiar que lembro de tudo. A Juba, perdi a Juba. Fui levá-la para passear de noite e ela começou a correr de repente, correr, correr. No meio da calçada, sumiu na escuridão. Gritei, chorei, chamei, procurei em toda parte. Sumiu a minha vida.
Desculpe não ter botado data nesta carta, não sei que dia é hoje. Já estamos em agosto?
Até M.
sexta-feira, julho 16, 2004
Rio de Janeiro, 16 de julho de 2004
Querido F.,
Lygia Fagunde Telles, Paul Auster, Veríssimo, Michael Amis. Todos foram para Paraty na última semana. Portanto, eu fui também. E, desta vez, levei a Juba. Tenho de admitir que ando me sentindo meio solitária. Tudo bem, viajar por aí, sem ninguém para discutir, só você para decidir tudo, dá uma certa sensação de liberdade. Mas desta vez, quis companhia. E quando estava saindo de casa, ela me olhou com olhos de quem pedia para não ficar no hotal novamente. Concordei. Levei a pequena comigo.
Me hospedei numa pousada na estrada Paraty-Cunha. Posso dizer que a cidade andava lotada por conta da Flip. Mas é mentira, reservei com antecedência. É porque, por ali, os preços são muito mais baratos. É impressionante, mas é só cruzar a corrente que separa o Centro Histórico do resto de tudo que os preços despencam.
Minha pousada não aceitava cachorros. Mas Juba se comportou muito bem. Ficava escondida na bolsa quando eu entrava e saía do hotel. Aluguei uma bicicleta com cestinha e foi assim que nós duas íamos e voltávamos para o centro. Não é que todo mundo faz o mesmo. Descobri que os paratienses só andam de bike, como o meu sobrinho gosta de dizer. Encontrava senhoras, jovens, crianças, idosos, todos pedalando pelo caminho.
Numa dessas idas, eu e Juba nos deparamos com Chico Buarque. Tirei uma foto. Assim que revelar, te envio. Chico, quem diria, estava jogando futebol num campo perto da entrada da cidade. Fiquei horas olhando aquelas pernas correrem pelo gramado. Tá certo, não são lá pernas muito bonitas. Afinal, ele fez 60 (!) este ano. Mas são as pernas do Chico Buarque, ora bolas. Se fossem bonitas ninguém nem agüentava ficar olhando.
Amo Paraty! Paraty me irrita! Adoro o casario colorido, o clima do lugar (agora então, estava tudo fervilhando cultura, mimeógrafos rodando na praça, palestras com escritores, debates em bares), o grupo de teatro de bonecos, aquele jeitinho de Tiradentes com um mar enorme banhando... O problema é o calçamento pé-de-moleque. Lindo de olhar em fotos e postais, horrível de testar na prática. É que ele me obriga a andar sempre olhando para o chão e perdendo todas estas coisas boas que eu já citei. Andando pelo Centro Histórico, por exemplo, eu posso ter passado mais de dez vezes pelo Chico Buarque sem nem ter percebido. Estava olhando para os meus pés, decidindo o caminho a percorrer, para não me esborrachar no chão. Em Paraty, qualquer estrela de cinema pode andar tranqüila, sem ser reconhecida. Afinal, todos que passarem por ela vão estar com os olhos para baixo, procurando um caminho seguro em meio as pedras irregulares.
Entrei num bar e vi a Clarah Averbuck, aquela menina do bog que publicou um livro, falando. Não prestei muita atenão ao que dizia, curiosa que estava em desvendar sua personalidade naqueles pequenos minutos. Tem força, personalidade. Acho que vamos acompanhar ela crescer através dos livros que for publicando. É adolescente de alma. Mas, se tiver sorte, continua assim.
Tive que levantar rápido. Juba se mexia dentro da bolsa, estava apertada para ir no banheiro. Aliás, quantos amigos Juba não fez nas andanças por Paraty. Cidade cheia de cachorros aquela. Outra qualidade para acrescentar na minha lista.
