Para mim, a culpa sempre foi de Shakespeare. Romeu e Julieta se conheceram, se apaixonaram, morreram por amor. E foi isso. Um amor único e verdadeiro, porque nem deu tempo da vida mostrar o contrário. E eu li a história ainda na adolescência (quantos anos já não se passaram desde então...) e acreditei que era isso mesmo. Que todo mundo tinha um só e especial amor na vida. Fiquei esperando Romeu escalar a trepadeira e subir na minha janela para um beijo de boa noite. E acho que a culpa só pode ser destes altos edifícios cariocas. Morasse eu em Verona e meu Romeu já estaria esquentando os pés no meu edredon há tempos.
Mas hoje acordei assim, F. Pensando nesta história de amor romântico. Cheguei na sala e Alberto colocava um disco de jazz no som, baixinho, com medo de me acordar. E fiquei lembrando de quantos Romeus já passaram na minha vida. O namoro começava,eu apostava que era aquele e os dias iam, o sentimento crescia, diminuía, morria. E a vida continuava e mais dias passavam, meses talvez, e outro chegava pela porta.
Agora Alberto está aqui. Sem cavalo branco ou escaladas noturnas. E meu coração se sente reconfortado. E dá uma paz enorme saber que ele faz parte da minha rotina. Se só agora encontrei o amor da minha vida? Hoje Romeu e Julieta é só mais uns dos livros que tenho na estante. Ainda acho bom, é verdade. Mas tenho a certeza de que a única solução possível para que o amor da dupla permanecesse eternamente lindo, foi a morte. Sábio Shakespeare. E, só agora, na casa dos cinquenta, descobri isso.
Até,
M.
Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno
terça-feira, outubro 18, 2005
sexta-feira, outubro 07, 2005
Querido F.,
Outro dia, quando escrevia uma carta pra você, me lembrei de quando aluguel meu primeiro apartamento e resolvi que ia morar sozinha. Me incomodava aquele ambiente estático. Tenho uma família grande, muitos irmãos, você sabe. E estava acostumada a deixar um pente numa mesa e, minutos depois, descobrir que ele tinha parado na bolsa de alguém. De deixar uma blusa na cadeira do quarto e, depois do trabalho, ver que tinham lavado a peça.
Na minha casa nova, tudo ficava onde eu deixava. No início, foi um alívio. Liberdade, privacidade, domínio sobre a minha vida. Depois, meus rastros intactos pela casa só reforçavam a minha solidão.
Morava num apartamento de dois quartos no Grajaú, de frente pra mata, e, descobri, num dia de tarde, que a árvore em frente à janela da sala era visitada constantemente por uma família de micos. Passei a deixar, de propósito, uma banana descascada todos os dias dentro da fruteira. E quando chegava em casa, via que alguém tinha estado lá dentro. Uma banana meio devorada em cima da mesa, um saco plástico no chão, grãos de terra por alguns cantos da casa. Eram educados aqueles micos. Comiam o que tinha sido deixado para eles e iam embora sem muita bagunça. Era uma presença sutil, mas foi um alívio ver que havia vida dentro do meu espaço.
Os anos se passaram, eu mudei de apartamento, de bairro, de vida. Eu e Juma passamos a formar uma dupla perfeita. Hoje... não sei se consigo abrir espaço pra mais alguém.
Até,
M.
Na minha casa nova, tudo ficava onde eu deixava. No início, foi um alívio. Liberdade, privacidade, domínio sobre a minha vida. Depois, meus rastros intactos pela casa só reforçavam a minha solidão.
Morava num apartamento de dois quartos no Grajaú, de frente pra mata, e, descobri, num dia de tarde, que a árvore em frente à janela da sala era visitada constantemente por uma família de micos. Passei a deixar, de propósito, uma banana descascada todos os dias dentro da fruteira. E quando chegava em casa, via que alguém tinha estado lá dentro. Uma banana meio devorada em cima da mesa, um saco plástico no chão, grãos de terra por alguns cantos da casa. Eram educados aqueles micos. Comiam o que tinha sido deixado para eles e iam embora sem muita bagunça. Era uma presença sutil, mas foi um alívio ver que havia vida dentro do meu espaço.
