Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno

domingo, março 09, 2008

O dia da carta




Comecei com as palavras cruzadas. Uma chatice. Verdadeiros enigmas que me estimulam apenas a correr até as últimas páginas do livrinho atrás das respostas. Passei para a tapeçaria. Comprei uma tela aqui na esquina, alguns novelos de lã, desencavei as lições que minha mãe me dava em Petrópolis e dei início aos trabalhos. Já fiz cinco tapetinhos! Isto tudo para aproveitar o novo espaço que arrumei aqui em casa. Colado à porta de serviço, coloquei uma mesinha com cadeiras. Bem arrumadinho, com um vaso de plantas e tudo.

Foi assim, meio sem querer, enquanto desfrutava deste meu novo espaço, que descobri quando chegou a primeira carta. Era dia 5 de janeiro, um mês depois do sumiço. Saí para jogar o lixo e a vi no corredor. Achei que estava ainda mais magra e mais pálida, parecia frágil e ouvia sem se mover um homem alto e moreno dizer repetidas vezes:

- Não pode ser! Não pode ser! Por que ele faria isso? Por que mandaria esta carta justamente pra você?

E ela ouvia sem mover músculo. Ainda tentei me demorar, fingindo que a porta da lixeira tinha emperrado, mas, nada, daquela boca não saía palavra e tive que voltar para casa, com a Juma me seguindo de perto, desconfiada (até ela!) do encontro no corredor.

Me custou um bocado entender o que estava em volta daquelas quatro frases soltas. Não me perguntem como juntei a história. Tenho fontes. Só posso adiantar isso: tenho minhas fontes. Mas logo nas primeiras horas da manhã ela recebeu uma carta. Era dele. Peritos conferiram a caligrafia. Definitivamente, dele. Disse que estava embaixo da porta quando acordou, mas nem o porteiro e nem ninguém no prédio lembra de ter visto alguém entregando uma correspondência.

Isso, depois que tudo parecia resolvido. Depois de um enterro simbólico ter se realizado. Depois de a imprensa alardear o namoro secreto do escritor e do filho ter reivindicado respostas, acusado minha vizinha de assassinato, cobrado explicações em relação aquele relacionamento secreto que ninguém nunca tinha ouvido falar. Juntei os recortes de jornal com todas as declarações da família.

“- Desde que ficou viúvo meu pai nunca mais se relacionou com mulher nenhuma. Passava os dias em casa, escrevendo e lendo.” O Globo, 29 de dezembro de 2007.

“- Ninguém viu ele pular na água. As buscas se basearam apenas no depoimento dela. Mas quem é esta mulher? Onde está meu pai? O que fez com ele?” Época, 16 de dezembro de 2007.

“ – Estive com ele no dia do sumiço. Não comentou que ia caminhar na Lagoa. Não disse que estava saindo com alguém, muito menos que estava apaixonado. Estava satisfeito e só. Não me pareceu como uma pessoa que quisesse cometer suicídio” Veja, 16 de dezembro de 2007.

Tive vontade de ligar para a imprensa, de descobrir o telefone deste filho e ter com ele dois dedos de prosa que fosse. Dizer que, sim, eu já tinha visto os dois juntos. Uma, duas vezes, mas vi. Não, não pareciam tão apaixonados. Mas quem olhar a minha vizinha pela rua vai entender. Não há como saber o que sente, pensa, o que está prestes a fazer. Talvez estivesse apaixonada. Como saber? Um rosto sempre sem expressão, pra dentro, contido. Mas em uma das vezes, juro, eu vi, tenho certeza, quase certeza absoluta, de que estavam de mãos dadas. Bem dadas. Atadas mesmo.

Assim que viu o envelope, ela achou que era uma propaganda. Pegou. Não havia nada escrito em nenhum dos lados. Um envelope bege, como tantos outros que encontramos nas papelarias. E abriu sem dar grande importância. Numa folha pautada, pequena, estava um poema. A letra inconfundível e, antes mesmo de ler qualquer palavra, duas lágrimas desceram pelo rosto (Me deixem! Me deixem! Não posso imaginar duas lagriminhas? Ok, eu não vi a cena, mas elas devem ter existido!).

Achou que era um sinal. Se tinha mandado uma carta, estava vivo. Um poema. Palavras de saudade. Versos de quem sente a distância. Eram palavras dele. Embaixo, uma frase que ainda não consegui entender direito: “Junte todos. São o meu presente para você”.

