Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno

quinta-feira, dezembro 28, 2006

OOOOOOOOOOMMMMM...

...estou ocupada. Como aqueles avisos que as pessoas colocam no messenger. Podem até me ver andando pela rua, falando pelo telefone, navegando pela internet. Mas estou ocupada. Uma plaquinha vermelha com um tracinho branco bem no meio. E, sim, tudo bem, isto tem a ver com o fim do ano. Mas não com estas coisas de fazer retrospectivas ou uma lista de metas e estratégias para 2007. Não estranhem se me virem arrastando um carrinho de feira pela rua, lotado de plantinhas embaladas em sacos plásticos. Ou se passarem pela portaria do prédio e sentirem um cheiro insuportavelmente forte de incenso. Ou olharem pela janela e acharem que tem uma velinha iluminando o ambiente. Tem mesmo. Vou sentar em cima da cama, cruzar as pernas, entoar um mantra e esperar 2007 pensando no branco. Imaginando o nada sem imagens intermediárias. A hora é de tentar paz. E não me inventem viagens mirabolantes, projetos cheios de aventuras, amores de explodir o coração. São três dias. Três dias só e a luz fica verde novamente. Por enquanto, ocupada....

segunda-feira, novembro 27, 2006

o dia em que o contra-regra tirou folga

Encontrei, numa caixa de guardados, uma foto do Carlos. E me lembrei de uma viagem que fizemos. A estrada enlameada de Visconde de Mauá e foi só o carro engatar na porta da pousada pra cair um pé d´água de novela das oito. Eu me espremia embaixo de um guarda-chuva florido que a recepcionista foi buscar atrás do balcão e era mais em sinal de protesto mesmo, uma forma de reclamar com o tempo a água que ele deixava cair lá de cima. Porque não adiantava nada, era daquelas chuvas de novela, como eu disse. Quando parece que a atriz entrou embaixo de um chuveiro ligado no máximo e um bando de ventiladores fazem a água dançar de um lado pro outro e enchem o chão de poçinhas bem no lugar onde a gente tá botando o pé. Parece tudo planejado. Pra deixar a roupa grudando no corpo. E quando você pensa que o guarda-chuva tá cobrindo pelo menos a franja do penteado, vem um vento não sei de onde e vira ele todo pra cima. E lá se vai o penteado. A água escorrendo na cara e a franja grudada na testa.

E me lembro de sentir vergonha. Tinha feito uma mala com roupa nova, os trajes combinando pro fim de semana. Unha feita e tudo mais. E foi só pisar no tal do paraíso verde, pra um céu azul, sem nuvens, cismar em jogar água aos montes de lá. E não dava mais pra disfarçar nada. Logo do começo, de cara, era aquilo ali e pronto. Com o cabelo grudando na testa, a roupa colada no corpo, respingos de lama cobrindo as pernas, eu era eu mesma. Daquele jeitinho lá. Pegar ou largar. Sem muito glacê pra enfeitar o bolo.

E quando a gente entrou no bagalô, que era lindo e tudo, com lareira e cestinha de flores em cima da mesa, ficamos olhando um pra cara do outro sem saber o que fazer. E parecia que a gente nem tinha lá muito interesse, que tava em Mauá por engano, que tinham trocado o par no meio do caminho e, lá, só dentro da casa, a gente tinha se dado conta. Ué, acho que não tem lá muito a ver.

Mas era só um jeito de quem tava meio sem jeito mesmo. Quando a intimidade chega rápido demais, pelas circunstâncias e não pela convivência. E você fica quieto, sem ação, esperando pra ver como o outro age, depois de olhar assim tão de perto.

Eu desconjuntada e o Carlos com a cara de quem deixou o carro atolar na lama, já lá quase na linha de chegada. Tinha ficado engatado no meio de três pedras, na porta da pousada. Ele encharcado tentando empurrar com força a traseira e nada do bicho mover um milímetro. Só as pernas do Carlos que escorregavam, patinando na terra. E ele caía e levantava. No joelho esquerdo descia um fio de sangue e os óculos, molhados, vinham tortos no rosto. Lá pelas tantas tinha engasgado do esforço e da boca saiu uma espécie de vômito. E eu fingi que não vi, que era pra ele não se sentir constrangido. Mas o Carlos achou que era só falta de atenção mesmo, indiferença, coisa de quem tinha ficado com nojo.