Os anos se passaram, eu mudei de apartamento, de bairro, de vida. Eu e Juma passamos a formar uma dupla perfeita. Hoje... não sei se consigo abrir espaço pra mais alguém.
Até,
M.
segunda-feira, outubro 03, 2005
Querido F.,
Eu sempre quis, é verdade. Você é testemunha disso e eu não ouso negar o que tantas vezes defendi em mesas de bar. Sempre quis um homem ao meu lado. Um homem para dividir a cama todas as noites, para regar as plantas, para me dar beijos e abraços no corredor, para me repreender nas vezes em que estiver errada. Queria encontrar roupas no quarto que não fossem as minhas. Esquecer um copo na sala e não dar de cara com ele, intacto, no mesmo lugar, uma semana depois.
Era para a alegria e a triste, para os sábados de sol e as manhâs de segunda mesmo. E hoje eu tenho. Chegou num adiantado da vida, é verdade também. Mas Alberto está aqui. Abro o meu armário e encontro suas roupas penduradas do lado das minhas. Trouxe os discos de jazz, os livros do Graciliano e pés quentes para me aquecer nas noites de frio.
E.... eu não sei se aguento. Não sei se consigo dividir. Porque esta história de dois virando um só... Eu tenho medo. Tenho medo de ser menos eu na presença do outro. De me perder na mistura dos corpos. Fico dizendo que minha alma é imensa, que precisa de espaço, que gosta de tomar conta da casa. Mas acho que, na verdade, tenho medo é que ela perca os seus contornos.
Tenho pânico de manchar esta personalidade que eu levei tanto tempo para criar. Há anos, grito no meu próprio ouvido que sou assim. Afirmei com convicção para mim mesma que existia. E agora, com o Alberto, pode não haver espaço para tantas leituras, tantas palavras soltas, tantas viagens, tantos prazer que me fazem diariamente lembrar quem eu sou. Tenho medo de não ser mais eu.
Até,
M.
Era para a alegria e a triste, para os sábados de sol e as manhâs de segunda mesmo. E hoje eu tenho. Chegou num adiantado da vida, é verdade também. Mas Alberto está aqui. Abro o meu armário e encontro suas roupas penduradas do lado das minhas. Trouxe os discos de jazz, os livros do Graciliano e pés quentes para me aquecer nas noites de frio.
E.... eu não sei se aguento. Não sei se consigo dividir. Porque esta história de dois virando um só... Eu tenho medo. Tenho medo de ser menos eu na presença do outro. De me perder na mistura dos corpos. Fico dizendo que minha alma é imensa, que precisa de espaço, que gosta de tomar conta da casa. Mas acho que, na verdade, tenho medo é que ela perca os seus contornos.
Tenho pânico de manchar esta personalidade que eu levei tanto tempo para criar. Há anos, grito no meu próprio ouvido que sou assim. Afirmei com convicção para mim mesma que existia. E agora, com o Alberto, pode não haver espaço para tantas leituras, tantas palavras soltas, tantas viagens, tantos prazer que me fazem diariamente lembrar quem eu sou. Tenho medo de não ser mais eu.
Até,
M.
terça-feira, setembro 20, 2005
Querido F.,
Fui surpreendida com um livro na manhã de hoje. Chegou para mim de presente, inesperado, delicioso. E foi a Juma quem encontrou. Fui botar o lixo na lixeira do corredor e lá ficou ela fuçando num monte de jornais jogados no chão. E, de repente, me sai com uma capa durinha, quadradinha de lá de dentro. O rabo abanando, olhando pra mim com cara de sorriso.
Sorri também. Balzac e a costureirinha chinesa. Se passa no fim da década de 60, quando o líder Mao Tse-Tung resolve decretar que tudo quanto é livro escrito no ocidente é proibido e os jovens das cidades grandes precisam passar por um período de reeducação. Eles vão para aldeias isoladas trabalhar e aprender que tudo o que vem da cultura ocidental é coisa de burguês. Inútil para a vida. Capaz de encher a cabeça de caraminholas sem razão de ser.
E lá se vão dois jovens para a reeducação. Eles conhecem uma costureirinha de uma aldeia vizinha, roubam uma mala com livros proibidos e passam a encher as noites da moça com as tramas de Balzac. É uma história sobre amor e literatura também. E sobre livros que mudam as nossas vidas e fazem com que tomemos atitudes inesperadas.
