O tempo passa, o tempo voa... Como andam as coisas por ai? Eu estou solteira novamente, deixei meu apartamento e arrumei uma nova fonte de renda. E ja estou com o coraçao cheio e apartamento novo. Quanto aos amores, vou deixar para contar as historias numa proxima vez, porque voce sabe como eu sou cheia de supertiçoes. Nada de numero 13 (agora acrescentei o quatro a lista), de passar embaixo de escadas ou pular aquelas macumbas cheias de farofa no meio dos cruzamentos. DEixa a coisa se firmar. Quanto a fonte de renda, estou agora fazendo umas materinhas de viagens pra uma revista especializada. Paga pouco, mas ta divertido e grana e sempre grana, nao da pra desprezar. E estou morando agora na Barao de Ipanema, num predio la pro finzinho da rua. E bem mais tranquilo. EStou adorando.
Bem... mas nem tudo mudou. Estou eu aqui, mais uma vez, escrevendo sem acentos.
Alguem me ensina, por favor, a configurar este teclado? Acho que vou chamar o porteiro...
Ate,
M.
Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno
quinta-feira, maio 26, 2005
quarta-feira, março 16, 2005
Querido F.,
Há tempos não escrevo... Confesso que estava com preguiça e que a vida andava boa, sem sobressaltos, caminhando vagarosa e gostosa. Mas hoje fiquei com vontade de abrir a boca, pegar um lápis, sentar no computador e te escrever uma carta.
Minha vizinha pulou da janela. Na verdade, nunca tinha visto seu rosto antes. Só vi hoje, de longe. Uma forma largada no chão do play, com uma mancha escura em volta da cabeça. Parece velha, uma senhora pelos cabelos prateado. Fiquei achando que devia ter escorregado, que olhava entretida uma lagarta do lado de fora do vidro, quis tocá-la, pegar entre os dedos e acabou escorregando pela janela.
A filha de minha prima estava aqui em casa. Assistiu ao rebuliço e quis saber da mãe o que tinha acontecido. Cecília explicou que uma moça de um andar de cima tinha feito uma viagem. Viagem curta. Do sétimo andar até o térreo. O que passa na cabeça de uma pessoa durante estes segundos tão fugazes. O vento correndo solto pelos cabelos. O corpo voando pela janela. Uma sensação de liberdade momentânea. Talvez estivesse rindo. Tenha batido no chão com um sorriso na boca. Talvez tenha se arrependido. Tentou segurar algum parapeito com as unhas, mas o corpo seguiu decidido seu caminho até o chão.
Foi. Acabou. Nada.
Minha vizinha se suicidou. E isto é o suficiente. Não preciso dizer mais nada.
Minha vizinha pulou da janela. Na verdade, nunca tinha visto seu rosto antes. Só vi hoje, de longe. Uma forma largada no chão do play, com uma mancha escura em volta da cabeça. Parece velha, uma senhora pelos cabelos prateado. Fiquei achando que devia ter escorregado, que olhava entretida uma lagarta do lado de fora do vidro, quis tocá-la, pegar entre os dedos e acabou escorregando pela janela.
A filha de minha prima estava aqui em casa. Assistiu ao rebuliço e quis saber da mãe o que tinha acontecido. Cecília explicou que uma moça de um andar de cima tinha feito uma viagem. Viagem curta. Do sétimo andar até o térreo. O que passa na cabeça de uma pessoa durante estes segundos tão fugazes. O vento correndo solto pelos cabelos. O corpo voando pela janela. Uma sensação de liberdade momentânea. Talvez estivesse rindo. Tenha batido no chão com um sorriso na boca. Talvez tenha se arrependido. Tentou segurar algum parapeito com as unhas, mas o corpo seguiu decidido seu caminho até o chão.
Foi. Acabou. Nada.
Minha vizinha se suicidou. E isto é o suficiente. Não preciso dizer mais nada.
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Querido F.,
Abri a janela hoje de manhã e o dia veio abafado. A brisa deixou de correr. Procurei bem fundo no peito e não encontrei mais nada lá dentro. Não tenho certeza absoluta, nunca temos, mas meu corpo pareceu limpo, liso, oco por dentro.
As obras na casa do Alberto se estenderam um pouco mais. Ele resolveu fazer uma pequena reforma lá dentro. Trouxe uma mala grande, bolsas e mais bolsas cheia de papéis, livros, agenda. E eu me peguei remexendo em seus papéis. Queria saber. Dar conta de tudo. Saber todos os passos, tudo o que se passa dentro do peito. Ter a certeza de que ele me ama. Saber o que ele sente.