E, em pé no quarto, com a porta fechada, só conseguimos pensar numa coisa: foto. Vamos tirar uma foto. Fingimos que era engraçado e sacamos a máquina da bolsa. Saiu aquela foto que eu tinha achado na caixa de guardados. Ele com um sorriso forçado, apontando com o dedo pro joelho. E o fim de semana passou meio morno e os dois foram pra casa com uma sensação de frustração, querendo que o tempo voltasse e desse pra viver tudo de novo.

Da história ficou aquela foto amarelada, guardada no fundo de uma caixa por anos. Olhava pra ela e estalava a língua, balançava a cabeça. E ria. Agora, fazer o quê? Ria. Coloquei no meu quadro de cortiça...

terça-feira, novembro 07, 2006

depois...

Tudo o que me inspira hoje é uma música do Los Hermanos. Uma em que o cantor termina com uma série de ãããããnnnnããããããnnnns. Um em cada tom. Que começa com...

... ah, depois eu escrevo...

Só tenho vontade de estender meus pés em cima da cadeira, calçados com havaianas (e olhe lá) e esticar os braços até achar que estou crescendo. Estou de férias. Igual ao cara da música que se permite largar o corpo em cima de um sofá... Férias. Não quero saber se apareceu um novo restaurante na Dias Ferreira, se a moda agora é comer lichia no café da manhã, se o Coqueirão está ultrapassado, se descobriram que iogurte de maracujá é a bebida da estação, se os moderninhos de Ipanema vão tomar banho na laje do Dama de Ferro no pós-praia. O horário de verão começou no domingo, as lojas da cidade já estão prontas para o Natal e daqui a pouco (eu sei) as revistas e matérias de comportamento vão tentar nos convencer de que coisas fantásticas, incríveis, estão tomando a cidade, novas manias, novas histórias. E que nós precisamos, urgente, nos atualizar. Preguiçaaaaaa... Quando o verão chegar, quero férias. Deixa o verão pra mais tarde...

Deixa eu decidir é cedo ou tarde,
espere eu considerar,
ver se eu vou assim chique-à-vontade,
qual o tom do lugar

Enquanto eu penso você sugeriu
um bom motivo pra tudo atrasar
E ainda é cedo pra lá,
chegando às seis tá bom demais!
Deixa o verão pra mais tarde...

Uh ah ãã aeãeã

Não tô muito a fim de novidade
fila em banco de bar
Considere toda a hostilidade
que há da porta pra lá!

Enquanto eu fujo você inventou
qualquer desculpa pra gente ficar
E assim a gente não sai
que esse sofá tá bom demais!
Deixa o verão pra mais tarde...

Uh ah ãã aeãeã

E eu digo cá entre nós
deixa o verão pra mais tarde...

Uh ah ãã aeãeã

quarta-feira, outubro 04, 2006

Ester me convidou...

Eu não tinha como dizer não. Ester me ligou na sexta de tarde e foi ditando o endereço por telefone.

_ É na Glória. Na mesma rua da Termas Rio. Mas avisa ao taxista que o bar fica na esquina da via da Termas com outra pequenininha, paralela àquela dos travestis!

E o endereço veio assim, sem nenhum nome de rua, mas cheio de indicações inconfundíveis, inesquecíveis. E, enquanto ela falava, eu ficava pensando o que afinal de contas a Ester ia fazer lá. Ester. Aquela que aluga uma van toda vez que o Miguel Falabella estréia peça nova no Shopping da Gávea. Lembra? Pois, então. Fui. Com todas as direções na cabeça e um papelzinho com o nome do bar escrito em caneta Bic azul royal: Beco do Rato.

Confesso que tive vergonha do motorista. Não sou uma senhora tão moderna assim. E, antes de sair despejando as diretrizes, falei que ia a um samba num barzinho. Que era convite de uma amiga antiga e querida. E, mal as palavras saíram da boca, senti mais vergonha ainda de ter dado explicações. Não dava mais pra engoli-las de volta. Já tinham ido.

Foi fácil de achar. Dizem que o lugar tá famoso. Que nas quintas de noite vira cinema, com tela ao ar livre. Mas eu, que (repito) não sou moderna, desconhecia. No dia em que fui não tinha cinema. Era carnaval. As pessoas lotavam a rua e um monte de mesinhas, decoradas com garrafas de cerveja, completavam o espaço. Num cantinho, na frente de uma parede com pôsteres de uma seleção brasileira das antigas, um grupo tocava samba. E foi bonito de ver. Pelé comemorava um gol lá atrás, na foto de um cartaz, com Garrincha ao fundo correndo pro abraço, e todo mundo cantava e acompanhava a música com palmas. Cada letra triste que só, mas o ritmo era alegre e enquanto o cantor ia desfiando amarguras, amores não concretizados, paixões interrompidas, a gente ria e dançava.