Fiquei a tarde inteira com ele entre os braços. Não saí de casa, mas viajei por terras distantes.
Quanto aos rumos da minha vida, nada posso dizer. Mas Balzac e a costureirinha chinesa mudaram o meu dia.
Saudades...
Até,
M.
Sorri também. Balzac e a costureirinha chinesa. Se passa no fim da década de 60, quando o líder Mao Tse-Tung resolve decretar que tudo quanto é livro escrito no ocidente é proibido e os jovens das cidades grandes precisam passar por um período de reeducação. Eles vão para aldeias isoladas trabalhar e aprender que tudo o que vem da cultura ocidental é coisa de burguês. Inútil para a vida. Capaz de encher a cabeça de caraminholas sem razão de ser.
E lá se vão dois jovens para a reeducação. Eles conhecem uma costureirinha de uma aldeia vizinha, roubam uma mala com livros proibidos e passam a encher as noites da moça com as tramas de Balzac. É uma história sobre amor e literatura também. E sobre livros que mudam as nossas vidas e fazem com que tomemos atitudes inesperadas.
Fiquei a tarde inteira com ele entre os braços. Não saí de casa, mas viajei por terras distantes.
Quanto aos rumos da minha vida, nada posso dizer. Mas Balzac e a costureirinha chinesa mudaram o meu dia.
Saudades...
Até,
M.
quarta-feira, agosto 03, 2005
Querido F.,
Alberto passou a chamar a Juba de Jujuba e eu fiquei irritada. Jujuba é um nome infantil, enjoativo de tão doce. E Juba tem uma inspiração anos 80, Armação Ilimitada, aventuras praianas e liberdade.
Ele comprou um enorme sapo de cerâmica com um rasgo na barriga de onde sai uma planta daquelas de água. Decorou uma das paredes da sala com o enfeite. Fiquei irritada. Primeiro porque o enfeite é horrendo e, depois, porque a sala é minha, ora bola.
Alberto chega na minha casa e a primeira coisa que faz é largar os sapatos sujos de terra na porta do quarto, não sem antes deixar um caminho escuro pelos cômodos.
Alberto cortou os cabelos rente à cabeça, deixando um topetinho um pouco mais longo na frente. Irritada. Quantos anos ele pensa que tem?
Alberto acabou de me chamar. Humpf...
Até,
M.
Ele comprou um enorme sapo de cerâmica com um rasgo na barriga de onde sai uma planta daquelas de água. Decorou uma das paredes da sala com o enfeite. Fiquei irritada. Primeiro porque o enfeite é horrendo e, depois, porque a sala é minha, ora bola.
Alberto chega na minha casa e a primeira coisa que faz é largar os sapatos sujos de terra na porta do quarto, não sem antes deixar um caminho escuro pelos cômodos.
Alberto cortou os cabelos rente à cabeça, deixando um topetinho um pouco mais longo na frente. Irritada. Quantos anos ele pensa que tem?
Alberto acabou de me chamar. Humpf...
Até,
M.
terça-feira, julho 26, 2005
Querido F.,
Hoje sonhei com você novamente. Estávamos andando em Petrópolis, passando pela casa do Santos Dummont, vindo da faculdade. E a gente ria, ria e ria tão alto que todo mundo que passava olhava em nossa direção. Estava frio e nós seguimos caminhando pelas ruas gêmeas, paralelas, arborizadas. E, de repente, estávamos em Paris, mas ainda éramos jovens e você ainda ria. Um barco daquele de turistas cruzou pela gente e algumas pessoas levantaram o braço e acenaram para nós. Ficamos dando adeus, esperando eles se distanciarem, até que as fisionomias ficassem embaralhadas.
Acordei e caminhei até a janela. Estava frio no Rio também. Alberto continuava dormindo no meu quarto. Agora, ele resolveu passar mais dias aqui em casa, aumentando gradativamente a convivência. Olhei para baixo e tive a impressão de que as pessoas que passavam, encolhidas, sérias, sentiam o mesmo que eu.
Estou com saudades F...
Como anda Paris?
Até,
M.