Desde então, todo dia 5, a cena se repete.


sábado, março 01, 2008

O sumiço no lago (na verdade, foi na Lagoa, mas lago ganha um ar mais misterioso)

Ando ocupada. Não preciso ligar a novela quando o relógio marca nove horas, assistir filme de suspense em algum canal da TV a cabo (é lógico que eu tenho! Por que todo mundo sempre acha que idoso não tem TV por assinatura ou computador?) ou ler a seção do jornal que traz as notícias da cidade (sem dúvida, a opção mais apavorante das três. Para dias em que você anseia por emoções fortes). Está acontecendo no meu prédio mesmo. Aqui: Copacabana, Rio de Janeiro.

Não quero concorrer com o Espinosa, do Garcia-Roza, e perder os dias andando atrás de pistas no Bairro Peixoto, mas é inevitável que me interesse. Olhar a movimentação pela janela, abrir a porta para jogar o lixo no momento exato em que conversas acontecem no corredor (coincidências fazem parte da vida!), tirar informações truncadas em conversas aparentemente inocentes com o porteiro. Me sinto, de uma hora para outra, um pouco Miss Marple, num dos livros da Agatha Christie (sim, admito que li alguns na adolescência).

É um caso que envolve cartas que chegam, apesar de ninguém saber como, morte e amor. E estes três ingredientes foram suficientes para despertar o meu interesse. Ela mora no meu andar (veja que sorte!), num apartamento de fundos. Sempre fechada, calada, de poucos sorrisos. É jovem de aparência, mas tão séria que tenho a impressão de ser mais idosa do que eu, quando divido com ela o elevador e tenho a oportunidade de, disfarçadamente (claro!), observá-la de perto.

Ele? Confesso que vi apenas duas vezes, mas nunca tinha suspeitado que fosse um escritor de sucesso. Tão simples, tão comum, sem nenhum pingo do glamour que sempre imaginei que os autores de grandes livros levassem para a vida. Seus personagens, eu conheço, têm histórias movimentadas, dúvidas profundas, vícios e passados condenáveis. Ele sempre me pareceu sem graça e, por isso, infelizmente, nunca tinha prestado muita atenção na sua presença. Andava de bermuda, tênis e regata, mas era, pra mim, como se estivesse sempre de terno, de uniforme, misturado na massa. A diferença de idade entre os dois era gritante. Trinta anos? Mais, talvez. E, quando andavam de mãos dadas, despertavam a atenção mesmo de quem nunca teve preconceitos (como eu! Ok, ok, tenho alguns... Contra homens de terno, por exemplo, não os que usam para trabalhar, mas os que valorizam o traje).

Foi num domingo de tarde, me falaram. Os dois estavam caminhando na Lagoa, roupas esportivas. Estava sol e o ambiente era movimentado, famílias, casais, crianças, gente de todo tipo andando e conversando. E os dois se sentaram num dos píeres para descansar, pernas estendidas, calmos. E, de repente, sem nenhum movimento que anunciasse a decisão, ele se levantou e mergulhou na água. Naquela água imunda da Lagoa, a mesma dos peixes volta e meia boiando, das ondas de fedor regulares, da aparência turva e lamacenta. E foi só nisso que ela se preocupou, quando, ao ver que ele demorava a voltar, resolveu sair em busca de ajuda num dos quiosques próximos.

Ninguém viu nada. E buscas foram feitas por mais de uma semana no local, com máquinas removendo o fundo, mergulhadores com lanternas e roupas a prova da podridão. Nada. Ninguém nunca mais viu o escritor por aqui, por ali, por lugar algum que fosse. Mesmo assim, depois de muito choro, roupas pretas, dias de óculos escuros, chegam recados.

sábado, setembro 22, 2007

Variações sobre o mesmo tema


Comentei com a Sheila a minha campanha e eu tenho a impressão de que ela deixou escapar a história para o Seu Zé, meu porteiro, porque, de repente, passei a receber bolos e bolos de bilhetes e cartas de pretendentes, de pessoas que não me conhecem, que nunca viram o meu rosto. Imagino que devem ter achado a história engraçada, curiosa, e resolveram participar, mandando não apenas suas próprias intenções, mas enviando fotos de pais, tios e avôs (avôs? Quanta audácia!).