Admito que procurei, em meio aos papéis, cartas, bilhetes e o que fosse da ex-mulher, de ex-namoradas, de ex-casos. Quero saber de tudo. O que aconteceu. As mulheres que ele amou e quanto amou. Se foi mais ou melhor do que é comigo.
Quero saber se, em alguns momentos, deseja outras pela rua. Se tem casos mal resolvidos, lembranças de um passado que gostaria de manter durante o presente. Quero um homem transparente ao meu lado, decodificado. Porque o contrário disso parece inadmissível. Porque precisa ser só eu. A única. A mais amada. Uma relação completa.
E a minha analista acha que eu ando procurando um motivo para acabar com esta relação. Porque se eu souber que ele pensou numa mulher que conheceu, lembrou de leve um caso do passado, depois do café da manhã, de termos feito sexo ou da novela das oito, vou ter que terminar. E isso vai acontecer. Porque não é possível ter uma pessoa por completo, por inteiro. E talvez eu faça isso só para sacudir o que sinto aqui dentro. Porque é melhor sentir ciúmes do que não sentir absolutamente nada. Ou talvez porque eu precise saber que ele é desejado por outras para ver que tem valor.
Será que o amor é isso? Uma coisa que inventamos depois de assistir à novela das sete? É tudo um dia após o outro, com um ar morno e denso, sem vento? Uma brisa parada envolvendo tudo...
As obras na casa do Alberto se estenderam um pouco mais. Ele resolveu fazer uma pequena reforma lá dentro. Trouxe uma mala grande, bolsas e mais bolsas cheia de papéis, livros, agenda. E eu me peguei remexendo em seus papéis. Queria saber. Dar conta de tudo. Saber todos os passos, tudo o que se passa dentro do peito. Ter a certeza de que ele me ama. Saber o que ele sente.
Admito que procurei, em meio aos papéis, cartas, bilhetes e o que fosse da ex-mulher, de ex-namoradas, de ex-casos. Quero saber de tudo. O que aconteceu. As mulheres que ele amou e quanto amou. Se foi mais ou melhor do que é comigo.
Quero saber se, em alguns momentos, deseja outras pela rua. Se tem casos mal resolvidos, lembranças de um passado que gostaria de manter durante o presente. Quero um homem transparente ao meu lado, decodificado. Porque o contrário disso parece inadmissível. Porque precisa ser só eu. A única. A mais amada. Uma relação completa.
E a minha analista acha que eu ando procurando um motivo para acabar com esta relação. Porque se eu souber que ele pensou numa mulher que conheceu, lembrou de leve um caso do passado, depois do café da manhã, de termos feito sexo ou da novela das oito, vou ter que terminar. E isso vai acontecer. Porque não é possível ter uma pessoa por completo, por inteiro. E talvez eu faça isso só para sacudir o que sinto aqui dentro. Porque é melhor sentir ciúmes do que não sentir absolutamente nada. Ou talvez porque eu precise saber que ele é desejado por outras para ver que tem valor.
Será que o amor é isso? Uma coisa que inventamos depois de assistir à novela das sete? É tudo um dia após o outro, com um ar morno e denso, sem vento? Uma brisa parada envolvendo tudo...
quinta-feira, janeiro 27, 2005
Querido F.,
Eu e Alberto adiamos a viagem para a próxima semana. É que aqui no Rio não pára de chover, me fez lembrar da minha infância e de como eu gostava de ficar em casa em dias assim, comendo brigadeiro de colher e assistindo a filmes pela televisão com a minha mãe. A sorte da aposentadoria é esta: poder voltar aos hábitos da infância sem culpas, porque eu já trabalhei a vida inteira mesmo. O azar é que se chega nela já lá pro meio da casa dos enta e o brigadeiro não é gasto numa corridinha apressada até a cozinha, fica acumulado em pregas em volta da barriga. Troquei ele por um pote de iogurte light e me tranquei no quarto para assistir a um vídeo que peguei na locadora. Sim, ainda resisto aos DVDs. Ignoro todos os extras e entrevistas com diretores e atores. Gosto de sentar no sofá com o cobertor cobrindo a pontinha dos pés, fingindo que está frio, e ouvir o reconfortante barulho da fita rodando. É isso mesmo, F. Sou uma senhora e resisto às mudanças.
Me tranquei no quarto porque Alberto tomou conta da sala. A casa dele está pintando e ele veio com mala e tudo passar uns dias aqui. A idéia era que estivéssemos em Angra, mas São Pedro quis assim. E chegou largando sapatos, que Juba faz questão de catar com a boca, como se fossem seus brinquedos. E o filho mais novo veio visitar. E, de repente, me senti numa casa com um homem adulto e um adolescente e é como se eu fosse a hóspede. Preciso aprender a dividir. Hoje, tive saudade da solidão.