Acordei e caminhei até a janela. Estava frio no Rio também. Alberto continuava dormindo no meu quarto. Agora, ele resolveu passar mais dias aqui em casa, aumentando gradativamente a convivência. Olhei para baixo e tive a impressão de que as pessoas que passavam, encolhidas, sérias, sentiam o mesmo que eu.
Estou com saudades F...
Como anda Paris?
Até,
M.
quinta-feira, maio 26, 2005
Querido F.,
O tempo passa, o tempo voa... Como andam as coisas por ai? Eu estou solteira novamente, deixei meu apartamento e arrumei uma nova fonte de renda. E ja estou com o coraçao cheio e apartamento novo. Quanto aos amores, vou deixar para contar as historias numa proxima vez, porque voce sabe como eu sou cheia de supertiçoes. Nada de numero 13 (agora acrescentei o quatro a lista), de passar embaixo de escadas ou pular aquelas macumbas cheias de farofa no meio dos cruzamentos. DEixa a coisa se firmar. Quanto a fonte de renda, estou agora fazendo umas materinhas de viagens pra uma revista especializada. Paga pouco, mas ta divertido e grana e sempre grana, nao da pra desprezar. E estou morando agora na Barao de Ipanema, num predio la pro finzinho da rua. E bem mais tranquilo. EStou adorando.
Bem... mas nem tudo mudou. Estou eu aqui, mais uma vez, escrevendo sem acentos.
Alguem me ensina, por favor, a configurar este teclado? Acho que vou chamar o porteiro...
Ate,
M.
Bem... mas nem tudo mudou. Estou eu aqui, mais uma vez, escrevendo sem acentos.
Alguem me ensina, por favor, a configurar este teclado? Acho que vou chamar o porteiro...
Ate,
M.
quarta-feira, março 16, 2005
Querido F.,
Há tempos não escrevo... Confesso que estava com preguiça e que a vida andava boa, sem sobressaltos, caminhando vagarosa e gostosa. Mas hoje fiquei com vontade de abrir a boca, pegar um lápis, sentar no computador e te escrever uma carta.
Minha vizinha pulou da janela. Na verdade, nunca tinha visto seu rosto antes. Só vi hoje, de longe. Uma forma largada no chão do play, com uma mancha escura em volta da cabeça. Parece velha, uma senhora pelos cabelos prateado. Fiquei achando que devia ter escorregado, que olhava entretida uma lagarta do lado de fora do vidro, quis tocá-la, pegar entre os dedos e acabou escorregando pela janela.
A filha de minha prima estava aqui em casa. Assistiu ao rebuliço e quis saber da mãe o que tinha acontecido. Cecília explicou que uma moça de um andar de cima tinha feito uma viagem. Viagem curta. Do sétimo andar até o térreo. O que passa na cabeça de uma pessoa durante estes segundos tão fugazes. O vento correndo solto pelos cabelos. O corpo voando pela janela. Uma sensação de liberdade momentânea. Talvez estivesse rindo. Tenha batido no chão com um sorriso na boca. Talvez tenha se arrependido. Tentou segurar algum parapeito com as unhas, mas o corpo seguiu decidido seu caminho até o chão.
Foi. Acabou. Nada.
Minha vizinha se suicidou. E isto é o suficiente. Não preciso dizer mais nada.
Minha vizinha pulou da janela. Na verdade, nunca tinha visto seu rosto antes. Só vi hoje, de longe. Uma forma largada no chão do play, com uma mancha escura em volta da cabeça. Parece velha, uma senhora pelos cabelos prateado. Fiquei achando que devia ter escorregado, que olhava entretida uma lagarta do lado de fora do vidro, quis tocá-la, pegar entre os dedos e acabou escorregando pela janela.
A filha de minha prima estava aqui em casa. Assistiu ao rebuliço e quis saber da mãe o que tinha acontecido. Cecília explicou que uma moça de um andar de cima tinha feito uma viagem. Viagem curta. Do sétimo andar até o térreo. O que passa na cabeça de uma pessoa durante estes segundos tão fugazes. O vento correndo solto pelos cabelos. O corpo voando pela janela. Uma sensação de liberdade momentânea. Talvez estivesse rindo. Tenha batido no chão com um sorriso na boca. Talvez tenha se arrependido. Tentou segurar algum parapeito com as unhas, mas o corpo seguiu decidido seu caminho até o chão.