Num mural na cozinha prego enfileiradas as fotos que recebo. Outro dia descobri porque ninguém parecia se destacar naquele painel e, apesar do número sempre maior, ele ia ficando cada vez mais homogêneo. Notei que 80% dos homens vestiam terno na fotografia! Com gravata e tudo. Mas por que será que eles acham necessário o traje? Será que passa idéia de seriedade? Em mim, o efeito é este mesmo que falei: me parecem todos iguais, de uniforme, um painel composto de dezenas de fotos da mesma pessoa.

- Magnólia, mas que quantidade, hein? Já encontrou algum pessoalmente? – Me perguntou a Sheila, no chá que tomamos ontem aqui em casa.

- Não... Tudo tão parecido, não é? Cabelo grisalho, terno escuro, gravata... Acho que vou escolher pelo cachorro. Por enquanto, nada adequado. Só pastor alemão, rotweiller, pitbull. Imagina?

- A Juma não tem estirpe! Vira-latas. Tem que aceitar qualquer um.

- Mas como qualquer um? Para ficar com qualquer um eu deixo o rádio ligado na sala sintonizado na CBN. Pronto. Gente falando comigo o dia todo. E compro um bicho de pelúcia pra ela que fale au-au. Cada uma que você tem, Sheila. Onde já se viu?
E ela ficou encantada com uma figura de terno cinza e gravata abóbora. Cara de estrangeiro. Olho azul piscina.

- Mas que graça este! Cristian. – e consertou rápido, meio envergonhada - Ou será Christiãn? Ou Christian, com sotaque americano?

E notei que temos esta mania estranha da busca pela pronuncia perfeita. Na França me chamariam de Magnoliá sem culpas. Na Inglaterra, de Megnôlia. E aqui, esta vergonha do sotaque do português impresso no nome. Bem, mas por via das dúvidas, tirei o Christian da lista. Sheila levou a foto embora quando foi pra casa. Talvez ela ligue.

domingo, setembro 02, 2007

Procura-se um amor que tenha um cachorro

Comecei a campanha hoje de tarde e a Juma já está interessada em um dos pretendentes. A história toda veio meio de repente. Acordei e fazia frio aqui em casa. Olhei para o despertador e ainda estava cedo, muito cedo, e a vontade de dormir mais um pouco brigava com o arrepio que subia pelo braço. Gelado. Me senti ainda criança, em Petrópolis, presa na cama pelas cobertas, enquanto o despertador gritava, chamando para a escola. E pensei que seria bom se tivesse alguém do lado pra buscar no armário do corredor mais uma manta para aquecer a cama.

Depois, veio o café da manhã. Sem querer, arrumei a mesa com duas xícaras e fui botando tudo aos pares ao lado: duas facas, dois garfos, dois pirezinhos. Meio envergonhada, espantada com a iniciativa de meus próprios braços, guardei a sobra de volta na despensa. O relógio andou mais um pouco e passei a achar a casa grande e fiquei horas discutindo com a Juma uma notícia que tinha lido no jornal. Depois disso tudo, senti que estava na hora de preencher a casa com mais uma pessoa.

Resolvi iniciar a busca olhando pela janela mesmo e vi logo, na banca de jornais, um senhor muito do bem apessoado. Já tinha encontrado com ele pela vizinhança. Agora, estava de blusa quadriculada, daquelas de botãozinho (não gosto muito do modelo, mas não posso começar assim já tão exigente), calça comprida e um tênis branco (acho que era tênis. Com a distância, não consegui ver os detalhes direito). Mas o rosto era simpático que só vendo. Gostei.

Decidi que ia descer também, comprar uma revista na banca ou algo assim. Olhei para ele de novo. O que poderia causar boa impressão? Veja, Marie Clarie, Uma? Talvez fosse melhor comprar uma Caras mesmo e deixar de fazer tipo. E quando já ia pegar a bolsa para descer, vi a Juma. Me olhava de esguelha sem se mexer, mas entendi tudo no mesmo momento. Se sentia sozinha também. Foi quando decidi: o pretendente precisa ter um cachorro!
Voltei para a janela e a Juma, animada, se aninhou logo ao meu lado, com o focinho colado no vidro. O primeiro poodle que passou pela rua ela já abanou o rabo e olhou para mim com aprovação.

