Querido F.,
Hoje tenho duas coisas para falar. Primeiro, fiquei muito irritada porque a Lucy resolveu convidar o Juarez para nos acompanhar em nossa viagem a ILha Grande. Da para acreditar? Lembra dele? Beberrao. Vive com o nariz vermelho de tanta cachaça, cantando todas as mulheres que passam, com aquele ar de gala decadente. Fiquei revoltada. Tenho certeza de que, mesmo la, no meio do mato e da natureza, Juarez vai encontrar um pe-sujo para passar as noites. E vai varar a madrugada com a barriga encostada no balcao, conhecendo a historia do bar e do dono do estabelecimento inteirinhas. Depois, vai querer nos convencer de que encontrou uma reliquia em plena Angra dos Reis.... Saco!
E nao posso deixar de registrar aqui minha profunda tristeza com a morte de Fernando Sabino. Me senti muito sozinha quando escutei no jornal que ele tinha partido. Grande amigo. Que me ensinou em livros como, "O encontro marcado", que se sentir um marciano em plena Terra nao era privilegio ou dor apenas minha. Que a angustia e aquele vazio dentro do peito, de quem nao descobre o seu lugar, estao presentes em outros coraçoes tambem.
Hilda Hilst, Fernando Sabino..... Era tao bom saber que eles continuavam por aqui, caminhando, produzindo...Mesmo que eu nunca tivesse trocado uma palavra com nenhum dos dois. Era muito bom saber que estavam por perto. Saudades....
Ate,
M.
Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno
quarta-feira, outubro 20, 2004
sexta-feira, outubro 15, 2004
Querido F.,
Lucy nao quer acampar. Disse que este tempo ja passou e que hoje ela gosta mesmo e de uma pousadinha confortavel, com ar-condicionado, lençois limpos e banho quente. Talvez tenha razao.... Disse que seu tempo de menina hippie ficou no passado e, hoje, aprendeu com a maturidade que nao precisa passar nenhum sufoco para estar em contato direto com a natureza. Quer tirar o melhor de tudo...
Talvez ficasse meio ridiculo mesmo... Duas senhoras com seus pequenos cachorros penteados querendo voltar no tempo numa barraca de camping. O tempo nao volta. Passou.
Mas vmos comemorar o hoje, entao. A amizade e a natureza!
Ate,
M.
Lucy nao quer acampar. Disse que este tempo ja passou e que hoje ela gosta mesmo e de uma pousadinha confortavel, com ar-condicionado, lençois limpos e banho quente. Talvez tenha razao.... Disse que seu tempo de menina hippie ficou no passado e, hoje, aprendeu com a maturidade que nao precisa passar nenhum sufoco para estar em contato direto com a natureza. Quer tirar o melhor de tudo...
Talvez ficasse meio ridiculo mesmo... Duas senhoras com seus pequenos cachorros penteados querendo voltar no tempo numa barraca de camping. O tempo nao volta. Passou.
Mas vmos comemorar o hoje, entao. A amizade e a natureza!
Ate,
M.
terça-feira, outubro 12, 2004
Querido F.,
A Lucy veio aqui em casa na ultima semana. Ha tempos nao nos viamos e ficamos horas botando o papo em dia. Fiz um jantar caprichado, daqueles que costumava fazer para voce, lembra? Cuscuz marroquino e frango com curry. Receita da vovo. Ficou excelente. Tomamos vinhos, acendi umas velinhas com suporte de ceramica em cima para filtrar a luz e abri a porta da varanda para a casa ficar com cheirinho de mato. Pode acreditar. Com a quantidade de plantas que tenho na varanda, consigo cheirinho de mato em plena Nossa Senhora de Copacabana.
Lucy vai voltar a morar no Brasil. Falei para ela que talvez um dia voce venha tambem, nao e mesmo? Se casou pela quinta vez e agora anda escrevendo umas colunas sobre sexo para o jornal Folha de Sao Paulo. Supimpa! Achei interessante. MInha amiga fica ate o fim deste mes e combinamos de passar um fim de semana em Ilha Grande acampando. E, isso mesmo. Vamos acampar para lembrar os velhos e bons tempos. Saudades suas....
Ate,
Madame M.