Foi. Acabou. Nada.
Minha vizinha se suicidou. E isto é o suficiente. Não preciso dizer mais nada.
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Querido F.,
Abri a janela hoje de manhã e o dia veio abafado. A brisa deixou de correr. Procurei bem fundo no peito e não encontrei mais nada lá dentro. Não tenho certeza absoluta, nunca temos, mas meu corpo pareceu limpo, liso, oco por dentro.
As obras na casa do Alberto se estenderam um pouco mais. Ele resolveu fazer uma pequena reforma lá dentro. Trouxe uma mala grande, bolsas e mais bolsas cheia de papéis, livros, agenda. E eu me peguei remexendo em seus papéis. Queria saber. Dar conta de tudo. Saber todos os passos, tudo o que se passa dentro do peito. Ter a certeza de que ele me ama. Saber o que ele sente.
Admito que procurei, em meio aos papéis, cartas, bilhetes e o que fosse da ex-mulher, de ex-namoradas, de ex-casos. Quero saber de tudo. O que aconteceu. As mulheres que ele amou e quanto amou. Se foi mais ou melhor do que é comigo.
Quero saber se, em alguns momentos, deseja outras pela rua. Se tem casos mal resolvidos, lembranças de um passado que gostaria de manter durante o presente. Quero um homem transparente ao meu lado, decodificado. Porque o contrário disso parece inadmissível. Porque precisa ser só eu. A única. A mais amada. Uma relação completa.
E a minha analista acha que eu ando procurando um motivo para acabar com esta relação. Porque se eu souber que ele pensou numa mulher que conheceu, lembrou de leve um caso do passado, depois do café da manhã, de termos feito sexo ou da novela das oito, vou ter que terminar. E isso vai acontecer. Porque não é possível ter uma pessoa por completo, por inteiro. E talvez eu faça isso só para sacudir o que sinto aqui dentro. Porque é melhor sentir ciúmes do que não sentir absolutamente nada. Ou talvez porque eu precise saber que ele é desejado por outras para ver que tem valor.
Será que o amor é isso? Uma coisa que inventamos depois de assistir à novela das sete? É tudo um dia após o outro, com um ar morno e denso, sem vento? Uma brisa parada envolvendo tudo...
As obras na casa do Alberto se estenderam um pouco mais. Ele resolveu fazer uma pequena reforma lá dentro. Trouxe uma mala grande, bolsas e mais bolsas cheia de papéis, livros, agenda. E eu me peguei remexendo em seus papéis. Queria saber. Dar conta de tudo. Saber todos os passos, tudo o que se passa dentro do peito. Ter a certeza de que ele me ama. Saber o que ele sente.
Admito que procurei, em meio aos papéis, cartas, bilhetes e o que fosse da ex-mulher, de ex-namoradas, de ex-casos. Quero saber de tudo. O que aconteceu. As mulheres que ele amou e quanto amou. Se foi mais ou melhor do que é comigo.
Quero saber se, em alguns momentos, deseja outras pela rua. Se tem casos mal resolvidos, lembranças de um passado que gostaria de manter durante o presente. Quero um homem transparente ao meu lado, decodificado. Porque o contrário disso parece inadmissível. Porque precisa ser só eu. A única. A mais amada. Uma relação completa.
E a minha analista acha que eu ando procurando um motivo para acabar com esta relação. Porque se eu souber que ele pensou numa mulher que conheceu, lembrou de leve um caso do passado, depois do café da manhã, de termos feito sexo ou da novela das oito, vou ter que terminar. E isso vai acontecer. Porque não é possível ter uma pessoa por completo, por inteiro. E talvez eu faça isso só para sacudir o que sinto aqui dentro. Porque é melhor sentir ciúmes do que não sentir absolutamente nada. Ou talvez porque eu precise saber que ele é desejado por outras para ver que tem valor.
Será que o amor é isso? Uma coisa que inventamos depois de assistir à novela das sete? É tudo um dia após o outro, com um ar morno e denso, sem vento? Uma brisa parada envolvendo tudo...
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