Saudade da cidade. De ver a Lygia falando do seu amor por Dom Casmurro. Tive vontade de dizer: Eu também, Lygia. Eu tambem amo o Bentinho, a Capitu, o Escobar. De ver o Verissimo questionar o que é um clássico. A Coca-Cola não batizou a sua tradicional fórmula de classic? Então, eu também posso batizar meus escritores saborosos e inesquecíveis de meus clássicos. E de conhecer estes dois ingleses tão famosos, Martim Amis e Ian McEwan, que eu nunca tinha lido. Voltei com um exemplar de Amis debaixo do baço. Já digo se é bom.
Até...
Querido F.,
Lygia Fagunde Telles, Paul Auster, Veríssimo, Michael Amis. Todos foram para Paraty na última semana. Portanto, eu fui também. E, desta vez, levei a Juba. Tenho de admitir que ando me sentindo meio solitária. Tudo bem, viajar por aí, sem ninguém para discutir, só você para decidir tudo, dá uma certa sensação de liberdade. Mas desta vez, quis companhia. E quando estava saindo de casa, ela me olhou com olhos de quem pedia para não ficar no hotal novamente. Concordei. Levei a pequena comigo.
Me hospedei numa pousada na estrada Paraty-Cunha. Posso dizer que a cidade andava lotada por conta da Flip. Mas é mentira, reservei com antecedência. É porque, por ali, os preços são muito mais baratos. É impressionante, mas é só cruzar a corrente que separa o Centro Histórico do resto de tudo que os preços despencam.
Minha pousada não aceitava cachorros. Mas Juba se comportou muito bem. Ficava escondida na bolsa quando eu entrava e saía do hotel. Aluguei uma bicicleta com cestinha e foi assim que nós duas íamos e voltávamos para o centro. Não é que todo mundo faz o mesmo. Descobri que os paratienses só andam de bike, como o meu sobrinho gosta de dizer. Encontrava senhoras, jovens, crianças, idosos, todos pedalando pelo caminho.
Numa dessas idas, eu e Juba nos deparamos com Chico Buarque. Tirei uma foto. Assim que revelar, te envio. Chico, quem diria, estava jogando futebol num campo perto da entrada da cidade. Fiquei horas olhando aquelas pernas correrem pelo gramado. Tá certo, não são lá pernas muito bonitas. Afinal, ele fez 60 (!) este ano. Mas são as pernas do Chico Buarque, ora bolas. Se fossem bonitas ninguém nem agüentava ficar olhando.
Amo Paraty! Paraty me irrita! Adoro o casario colorido, o clima do lugar (agora então, estava tudo fervilhando cultura, mimeógrafos rodando na praça, palestras com escritores, debates em bares), o grupo de teatro de bonecos, aquele jeitinho de Tiradentes com um mar enorme banhando... O problema é o calçamento pé-de-moleque. Lindo de olhar em fotos e postais, horrível de testar na prática. É que ele me obriga a andar sempre olhando para o chão e perdendo todas estas coisas boas que eu já citei. Andando pelo Centro Histórico, por exemplo, eu posso ter passado mais de dez vezes pelo Chico Buarque sem nem ter percebido. Estava olhando para os meus pés, decidindo o caminho a percorrer, para não me esborrachar no chão. Em Paraty, qualquer estrela de cinema pode andar tranqüila, sem ser reconhecida. Afinal, todos que passarem por ela vão estar com os olhos para baixo, procurando um caminho seguro em meio as pedras irregulares.
Entrei num bar e vi a Clarah Averbuck, aquela menina do bog que publicou um livro, falando. Não prestei muita atenão ao que dizia, curiosa que estava em desvendar sua personalidade naqueles pequenos minutos. Tem força, personalidade. Acho que vamos acompanhar ela crescer através dos livros que for publicando. É adolescente de alma. Mas, se tiver sorte, continua assim.
Tive que levantar rápido. Juba se mexia dentro da bolsa, estava apertada para ir no banheiro. Aliás, quantos amigos Juba não fez nas andanças por Paraty. Cidade cheia de cachorros aquela. Outra qualidade para acrescentar na minha lista.