- Este não, Juma. Um menino! Um menino! Não seja afobada. Temos tempo. Logo aparece outro.

sábado, agosto 04, 2007

Sinopse

Medos privados em lugares públicos
“Coeurs” (França/Itália/..., 2006)

Drama (talvez nem seja tanto). E o filme começa com uma das personagens visitando um apartamento para alugar. Um dois quartos apertado em Paris, como a maioria dos apartamentos por lá (Não que eu saiba. Nunca fui. Os amigos é que contam nas cartas). E, justificando sua insatisfação com o tamanho dos cômodos, ela prova ao corretor que o proprietário na verdade dividiu o único quarto em dois. E vemos o seu braço entrar no vão entre a janela e a parede e sair do outro lado.

- Vê? Uma única janela. A parede divide a janela em dois. Originalmente, havia apenas um quarto amplo.

E ela continua (não me cobrem fidelidade nos diálogos. Não tenho a memória tão boa assim):

- O que acontece quando o dono de um dos quartos abre a janela e o outro fecha? Nada. Não tem jeito. Ou os dois morrem congelados ou os dois ficam abafados aqui dentro.

E o longa continua mostrando sua seleção de personagens. Isolados em salas, bares, apartamentos. Todos solitários. Mas, vez ou outra, para surpreender, a câmera sobe e, então, nós, espectadores, podemos ver. As paredes que separam os ambientes não vão até em cima, não encostam no teto. Os personagens estão ligados pelo mesmo espaço, separados por divisórias ilusórias. É possível transpor cada uma delas, mas eles acreditam que, por algum motivo, precisam continuar onde estão e ficam.

O cenário é como a solidão que o filme estuda. Há algo que liga a todos. Os mesmos medos, anseios, esperanças, alegrias, sofrimentos. Como a janela do início: não há como fugir, o frio ou o abafamento é o mesmo. Apesar disso, os personagens terminam como começaram. Sim, acaba assim mesmo. É... contei o final.120 minutos. Livre.

quarta-feira, julho 18, 2007

Longe de casa


Fiquei numa fila quilométrica durante a Flip, tentando pegar um autógrafo verdadeiro de J.M.Coetzee. Sempre achei uma besteira esta história de ter um livro assinado na estante de casa. Para quê? Qual a diferença? Na verdade, não quero saber absolutamente nada da vida dos escritores que admiro. Quando leio um livro, tenho a impressão de que o nome impresso na capa não se refere a uma pessoa de carne e osso. Não me interesso em saber se o autor acorda todo dia de manhã e come queijo-quente no café. Se tem a mania de organizar sua escrivaninha com esmero antes de cada dia de trabalho. Tenho curiosidade em relação à obra e ao universo que se abre ao virarmos cada página. E ponto. Nada mais.

Mas Coetzee subiu no palco silencioso, recitou uma introdução ensaiada sobre a obra que ia ler para o público. Com voz pausada, calma, leu trechos de seu novo livro e foi só. Gestos estudados. Fiquei com vontade de olhar ele bem no olho e a assinatura na primeira página serviu de desculpa. Fui.

Ele me recebeu com um sorriso, contido, como tudo mais. Rabiscou seu nome e olhou pra mim com riso igual ao primeiro, sem mostrar os dentes. Os olhos se tornaram expressivos, apesar do rosto de pedra. Tive a impressão de que ia falar alguma coisa, que as palavras estavam subindo pela garganta, mas por lá ficaram e saí com o exemplar embaixo do braço e a certeza de que eram tantas as histórias que criava que não tinha sobrado mais nada para viver de verdade. Uma vida que só existia na imaginação.

Depois, na orelha do romance, vi que ele tem mais ou menos a mesma idade que eu. Será? E descobri que morava não sei onde e que lecionou em tais e tais lugares. Não pode ser! A partir de então, me dediquei a procurá-lo pelas ruas de Paraty. Queria flagrá-lo se movendo de improviso, numa situação inesperada.

Avistei Coetzee no domingo de manhã. Levei um susto. Caminhava pelas ruas de pedra quando percebi que o escritor passava quase ao meu lado, o mesmo rosto da véspera. Os mesmos olhos expressivos e a mesma boca muda. Mas, de repente, tive a impressão de que perguntava: Quando me cumprimentarem, o que respondo?