A Lucy veio aqui em casa na ultima semana. Ha tempos nao nos viamos e ficamos horas botando o papo em dia. Fiz um jantar caprichado, daqueles que costumava fazer para voce, lembra? Cuscuz marroquino e frango com curry. Receita da vovo. Ficou excelente. Tomamos vinhos, acendi umas velinhas com suporte de ceramica em cima para filtrar a luz e abri a porta da varanda para a casa ficar com cheirinho de mato. Pode acreditar. Com a quantidade de plantas que tenho na varanda, consigo cheirinho de mato em plena Nossa Senhora de Copacabana.
Lucy vai voltar a morar no Brasil. Falei para ela que talvez um dia voce venha tambem, nao e mesmo? Se casou pela quinta vez e agora anda escrevendo umas colunas sobre sexo para o jornal Folha de Sao Paulo. Supimpa! Achei interessante. MInha amiga fica ate o fim deste mes e combinamos de passar um fim de semana em Ilha Grande acampando. E, isso mesmo. Vamos acampar para lembrar os velhos e bons tempos. Saudades suas....
Ate,
Madame M.
domingo, outubro 03, 2004
Querido F.,
Meu computador quebrou... Isso explica tanto tempo sem escrever. Não sei o que fazer para conserta-lo. Fico pensando porque não optei por me casar na minha vida. Isto resolveria muitos dos meus problemas... Ia ter pelo menos alguem para me ajudar a manter as coisas funcionando.
Na semana passada fui a São Paulo. A intenção era ir à Bienal, mas eu me informei mal. A exposição só começaria no fim de semana. E, como agora estou sofrendo uma coisa muito estranha: uma vontade louca de sair de casa e, depois de uns dias, uma outra ainda maior de voltar logo (nunca estamos satisfeitos, não é mesmo?), não vi nada de artes plásticas na minhas estada por lá. Aproveitei, então, para assistir à apresentação do Ballet do Teatro Scala de Milão. Balé clássico me faz lembrar a infância. As aulas de balé na Dalal Achcar, no Rio. Foi tudo muito lindo por lá. O grupo dançou uma versao de "Sonho de uma noite de verao", a obra de Shakespeare coreografada pelo mestre Balanchine, que revolucionou a dança classica no seculo XX. Amei! Agora, preciso marcar outra viagem. Acho que volto para ver as artes...
Até,
M.
Meu computador quebrou... Isso explica tanto tempo sem escrever. Não sei o que fazer para conserta-lo. Fico pensando porque não optei por me casar na minha vida. Isto resolveria muitos dos meus problemas... Ia ter pelo menos alguem para me ajudar a manter as coisas funcionando.
Na semana passada fui a São Paulo. A intenção era ir à Bienal, mas eu me informei mal. A exposição só começaria no fim de semana. E, como agora estou sofrendo uma coisa muito estranha: uma vontade louca de sair de casa e, depois de uns dias, uma outra ainda maior de voltar logo (nunca estamos satisfeitos, não é mesmo?), não vi nada de artes plásticas na minhas estada por lá. Aproveitei, então, para assistir à apresentação do Ballet do Teatro Scala de Milão. Balé clássico me faz lembrar a infância. As aulas de balé na Dalal Achcar, no Rio. Foi tudo muito lindo por lá. O grupo dançou uma versao de "Sonho de uma noite de verao", a obra de Shakespeare coreografada pelo mestre Balanchine, que revolucionou a dança classica no seculo XX. Amei! Agora, preciso marcar outra viagem. Acho que volto para ver as artes...
Até,
M.
domingo, setembro 19, 2004
Querido F.,
Nao sei se te contei, mas agora ando fazendo analise. E. De tanto insistirem comigo, resolvi ceder. Ficavam dizendo que esta minha mania de viver viajando e simplesmente uma forma de escapar da vida. Eu sei, eu sei, que toda vez que me sinto um pouquinho deprimida, um ventinho monotono que seja batendo na minha janela, corro e arrumo as malas. As pessoas ate podem ter razao. Viajar tambem nao e vida? Pois, entao. Como posso estar correndo dela? MInha analista, como todo analista, acha que ha um fundinho de verdade nisso tudo e que meus mais fundo desejos pedem que eu me aquiete em casa. Caso contrario, o que afinal de contas estaria eu fazendo la. Afinal, nao fui obrigada. Eu mesma marquei minha primeira hora. Ela provavelmente tem um pouco de razao. Agora, minhas escapolidas tem tempo determinado. Nao podem durar mais do que uma semana. Toda sexta, Amelia esta la esperando por mim. E sabe que tenho gostado? Nasci para fazer analise. Para pensar na vida, nos propositos escondidos atras de nossos atos.