Saudade da cidade. De ver a Lygia falando do seu amor por Dom Casmurro. Tive vontade de dizer: Eu também, Lygia. Eu tambem amo o Bentinho, a Capitu, o Escobar. De ver o Verissimo questionar o que é um clássico. A Coca-Cola não batizou a sua tradicional fórmula de classic? Então, eu também posso batizar meus escritores saborosos e inesquecíveis de meus clássicos. E de conhecer estes dois ingleses tão famosos, Martim Amis e Ian McEwan, que eu nunca tinha lido. Voltei com um exemplar de Amis debaixo do baço. Já digo se é bom.
Até...
quarta-feira, junho 30, 2004
Vassouras, 30 de junho de 2004
Querido F.,
Visitei a casa de Eufrásia Teixeira Leite. Até a adolescência, ela viveu numa chácara em Vassouras que hoje se transformou no museu Casa da Hera. Mas não foram os móveis trazidos da França, os papéis de parede, os vestidos e sapatos importados, ainda bem preservados, que me chamaram atenção. Nem mesmo a organização dos cômodos, que mostra bem como vivia uma família no século XIX, com as alcovas na entrada, para viajantes e convidados e o jardim interno (inovação na época!), para as mulheres apanharem sol protegidas dos olhares dos curiosos.
Gostei foi da história. Eufrásia era neta do Barão de Campo Belo e sobrinha do Barão de Vassouras e viveu no período em que o café trouxe poder e fortuna a donos de fazendas produtoras. Depois da adolescência, trocou Vassouras pelo agito do Rio e, quando os pais morreram, achou que aquilo era pouco e se mudou com a irmã para Paris, onde tudo parecia acontecer por aqueles anos.
Numa época em que as mulheres eram criadas para formarem famílias, Eufrásia não quis saber de se casar. Os maldosos vão dizer que ela era feia, que ninguém quis. Não achei não. Pela casa, havia pinturas aos 18 anos, aos vinte e poucos... Era interessante.
Se mudou para a França aos 23 anos (se seguisse a tendência da época, deveria ter se casado aos 15) e, na viagem, conheceu o abolicionista Joaquim Nabuco. Ficou noiva. Mas, por estes motivos da vida que só quem vive pode explicar com exatidão, não se casou. Investiu a fortuna do pai no mercado financeiro e, quando morreu, em 1930, aos 80 anos, sua fortuna equivalia a 10% do PIB brasileiro.
Eufrásia vai entrar na pesquisa. Aquela que eu comecei a fazer depois da aposentadoria, lembra?
Até...
Querido F.,
Visitei a casa de Eufrásia Teixeira Leite. Até a adolescência, ela viveu numa chácara em Vassouras que hoje se transformou no museu Casa da Hera. Mas não foram os móveis trazidos da França, os papéis de parede, os vestidos e sapatos importados, ainda bem preservados, que me chamaram atenção. Nem mesmo a organização dos cômodos, que mostra bem como vivia uma família no século XIX, com as alcovas na entrada, para viajantes e convidados e o jardim interno (inovação na época!), para as mulheres apanharem sol protegidas dos olhares dos curiosos.
Gostei foi da história. Eufrásia era neta do Barão de Campo Belo e sobrinha do Barão de Vassouras e viveu no período em que o café trouxe poder e fortuna a donos de fazendas produtoras. Depois da adolescência, trocou Vassouras pelo agito do Rio e, quando os pais morreram, achou que aquilo era pouco e se mudou com a irmã para Paris, onde tudo parecia acontecer por aqueles anos.
Numa época em que as mulheres eram criadas para formarem famílias, Eufrásia não quis saber de se casar. Os maldosos vão dizer que ela era feia, que ninguém quis. Não achei não. Pela casa, havia pinturas aos 18 anos, aos vinte e poucos... Era interessante.
Se mudou para a França aos 23 anos (se seguisse a tendência da época, deveria ter se casado aos 15) e, na viagem, conheceu o abolicionista Joaquim Nabuco. Ficou noiva. Mas, por estes motivos da vida que só quem vive pode explicar com exatidão, não se casou. Investiu a fortuna do pai no mercado financeiro e, quando morreu, em 1930, aos 80 anos, sua fortuna equivalia a 10% do PIB brasileiro.
Eufrásia vai entrar na pesquisa. Aquela que eu comecei a fazer depois da aposentadoria, lembra?