Juro que sambei. Sem quase mexer os pés, se isso é possível. Rebolando desengonçada. Esquecida de quem quer que estivesse à volta. Ester era só sorrisos. Está namorando um compositor agora, ou coisa parecida, mas me fez jurar que não contava a história pra ninguém. Calo, portanto.

Lá pelas tantas, vi uma menina cheia de piercings e cabelo picotado. Na blusa preta, uma estampa com o cartaz do filme Jules e Jim. Os três personagens correndo sorridentes. Em cima da foto uma frase dizia que nada é perfeito e outra completava com um nada é eterno. Depois de três copos de cerveja (tá... Tá certo. Talvez um pouco mais) achei que fazia todo sentido. Que era assim mesmo. E era bonito que fosse.

Fui embora prometendo voltar. No dia seguinte, contei a história pro Zé, meu porteiro. Ele ouviu desconfiado, analisando minha figura em pé, segurando a coleira da Juma com a pontinha dos dedos. Disse que ia. Que um dia pisava por lá. Mas deve ter achado que a idade, enfim, anda fazendo efeito por aqui. Quem sabe? Talvez esteja.
Até,
M.

sexta-feira, setembro 08, 2006

entre quatro paredes

Querido F.,

Há cerca de um mês, Marisa Monte solta a voz na minha vitrola (sim, sou antiga e, mesmo com estas bolachas prateadas, na minha casa o aparelho de som vai sempre se chamar vitrola). Abro a porta do quarto de manhã e uma voz afinada começa a cantar:

Eu só não te convido pra dançar
Porque eu quero encontrar com você em particular
Há tempos tento encontrar um bom momento
Alguma ocasião propícia
Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus
Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus


Procuro explicar o meu sentimento
E só consigo encontrar
Palavras que não existem no dicionário
Você podia entender meu vocabulário
Decifrar meus sinais, seria bom


Eu só não te convido pra dançar
Porque o assunto que eu quero contigo é em particular
Há tempos tento encontrar um bom momento
Alguma ocasião propícia
Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus
Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus


Cantarolo outro som, finjo que não escuto, mas Marisa não desiste. Some por uns dias e, numa manhã inesperada, lá está ela de novo, martelando com voz potente minha cabeça. Hoje acordei e botei o disco bem alto. Estou dançando pela sala, Juma me acompanha aos saltos. Não me interrompa, por favor. É, por enquanto... só por enquanto... amanhã, quem sabe, consigo encher os ouvidos de algodão novamente.
Até,
M.

sábado, agosto 19, 2006

receita de peixe

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado estava no palco declamando poemas, contando histórias. Lembrou do passado. De uma vez que foi na TV ler um poema sobre um casal e recebeu uma carta indignada de uma professora, chamando de machismo a história de uma mulher que levantava no meio da noite só para limpar os peixes que o marido trazia da pesca. Quer dizer que devemos voltar ao século passado? Servir aos homens sempre? E Adélia lá, rindo da lembrança. Achando graça de tudo.
Não acompanhei a risada. Bati na testa. Anta! Eu seria capaz de fazer um comentário desses. Não em relação ao machismo. Mas era capaz de ler um poema bonito que nem aquele e interpretar com meus preconceitos. E lembrei de quando li uma entrevista sobre ela numa revista literária. Numa das perguntas, dizia que era católica praticante e o repórter ainda reforçava o quanto sua obra falava de Deus. E eu criei este rótulo estúpido. Adélia para mim passou a ser sinônimo de quem propaga em seus versos sua religiosidade. Quanta ignorância... Não que eu não tenha a minha, mas implico com quem estampa na camisa suas crenças. Com esta idéia na cabeça, não quis ler mais poema nenhum. E ali estava eu na Flip, tão encantada com a pessoa, tão emocionada com a obra e em como ela conseguia ressaltar a beleza do cotidiano, da vida, da convivência.
“Só as pessoas equivocadas quanto à natureza do fato literário repudiam um livro por sua casuística religiosa. O enredo ou tema de um livro não é o que o torna bom ou mau. Seu valor e desvalor têm a ver com a “forma”, apenas”, dizia Adélia na entrevista. Enxugando os olhos depois de ouvir seus versos, tive que concordar plenamente.