E voce? Como anda?
Ate mais,
M.
Nao sei se te contei, mas agora ando fazendo analise. E. De tanto insistirem comigo, resolvi ceder. Ficavam dizendo que esta minha mania de viver viajando e simplesmente uma forma de escapar da vida. Eu sei, eu sei, que toda vez que me sinto um pouquinho deprimida, um ventinho monotono que seja batendo na minha janela, corro e arrumo as malas. As pessoas ate podem ter razao. Viajar tambem nao e vida? Pois, entao. Como posso estar correndo dela? MInha analista, como todo analista, acha que ha um fundinho de verdade nisso tudo e que meus mais fundo desejos pedem que eu me aquiete em casa. Caso contrario, o que afinal de contas estaria eu fazendo la. Afinal, nao fui obrigada. Eu mesma marquei minha primeira hora. Ela provavelmente tem um pouco de razao. Agora, minhas escapolidas tem tempo determinado. Nao podem durar mais do que uma semana. Toda sexta, Amelia esta la esperando por mim. E sabe que tenho gostado? Nasci para fazer analise. Para pensar na vida, nos propositos escondidos atras de nossos atos.
E voce? Como anda?
Ate mais,
M.
segunda-feira, setembro 13, 2004
Querido F.,
Desculpe a demora em responder. Passei a semana botando as coisas em ordem aqui em casa. Estou fazendo desenhos dos lugares onde vou e esta semana inaugurei uma parede na minha sala com as pinturas.
É impressionante como realmente nunca, nunca estamos satisfeitos com o que temos. Tanta era a minha vontade de voltar e, agora que enfim estou instaladinha nos meus cobertores, com meus queridos livros na estante e a caótica e acolhedora imagem da Avenida Nossa Senhora de Copacabana da janela, não penso em outra coisa a não ser no meu próximo destino. Já começo a planejar outra viagem. O que posso fazer? Já nasci com este espírito inquieto.
E tem mais... Estou feliz, feliz com minha cachorrinha de volta, mas, ontem, fiquei com vontade, juro, de devolvê-la para o filho do Seu Zé e ir só visitar no fim de semana. A danada comeu meu chinelo preferido, um com uma carinha de dálmata que você tinha me dado de presente, lembra? E resolveu fazer do meu tapete da sala seu banheiro. Desde então, não falo com ela, passo olhando para outro lado. Amanhã o gelo acaba. Ai, ai, ainda bem que ela não sabe ler...
Até,
M.
Desculpe a demora em responder. Passei a semana botando as coisas em ordem aqui em casa. Estou fazendo desenhos dos lugares onde vou e esta semana inaugurei uma parede na minha sala com as pinturas.
É impressionante como realmente nunca, nunca estamos satisfeitos com o que temos. Tanta era a minha vontade de voltar e, agora que enfim estou instaladinha nos meus cobertores, com meus queridos livros na estante e a caótica e acolhedora imagem da Avenida Nossa Senhora de Copacabana da janela, não penso em outra coisa a não ser no meu próximo destino. Já começo a planejar outra viagem. O que posso fazer? Já nasci com este espírito inquieto.
E tem mais... Estou feliz, feliz com minha cachorrinha de volta, mas, ontem, fiquei com vontade, juro, de devolvê-la para o filho do Seu Zé e ir só visitar no fim de semana. A danada comeu meu chinelo preferido, um com uma carinha de dálmata que você tinha me dado de presente, lembra? E resolveu fazer do meu tapete da sala seu banheiro. Desde então, não falo com ela, passo olhando para outro lado. Amanhã o gelo acaba. Ai, ai, ainda bem que ela não sabe ler...
Até,
M.
Querido F.,
Desculpe a demora em responder. Passei a semana botando as coisas em ordem aqui em casa. Estou fazendo desenhos dos lugares onde vou e esta semana inaugurei uma parede na minha sala com as pinturas.