Até...
segunda-feira, junho 21, 2004
Rio de Janeiro, 20 de junho de 2004
Querido F.,
Estava pensando hoje, enquanto tirava os sapatos e estendia os pés em cima da cama, que o tempo é relativo. Saí ontem de manhã de ônibus em direção a Vassouras. Volto hoje, um dia só fora e parece que fiquei uma semana longe da minha casa. Corri para regar as plantas, pensando que as pobres deviam estar secas e sem atenção. Depois, me lembrei que ontem mesmo eu pensei algo parecido e enchi os pratinhos até quase transbordarem. Ainda mato uma alagada.
Mas o motivo da sensação, foi a quantidade de coisas que fiz lá pelas terras dos antigos barões do café. Passei um fim de semana visitando fazendas.
Mergulhei na história, na do passado e na do presente. Isto porque, de uns anos para cá, os atuais proprietários de muitas destas lendárias fazendas resolveram receber o público em suas próprias casas. Você paga uma taxa, agenda tudo por telefone e é recebido pelo próprio dono da casa, de forma simpática, como se fosse um convidado numa tarde de festa. Alguns vêm caracterizados, com roupas de época.
Andando pelos cômodos, você vai vendo onde ficava a capela, a sala de jantar, as alcovas e o fulano desfia toda a história do barão sicrano, o primeiro dono daquele pedaço de chão. E vai explicando as modificações que fez naqueles palácios em estilo colonial (se é que isto existe), com uns vinte quartos, quatro salas e uma infinidade de janelas. Do lado de fora, você explora o terreno sozinho e vê onde ficava a senzala, o terreiro de café... Em muitos casos, há só ruínas para ver destas partes, o que, convenhamos, é ainda mais prazeroso. A imaginação vai juntando aquelas pedras todas, as que estão ali e as que já sumiram com o tempo, e você espia como era tudo, olha numa fresta para dentro do passado.
No fim do tour, na maioria das vezes, há um chá, do jeitinho que as senhoras costumavam fazer em mil oitocentos e bolinha. É, mas parece que até os dias de hoje, só a nós mesmo o programa tem um ar tentador. Só me deparei com senhoras durante o percurso e, apesar de ter ido sozinha, vi vans chegarem cheias delas.
Mas, vagando por ali, não consegui deixar de viajar um pouco na história dos donos de hoje também. Em como deve ser louco morar numa daquelas casas imensas, decoradas como no início do século retrasado. A cadeira de D. Pedro II, que já viu uns dois séculos virarem, parecendo estalar de nova. Limpa, linda, conservada. Me vi naqueles espaços também. Imaginei como ficaria a minha decoração, onde receberia os amigos para as reuniões de domingo, onde botaria meus livros e, em que cantinho, numa casa tão cheia deles, guardaria minha querida mala.
Numa das fazendas, a família inteira me esperava para a visita, o casal, o filho e a nora. Como é engraçado como, às vezes, o destino empurra a gente pra uma casa como aquela. A nora talvez gostasse da cidade, de ir ao cinema nos fins de tarde, de manter um blog na internet. Talvez tivesse passado a vida inteira morando num apartamento de dois quartos no meio da Nossa Senhora de Copacabana. Mas, por estas voltas que a vida dá, se casou com o filho de um fazendeiro e, por estas coisas que a gente faz sem saber muito bem o por quê, estava ali, vivendo na antiga fazenda do Barão de Vassouras.
Se isso tivesse acontecido comigo, o barão que me perdoasse, mas eu ia encher um canto do quarto com almofadões em tecido indiano, ia levar a Clarice, a Lygia e a Hilda Hilst para viver comigo lá dentro, nem que tivessem que, para não brigar com a decoração, serem encadernadas com capa de couro.
Caetano, Gil e os Mutantes iam ecoar naquelas paredes que tantos concertos e noites de piano já devem ter presenciado. E um carro, um fusca que fosse, ia ter que me esperar na garagem. Porque, neste caso, a família que me perdoasse, mas viagens virtuais não são o suficiente par mim.
E foi em Vassouras também, numa das visitas, que descobri um pouco da vida de Eufrásia Teixeira Leite. Mas esta história eu vou ter que deixar para depois. A chaleira está apitando na cozinha...