Antes de pegar meu ônibus, vi mais uma vez. Uma cabeça branca saindo de um café. Foi parado por uma senhora, uma fã provavelmente, que lhe dirigiu palavras que não consegui escutar. Coetzee ficou parado olhando, perplexo, e, depois de alguns segundos, tirou de dentro seu sorriso sem dentes e inclinou a cabeça de leve.

Inadequação. Deve ter sido esta a palavra que ficou entalada na sua boca na noite de autógrafos. Talvez, sentisse falta de casa.

segunda-feira, julho 02, 2007

uma história, mais uma história...

Nem olhei as prateleiras e fui direto no atendente. Queria o primeiro livro autobiográfico escrito pelo Coetzee, Cenas de uma vida, editado pela Best Seller e esgotado há tempos por aqui. Tinha. Nem acreditei. Tinha! Depois de uma peregrinação por dezenas de sebos da cidade, achei. Fui pra casa com aquela sensação de quem ganhou brinquedo novo. Quarta-feira agora começa outra edição da Flip e o cara vai estar em Paraty. Queria ler antes da festa, levar para ele autografar depois da palestra.
Li num dia, mas passei outro inteiro só tentando decifrar os garranchos que alguém deixou no topo de algumas páginas. Logo no começo, descobri, estava escrito num canto: “o que é ser normal?” Percorri a página inteira pra tentar entender e, naquele ponto da história, o Coetzee menino estava tentando imitar os colegas no colégio. Sofrendo por não saber os códigos que devia seguir. E, por mais que se esforçasse, inadequação era a única coisa que encontrava.
Mais algumas folhas pra frente e outra anotação, desta vez em letra de imprensa: “memória ou ficção?” E entendi que ela se referia ao estilo narrativo que o autor escolheu. Uma autobiografia toda feita em terceira pessoa. Ele conta suas memórias como quem fala de outro. Talvez fale mesmo. Quem disse que um adulto pode lembrar tintim por tintim da sua rotina aos dez anos?
Mas o que mais me intrigava não era decifrar as interpretações que alguém tinha feito, tentar descobrir como cada trecho tinha tocado este ser, o que chamava atenção em cada parte. Mas, sim, quem era este leitor. Eu não era a primeira a percorrer aquelas páginas. E, tentando imaginar este outro, ia criando uma segunda história na cabeça. Estava diante de um livro duplo. Dois romances em um.
Acho que era homem. Letra sem capricho, seca, cheia de ponta. Imagino que era jovem e que ganhou o livro de presente. Olhou para a capa curioso. Relato de um escritor da África do Sul, contando as primeiras dúvidas e questionamentos de sua infância. Acho que leu com calma, aos poucos, anotando os pontos pra não esquecer mais tarde, sentado em alguma cadeira de praia, baixando o livro e fixando o olho no mar enquanto pensava nos trechos da história. Se tinha gostado? Sim, tinha, tinha. Mas porque se desfez do livro, então? Não faz muito sentido alguém perder tanto tempo anotando nas bordas para, mais tarde, deixar o exemplar em alguma prateleira de sebo.
Virei a capa e fiquei olhando o título impresso bem no centro da primeira página. Com uma caneta preta escrevi em inglês:

Um lugar pro coração pousar.
Um endereço que freqüente sem morar.
Ali na esquina do sonho com a razão.

Não me dei nem ao trabalho de inventar algo original. Marisa Monte cantava os versos aqui na casa do vizinho, enquanto eu copiava apressada, tentando acompanhar sua fala. Mesmo assim, embaixo das três frases, assinei com letras pouco desenhadas: J.M.Coetzee.
No dia seguinte, estava em frente ao atendente novamente:
- A senhora não gostou? Não é possível, me amarro nesse cara!
- Gostei. Gostei. É por isso que eu tô devolvendo.
- ?
- É pra mais gente poder ler, sabe. Acho que os livros não podem ficar parados não. Têm que circular.
Ele gostou da explicação e pareceu acreditar. Agradeceu e, naquele segundo, foi até a mesma estante de dois dias atrás e depositou o livro entre os romances classificados como literatura estrangeira. De longe, fiquei olhando a lombada negra descansar na prateleira. Me despedi com um riso no canto da boca.

sexta-feira, maio 04, 2007

ai, ai, ai...