Até,
M.
Me tranquei no quarto porque Alberto tomou conta da sala. A casa dele está pintando e ele veio com mala e tudo passar uns dias aqui. A idéia era que estivéssemos em Angra, mas São Pedro quis assim. E chegou largando sapatos, que Juba faz questão de catar com a boca, como se fossem seus brinquedos. E o filho mais novo veio visitar. E, de repente, me senti numa casa com um homem adulto e um adolescente e é como se eu fosse a hóspede. Preciso aprender a dividir. Hoje, tive saudade da solidão.
Até,
M.
sábado, janeiro 22, 2005
Querido F.,
Ganhei estrelinhas de presente de um mês de namoro. Lindas estrelinhas de chocolate, embaladas com papel colorido. Não é a coisa mais adolescente do mundo? E a mais deliciosa, e romântica e linda? Amei. Juba também. Comeu uma meia dúzia delas, apesar de o veterinário ter proibido qualquer tipo de doce para a minha cachorrinha. Mas era dia de festa...
Ah, vamos todos (Eu, Alberto e Juba) passar uns dias em Ilha Grande, na Praia de Palmas. Mando notícias de lá, se possível...
Até,
M.
Ah, vamos todos (Eu, Alberto e Juba) passar uns dias em Ilha Grande, na Praia de Palmas. Mando notícias de lá, se possível...
Até,
M.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Querido F.,
Segui seu conselho e falei sobre este meu lado voyeur de mim mesma na análise. Carmem, sempre tão calada, abriu a boca para uma observação simples: as pessoas com estima alta costumam se sentir bem em situações amorosas. Se entregam sem críticas, se achando merecedoras de carinho e amor. Quem tem a estima no pé acaba vendo um lado ridículo em toda a situação. É como se no fundo você achasse que não merece viver nada daquilo. Foi como engolir um caroço de ameixa à seco. Ela deve ter razão. Se eu cortar a unha do pé muito rente acho que perco minha auto-estima, de tão lá embaixo que está.
Saí de lá e entrei numa loja para comprar uma lingerie nova. Queria me sentir desejada, merecedora de uma noite de amor com o namorado, coisa simples, para qualquer mortal. Meu erro foi chegar em casa e experimentar a peça em frente ao espelho. Juro que era um conjunto lindo, de sonho, que nunca na vida eu tinha tido. Todo feito de uma renda finíssima, com um lacinho delicado entre os seios. Mas as coxas rechonchudas, a barriga com pregas e os braços redondos chamam mais atenção do que qualquer sutiã e calcinha. Não consegui olhar pra mais nada a não ser o excesso de gordura. Agora é que perdi ela de vez. Talvez o Vigilantes me salve.
Saí de lá e entrei numa loja para comprar uma lingerie nova. Queria me sentir desejada, merecedora de uma noite de amor com o namorado, coisa simples, para qualquer mortal. Meu erro foi chegar em casa e experimentar a peça em frente ao espelho. Juro que era um conjunto lindo, de sonho, que nunca na vida eu tinha tido. Todo feito de uma renda finíssima, com um lacinho delicado entre os seios. Mas as coxas rechonchudas, a barriga com pregas e os braços redondos chamam mais atenção do que qualquer sutiã e calcinha. Não consegui olhar pra mais nada a não ser o excesso de gordura. Agora é que perdi ela de vez. Talvez o Vigilantes me salve.
segunda-feira, janeiro 17, 2005
Querido F.,
Eu tenho esta mania de me olhar de fora. Não consigo aproveitar os momentos, porque estou sempre observando cada coisa que faço pelo lado de fora, como se estivesse olhando um filme em que estou atuando. E meu olhar é sempre crítico, procura pelos defeitos. Por mais que eu tente me esquecer nos braços do Alberto, por exemplo, me pego sempre com um olho aberto e outro fechado. E tudo fica parecendo inapropriado. Me vejo velha para beijos, abraços, sexo. Mas me sinto jovem durante os beijos, abraços e sexo. Tento desligar o olho vigilante, mas ele resiste, cada vez mais crítico, implacável. Tenho vontade de transar com as luzes apagadas, embaixo das cobertas. Me escondendo de mim mesma. Mas resisto, não me entrego. Na minha luta, tento ignorar as rugas, as gordurinhas que os anos e os doces consumidos em todos estes anos acumularam em volta da minha cintura, e acendo a luz principal e finjo que não vejo meu reflexo passeando pelo espelho que tenho em frente à cama. Na primeira vez que o alberto pisou na minha casa, veio afoito, passando as mãos pelo meu corpo. Me senti viva, cheia de desejo. E me senti sem graça, me vendo de fora sentada no sofá, velha para tudo aquilo. Talvez você ache que este papo todo deveria ficar guardado para meus encontros com minha analista. Mas eu fico achando que não sou só eu que tenho uma espiã dentro de mim. Enfim, quis dividir com você a experiência.