segunda-feira, agosto 14, 2006

eu queria uma máquina fotográfica

Querido F.,

Por mais que quisesse, não conseguia ficar sozinha em Paraty. Na sexta de noite, encontrei Ester. Ela me viu de longe e veio de braços abertos por quase um quarteirão me encontrar. Como resistir?
_ Magnólia, quanto tempo? Te vi ontem passando e agora na Praça sozinha. Você veio só? Nada disso! Trate de se juntar a nós.
E me chamou para jantar com um grupo grande: dois casais de São Paulo, um namorado fotógrafo e uma penca de filhos. Tantos que não consegui fazer a ligação dos jovens com os adultos. Foi agradável. Vinho, boa comida e conversa idem. Mas, quando acabou, senti alívio em me ver só novamente.
A verdade é que gosto desta sensação de estar comigo quando viajo. De sentar numa daquelas mesinhas que eles montam no meio da rua e ficar observando as pessoas, o jeito de andar de cada um, como seguram as mãos uns dos outros. Fico feliz em ver que as minhas estão soltas.
E o ambiente é sempre tão cheio de detalhes, que chamam a minha atenção e me prendem por longos minutos, horas até. No sábado de tarde, sentei numa creperia e me peguei vendo as flores que crescem junto ao muro das casas. Nunca tinha notado. Coloridas, delicadas, nascendo do chão de pedras. Queria uma máquina fotográfica para registrar o momento. Mas sempre esqueço. E fiz força com os olhos pra fixar o enquadramento. Fiquei olhando fixo, até a vista ficar embaçada. Não queira esquecer aquela imagem.
E Paraty ainda é cheia daqueles caroços que cobrem todo o centro histórico. Com um grupo de amigos, em plena Flip, me sentiria exausta. Uma série de palestras, apresentações pelas ruas e uma cidade que exige o seu olhar a todo instante. Não é daquelas de asfalto lisinho. Você passa serelepe, sem nem se tocar por onde anda. É preciso prestar atenção. Um calçamento que freia os meus passos e me obriga a seguir o ritmo da cidade, a sua moda. Querer correr por suas ruas é o mesmo que passar a viagem com os joelhos ralados. Os saltos que insistem em pisar por ali quebram longo nas primeiras voltas. Por lá, os sapatos são baixos, as pessoas precisam andar lento e prestar atenção por onde pisam. Como dividir isso tudo com mais um grupo de amigos? É demais para uma senhora da minha idade!

Comprei muitos ingressos, assisti a nove palestras. O bom é que sempre descubro escritores. Nomes que vejo nos suplementos literários, nas estantes das livrarias, mas nunca leio. Por ali, os autores se revezam, lendo trechos de seus livros e falando sobre suas obras. Meu impulso é sair dos debates e ir direto comprar um exemplar. Acho sempre que devem ser ótimos. Mas o orçamento me freia e eu só anoto os nomes num caderninho que depois, eu sei, vou largar numa gaveta. Desta vez, tinham alguns tão jovens, tão talentosos, falando de recantos que eu só leio no jornal, vejo na Internet, sei que existem e só. E eles lá, com tão pouca idade e querendo descobrir o mundo. E eu, com tanta coisa aqui dentro que, mesmo idosa, ainda não consegui olhar pra fora...
Até,
M.