É impressionante como realmente nunca, nunca estamos satisfeitos com o que temos. Tanta era a minha vontade de voltar e, agora que enfim estou instaladinha nos meus cobertores, com meus queridos livros na estante e a caótica e acolhedora imagem da Avenida Nossa Senhora de Copacabana da janela, não penso em outra coisa a não ser no meu próximo destino. Já começo a planejar outra viagem. O que posso fazer? Já nasci com este espírito inquieto.
E tem mais... Estou feliz, feliz com minha cachorrinha de volta, mas, ontem, fiquei com vontade, juro, de devolvê-la para o filho do Seu Zé e ir só visitar no fim de semana. A danada comeu meu chinelo preferido, um com uma carinha de dálmata que você tinha me dado de presente, lembra? E resolveu fazer do meu tapete da sala seu banheiro. Desde então, não falo com ela, passo olhando para outro lado. Amanhã o gelo acaba. Ai, ai, ainda bem que ela não sabe ler...
Até,
M.
Desculpe a demora em responder. Passei a semana botando as coisas em ordem aqui em casa. Estou fazendo desenhos dos lugares onde vou e esta semana inaugurei uma parede na minha sala com as pinturas.
É impressionante como realmente nunca, nunca estamos satisfeitos com o que temos. Tanta era a minha vontade de voltar e, agora que enfim estou instaladinha nos meus cobertores, com meus queridos livros na estante e a caótica e acolhedora imagem da Avenida Nossa Senhora de Copacabana da janela, não penso em outra coisa a não ser no meu próximo destino. Já começo a planejar outra viagem. O que posso fazer? Já nasci com este espírito inquieto.
E tem mais... Estou feliz, feliz com minha cachorrinha de volta, mas, ontem, fiquei com vontade, juro, de devolvê-la para o filho do Seu Zé e ir só visitar no fim de semana. A danada comeu meu chinelo preferido, um com uma carinha de dálmata que você tinha me dado de presente, lembra? E resolveu fazer do meu tapete da sala seu banheiro. Desde então, não falo com ela, passo olhando para outro lado. Amanhã o gelo acaba. Ai, ai, ainda bem que ela não sabe ler...
Até,
M.
sábado, setembro 04, 2004
Querido F.
Cheguei no Rio num dia de chuva. Chuvisco seria mais preciso dizer. Mas vi aquilo com os olhos de um otimista: a cidade está me recepcionando! Vou lavar a alma!
Acho que esta vontade louca de voltar para casa tinha uma intuição forte por trás. Isso porque tive uma surpresa maravilhosa assim que cheguei na portaria do meu prédio. Nem precisei subir as escadas. Seu Zé, o porteiro, me recebeu com um sorriso e deu logo a notícia: acharam a sua cachorrinha. Eu não falei para a senhora? Quando a gente bota o endereço e o telefone na coleira, pode dar sorte de encontrar a bichinha de novo!
Nem consegui responder. Fiquei completamnte sem palavras. Saí correndo para a casa do Seu Zé e vi a bichinha sentada numa almofada no chão, como se visse televisão do lado da filha dele. Era a mesma e estava linda. Fiquei com os olhos cheios d'água e ela comemorou abanando seu rabo compriiiido. Levei a minha cachorrinha pra casa feliz da vida, mas fiquei com a imagem dela vendo TV na cabeça: será que queria voltar?
Até.
M.
Cheguei no Rio num dia de chuva. Chuvisco seria mais preciso dizer. Mas vi aquilo com os olhos de um otimista: a cidade está me recepcionando! Vou lavar a alma!
Acho que esta vontade louca de voltar para casa tinha uma intuição forte por trás. Isso porque tive uma surpresa maravilhosa assim que cheguei na portaria do meu prédio. Nem precisei subir as escadas. Seu Zé, o porteiro, me recebeu com um sorriso e deu logo a notícia: acharam a sua cachorrinha. Eu não falei para a senhora? Quando a gente bota o endereço e o telefone na coleira, pode dar sorte de encontrar a bichinha de novo!
Nem consegui responder. Fiquei completamnte sem palavras. Saí correndo para a casa do Seu Zé e vi a bichinha sentada numa almofada no chão, como se visse televisão do lado da filha dele. Era a mesma e estava linda. Fiquei com os olhos cheios d'água e ela comemorou abanando seu rabo compriiiido. Levei a minha cachorrinha pra casa feliz da vida, mas fiquei com a imagem dela vendo TV na cabeça: será que queria voltar?
Até.
M.
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