Mil beijos, querido.
Até,
M.
Mil beijos, querido.
Até,
M.
quinta-feira, janeiro 06, 2005
Querido F.,
Sei que eu dei uma sumida e você deve estar se perguntando o que foi que aconteceu. Confesso que me deu preguiça de ficar descrevendo desta vez tudo o que eu fiz em Nova York, porque lá é sempre aquela correria gostosa, mil lugares pra ir, mil coisas para ver e uma andança que toma conta do dia todo. E, depois, porque o que aconteceu comigo no aeroporto apagou a importância de todo o resto.
Hoje em dia eu sempre fico tensa quando viajo para os Estados Unidos. Por causa desta paranóia que eles têm depois dos atentados. Mandam você tirar o sapato, vasculham cada bolsinho atrás de tesourinhas de unha e mortíferos alicates. Pois eu estava era pensando nisso: se tinha alguma coisa na mala que pudesse ser vista por eles como uma arma. Não curti os momentos de espera, como normalmente. Não comprei revistas. Não fui tomar café e observar as pessoas arrastando as malas pelos corredores.
Conheci o Alberto já dentro do avião. Estava sentado do meu lado, mora no Rio e, o melhor de tudo, em Copacabana também. Ele tem um filho já adulto e foi pra Nova York justamente visitar o menino. Foi uma viagem curta. Pelo menos, foi assim que senti. Ficamos conversando e no final estávamos nos beijando em pleno vôo. Achei que já tinha passado da idade destes encontros amorosos, mas, naquela hora, esqueci de todos estes meus preconceitos. Acho que estamos namorando... Estou feliz.
Feliz 2005, querido! Como foram as comemorações por aí!
beijos, com carinho,
M.
Hoje em dia eu sempre fico tensa quando viajo para os Estados Unidos. Por causa desta paranóia que eles têm depois dos atentados. Mandam você tirar o sapato, vasculham cada bolsinho atrás de tesourinhas de unha e mortíferos alicates. Pois eu estava era pensando nisso: se tinha alguma coisa na mala que pudesse ser vista por eles como uma arma. Não curti os momentos de espera, como normalmente. Não comprei revistas. Não fui tomar café e observar as pessoas arrastando as malas pelos corredores.
Conheci o Alberto já dentro do avião. Estava sentado do meu lado, mora no Rio e, o melhor de tudo, em Copacabana também. Ele tem um filho já adulto e foi pra Nova York justamente visitar o menino. Foi uma viagem curta. Pelo menos, foi assim que senti. Ficamos conversando e no final estávamos nos beijando em pleno vôo. Achei que já tinha passado da idade destes encontros amorosos, mas, naquela hora, esqueci de todos estes meus preconceitos. Acho que estamos namorando... Estou feliz.
Feliz 2005, querido! Como foram as comemorações por aí!
beijos, com carinho,
M.
sexta-feira, dezembro 17, 2004
Querido F.,
Há tempos estou para escrever, mas confesso que me deu preguiça, uma preguiça enorme de ter que passar para o papel tudo aquilo que vi em Nova York. Foram dias movimentados. Fiquei no apartamento da irmã da Lúcia, que estava no Brasil na mesma época. Me senti como se morasse por lá. Quer dizer, a diferenca era que eu podia tomar um café da manhã em casa, preparar coisinhas gostosas para comer de noite e bisbilhotar a vida dos vizinhos pela janela do apartamento. A rotina era de turista. Não parei um minuto. Andava tanto, tanto que de noie os meus pés não me aguentavam em pé e eu tinha que deitar e dormir para estar inteira novamente no dia seguinte. A partir de amanhã começo a voltar os dias para trás e escrevo tudo o que passei por lá.
E o Juarez? Bem... qando cheguei em casa, minha secretária eletrônica tinha dezoito mensagens. Todas dele. O dedo coçou, tenho que admitir. Mas me fiz de forte e não liguei. Quero alguém que me valorize daqui pra frente.
Saudades...
Até,
M.
E o Juarez? Bem... qando cheguei em casa, minha secretária eletrônica tinha dezoito mensagens. Todas dele. O dedo coçou, tenho que admitir. Mas me fiz de forte e não liguei. Quero alguém que me valorize daqui pra frente.
Saudades...
Até,
M.
Assinar:
Postagens (Atom)