Até...
Querido F.,
Estava pensando hoje, enquanto tirava os sapatos e estendia os pés em cima da cama, que o tempo é relativo. Saí ontem de manhã de ônibus em direção a Vassouras. Volto hoje, um dia só fora e parece que fiquei uma semana longe da minha casa. Corri para regar as plantas, pensando que as pobres deviam estar secas e sem atenção. Depois, me lembrei que ontem mesmo eu pensei algo parecido e enchi os pratinhos até quase transbordarem. Ainda mato uma alagada.
Mas o motivo da sensação, foi a quantidade de coisas que fiz lá pelas terras dos antigos barões do café. Passei um fim de semana visitando fazendas.
Mergulhei na história, na do passado e na do presente. Isto porque, de uns anos para cá, os atuais proprietários de muitas destas lendárias fazendas resolveram receber o público em suas próprias casas. Você paga uma taxa, agenda tudo por telefone e é recebido pelo próprio dono da casa, de forma simpática, como se fosse um convidado numa tarde de festa. Alguns vêm caracterizados, com roupas de época.
Andando pelos cômodos, você vai vendo onde ficava a capela, a sala de jantar, as alcovas e o fulano desfia toda a história do barão sicrano, o primeiro dono daquele pedaço de chão. E vai explicando as modificações que fez naqueles palácios em estilo colonial (se é que isto existe), com uns vinte quartos, quatro salas e uma infinidade de janelas. Do lado de fora, você explora o terreno sozinho e vê onde ficava a senzala, o terreiro de café... Em muitos casos, há só ruínas para ver destas partes, o que, convenhamos, é ainda mais prazeroso. A imaginação vai juntando aquelas pedras todas, as que estão ali e as que já sumiram com o tempo, e você espia como era tudo, olha numa fresta para dentro do passado.
No fim do tour, na maioria das vezes, há um chá, do jeitinho que as senhoras costumavam fazer em mil oitocentos e bolinha. É, mas parece que até os dias de hoje, só a nós mesmo o programa tem um ar tentador. Só me deparei com senhoras durante o percurso e, apesar de ter ido sozinha, vi vans chegarem cheias delas.
Mas, vagando por ali, não consegui deixar de viajar um pouco na história dos donos de hoje também. Em como deve ser louco morar numa daquelas casas imensas, decoradas como no início do século retrasado. A cadeira de D. Pedro II, que já viu uns dois séculos virarem, parecendo estalar de nova. Limpa, linda, conservada. Me vi naqueles espaços também. Imaginei como ficaria a minha decoração, onde receberia os amigos para as reuniões de domingo, onde botaria meus livros e, em que cantinho, numa casa tão cheia deles, guardaria minha querida mala.
Numa das fazendas, a família inteira me esperava para a visita, o casal, o filho e a nora. Como é engraçado como, às vezes, o destino empurra a gente pra uma casa como aquela. A nora talvez gostasse da cidade, de ir ao cinema nos fins de tarde, de manter um blog na internet. Talvez tivesse passado a vida inteira morando num apartamento de dois quartos no meio da Nossa Senhora de Copacabana. Mas, por estas voltas que a vida dá, se casou com o filho de um fazendeiro e, por estas coisas que a gente faz sem saber muito bem o por quê, estava ali, vivendo na antiga fazenda do Barão de Vassouras.
Se isso tivesse acontecido comigo, o barão que me perdoasse, mas eu ia encher um canto do quarto com almofadões em tecido indiano, ia levar a Clarice, a Lygia e a Hilda Hilst para viver comigo lá dentro, nem que tivessem que, para não brigar com a decoração, serem encadernadas com capa de couro.
Caetano, Gil e os Mutantes iam ecoar naquelas paredes que tantos concertos e noites de piano já devem ter presenciado. E um carro, um fusca que fosse, ia ter que me esperar na garagem. Porque, neste caso, a família que me perdoasse, mas viagens virtuais não são o suficiente par mim.
E foi em Vassouras também, numa das visitas, que descobri um pouco da vida de Eufrásia Teixeira Leite. Mas esta história eu vou ter que deixar para depois. A chaleira está apitando na cozinha...
Até...
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