Acordei com o joelho doendo. Nem consigo andar. Talvez seja carência... Sempre achei que hipocondria era carência afetiva e, agora que me nasceu este problema na rótula, posso confirmar a tese. Saí pela manhã para o supermercado. Mais de 30 minutos para caminhar, arrastando a perna, a extensão da Barão de Ipanema. No trajeto fui parada por três pessoas que nunca tinha visto na vida. Repito: NUNCA na vida.

- Machucou a perna?

Contente, expliquei:

- Não. É uma inflamação na cartilagem do joelho. Nada demais. Preciso fazer fisioterapia, mas demora pra ficar bom. O médico disse que isso é comum em mulheres, que têm a musculatura da perna sei lá como e precisam de mais exercício e coisa e tal. Mas escapo de uma operação. Bem, o médico acha. Nunca se sabe...

Mais alguns passinhos e um senhor me repetiu a mesma pergunta.
- Machucou o pé?
Feliz, repeti o discurso.
- Não, é uma...
E, invariavelmente, recebi uma receita infalível para curar inflamações na cartilagem do joelho.
- É só botar gelo no local três vezes ao dia.
- Experimenta umas gotinhas de arnica dissolvidas na água. Tiro e queda.
- Repouso. Não devia estar andando. Um dia deitada e levanta nova.
Solidários. Não na alegria e na felicidade, isso é certo. Mas, SEMPRE, na tristeza e na doença. Agradeci a todos os conselhos. Prometi com ar convincente seguir as instruções à risca. E voltei do supermercado com um saquinho envolvendo o detergente. Quando cheguei em casa, vi que nem precisava ter comprado. Tinha um refil guardado na despensa.
Agora, deitada no sofá, mudando os canais da TV com um controle remoto, já me sinto bem melhor. O joelho nem me dói tanto... Mas... se piorar amanhã... talvez tenha que comprar uma bengala!

terça-feira, maio 01, 2007

Risadas ao telefone



Não fui eu quem inventou esta história. Li numa crítica de jornal. Destas de cinema. Logo na primeira frase o autor repetia o verso de Vinícius de Moraes: Todo grande amor só é bem grande se for triste. E eu ri da cabeça virar até atrás e parei para me ver assim no espelho, cheia de certezas, olhos cansados de quem já passou da metade da vida. Tirei o telefone do gancho e liguei pra Olga de troça.

- Tá no jornal de hoje. Olha lá.
- Quem assina? O Romeu?
- É! Deve ser ele! Acabou de conhecer a Julieta no baile e se deu conta de que ela é da família inimiga.

E um monte de hahahahahas preenchendo o tempo entre as frases.

- Mas Romeu é um adolescente!!!!

E a gente ria, ria, como quem sabe de tudo. E da crítica do jornal, passamos pro poema do Vinícius.

- Mas ele tava falando que quem se protege da vida perde a melhor parte dela – arrisco a Olga.
- Acho que não. Acho que é coisa de gente apaixonada. Ele sabe que ficar junto vai ser difícil, mas que chegou a um ponto que não tem como ir embora mesmo. O famoso se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.

E as duas ficaram em silêncio. Fazendo na cabeça uma retrospectiva dos amores do passado. E desatamos a soltar um bando de nomes: João, Felipe, Tobias, Delfim, Juca, Célio, Anderson, Francisco...

E a Olga empacou no Felipe.

- Verão de 64. Nunca esqueci. Aquele sim. Grande amor... – e um suspiro subiu pelo telefone.

E não me arrisquei a falar, mas me lembrei do Alberto de pronto. Namoro cheio de brigas, que terminava e voltava, terminava e voltava, terminava e voltava. Até que um dia eu arrumei uma mochila enorme e falei pra minha mãe que ia viajar nas férias pro Nordeste. Fiquei três meses pulando de cidade em cidade. Demorei umas semanas na Bahia. Fiz amigos em Fortaleza e voltei no inicinho das aulas. Ele já estava com outra, se casou com ela. Teve três filhos e hoje deve ter uma penca de netinhos. Amorzão. Não esqueço.

Falei pra Olga que a máquina de lavar tinha parado. Tava na hora de estender as roupas. E desliguei o telefone pensando porque afinal de contas a gente só se lembra dos que não deram certo, das histórias cheias de sofrimento. É por que ficamos pensando no que poderia ter sido? Se Romeu tivesse se casado com a Julieta a gente não lembrar mais dele? Vou guardar esta crítica pra ler de novo mais tarde...