domingo, agosto 13, 2006

Flip

Querido F.,
Achei que ainda era jovem. E na quinta de tarde, lá estava eu descendo de um ônibus na rodoviária de Paraty. Duas mochilas nas costas e um mapa, desses de Internet, explicando como chegar na pousada que eu tinha reservado. Flip, né? Não dava para faltar.
Desci feliz, animada, ignorando o peso em cima dos ombros. Respirando fundo e achando tão bom esta história de estar sozinha. Uma liberdade boa. Pela primeira vez, ia poder assistir ao que quisesse. Uma palestra, duas, quinze, sem nem um resmungo ou um olhar torto na minha direção. Mostrei o papelzinho para o primeiro jornaleiro que avistei. Os olhos do rapaz analisaram o desenho, passaram para mim e se demoraram, percebi, nas malas que estavam nas costas:
- A senhora vai a pé?
Ia. E ele me explicou que eram, para um jovem (não o meu caso), de passos largos (também não), com muita disposição (idem, idem), mais ou menos uns vinte minutos de caminhada. Achei que os paratienses deviam ser exagerados. No mapa parecia tudo tão pertinho... Quem mora em cidade pequena deve ter outras referências e achar que ali na esquina já é uma distância pra lá de grande. Estou acostumada a andar. Gosto de caminhadas longas. Eram cinco e meia e eu não tinha pressa. Parei para tomar um café, segui para a Tenda dos Autores. Peguei um programa das palestras, sorri para rostos conhecidos, perdi tempo olhando um grupo de ciranda no meio da praça. Delícia. E lá fui eu, já um pouco incomodada com as malas, deixar o peso na pousada, disposta a assistir a palestra das 19h.
E os pés foram andando, andando, andando e o desenho, que no papel parecia tão miudinho, tudo pertinho, foi espichando de uma forma impressionante.
- Ih, ainda falta. A senhora tem certeza de que vai caminhando?
E lá ia eu.
- Tem um trechão sem luz na rua. Mas...
E eu continuava. E a noite chegou. E passei por um trecho meio escuro. Achei que era o tal. Moleza. Pedaço em penumbra, que já se via luz adiante. Há! Fácil! Essa moça não sabe o que é escuro!
E fui, fui, fui. Andando, andando, andando. E vi, mais na frente, outro trechinho sem luz. Um pouco maior. Devia ser aquele, então.
Não era. De repente, veio uma curva e não se via mais nada. Nada mesmo. Olhava para os meus pés e eles estavam perdidos no preto. Ouvia algumas bicicletas passando. Só o barulho. Alguém abriu um celular e apareceu uma luz azulada flutuando no espaço. Breu. Mato e estrada. Um carro passando vez ou outra. Me imaginei nas páginas policiais do dia seguinte. Ou atropelada por um carro desavisado. Fiquei em pânico. Se fosse filme americano, neste momento, um rapaz passaria do meu lado sorrindo, pegaria na minha mão, levaria as malas e, quando chegasse na porta do hotel, eu ia olhar pro lado e ver que não tinha ninguém.
De repente, a solidão, tão boa, tão libertadora, me pareceu perigosa. Pensei em ligar pra você até. Se acontecesse alguma coisa comigo, pelo menos alguém ia saber onde eu tinha sumido. Não liguei. Não apareceu menino-espírito-bonzinho pra me acompanhar, nem um carro para dar carona. Mas eu cheguei. Uma hora depois.
Na piscina, Uzondinma Iweala e o irmão, Okechukwu, opinavam sobre como o artista, para escrever algo de qualidade, precisa deixar o seu mundinho confortável e olhar para o outro. Adélia Prado caminhava mirando florzinhas no chão e Ali Smith conversava com a namorada sobre a programação do dia. Essa parte dos autores eu inventei, é claro! :-)
Mas a pousada era boa. E a promessa das palestras, da movimentação na cidade, dos dias de descanso me animaram novamente. E esse era só o primeiro dia...
Até,
M.

terça-feira, julho 18, 2006

E, de repente... a luz!


Querido F.,

Lembro que, quando visitei meu apartamento pela primeira vez, o teto altíssimo me chamou atenção. Achei lindo. Arejado. Espaço sobrando de monte. Seu Zé ainda ressaltou:
_ São três metros! Apartamento antigo é assim mesmo.
E abriu um sorriso largo, como se o vão livre fosse a maior das qualidades. Não era, mas fiquei encantada com o pé-direito, as janelas de madeira, a luz que entrava de manhã pela sala... Tudo bom. Aluguei.
Até que, num dia de noite, fui acender a luz do banheiro e ela queimou. Olhei a lâmpada lá em cima, sozinha, pequenininha, grudada no teto, que, neste momento, me pareceu ainda mais alto.
Achei que o melhor era pensar no assunto no dia seguinte. E ele passou e mais outro e outro e outro. Meus olhos já estavam acostumados à penumbra, quando, numa sexta de noite, cheguei em casa, toquei o interruptor do corredor e... pif... outra luz sumindo.
Queimada. Sem luz no corredor! Sem luz no banheiro! Desci até a portaria e peguei a escada emprestada. Era hoje! Nem mais um dia. O problema seria resolvido. Subi até o último degrau, braço esticado e... Nada. A lâmpada queimada continuou lá em cima. Inatingível. Impossível de tocar!!!!!
Como viviam os vizinhos? Eram todos gigantes? Andavam com velas pelos cômodos? Já tinha notado que, de noite, a maioria das janelas ficava apagada, mas achava que os moradores tinham saído. Agora sabia da verdade. Nada. Deviam estar dormindo. Sem luz, mal o sol baixava e se enfiavam embaixo das cobertas.
Ontem, não agüentei mais. Pedi ajuda.
_ Seu Zéééééééééééééé!
Ele subiu com uma escada enorme, muito maior do que a primeira. Trocou tudo em dez minutos. É... Acho que, por enquanto, vou continuar podendo dormir tarde...
Até,
M.