Querido F.,
Achei que ainda era jovem. E na quinta de tarde, lá estava eu descendo de um ônibus na rodoviária de Paraty. Duas mochilas nas costas e um mapa, desses de Internet, explicando como chegar na pousada que eu tinha reservado. Flip, né? Não dava para faltar.
Desci feliz, animada, ignorando o peso em cima dos ombros. Respirando fundo e achando tão bom esta história de estar sozinha. Uma liberdade boa. Pela primeira vez, ia poder assistir ao que quisesse. Uma palestra, duas, quinze, sem nem um resmungo ou um olhar torto na minha direção. Mostrei o papelzinho para o primeiro jornaleiro que avistei. Os olhos do rapaz analisaram o desenho, passaram para mim e se demoraram, percebi, nas malas que estavam nas costas:
- A senhora vai a pé?
Ia. E ele me explicou que eram, para um jovem (não o meu caso), de passos largos (também não), com muita disposição (idem, idem), mais ou menos uns vinte minutos de caminhada. Achei que os paratienses deviam ser exagerados. No mapa parecia tudo tão pertinho... Quem mora em cidade pequena deve ter outras referências e achar que ali na esquina já é uma distância pra lá de grande. Estou acostumada a andar. Gosto de caminhadas longas. Eram cinco e meia e eu não tinha pressa. Parei para tomar um café, segui para a Tenda dos Autores. Peguei um programa das palestras, sorri para rostos conhecidos, perdi tempo olhando um grupo de ciranda no meio da praça. Delícia. E lá fui eu, já um pouco incomodada com as malas, deixar o peso na pousada, disposta a assistir a palestra das 19h.
E os pés foram andando, andando, andando e o desenho, que no papel parecia tão miudinho, tudo pertinho, foi espichando de uma forma impressionante.
- Ih, ainda falta. A senhora tem certeza de que vai caminhando?
E lá ia eu.
- Tem um trechão sem luz na rua. Mas...
E eu continuava. E a noite chegou. E passei por um trecho meio escuro. Achei que era o tal. Moleza. Pedaço em penumbra, que já se via luz adiante. Há! Fácil! Essa moça não sabe o que é escuro!
E fui, fui, fui. Andando, andando, andando. E vi, mais na frente, outro trechinho sem luz. Um pouco maior. Devia ser aquele, então.
Não era. De repente, veio uma curva e não se via mais nada. Nada mesmo. Olhava para os meus pés e eles estavam perdidos no preto. Ouvia algumas bicicletas passando. Só o barulho. Alguém abriu um celular e apareceu uma luz azulada flutuando no espaço. Breu. Mato e estrada. Um carro passando vez ou outra. Me imaginei nas páginas policiais do dia seguinte. Ou atropelada por um carro desavisado. Fiquei em pânico. Se fosse filme americano, neste momento, um rapaz passaria do meu lado sorrindo, pegaria na minha mão, levaria as malas e, quando chegasse na porta do hotel, eu ia olhar pro lado e ver que não tinha ninguém.
De repente, a solidão, tão boa, tão libertadora, me pareceu perigosa. Pensei em ligar pra você até. Se acontecesse alguma coisa comigo, pelo menos alguém ia saber onde eu tinha sumido. Não liguei. Não apareceu menino-espírito-bonzinho pra me acompanhar, nem um carro para dar carona. Mas eu cheguei. Uma hora depois.
Na piscina, Uzondinma Iweala e o irmão, Okechukwu, opinavam sobre como o artista, para escrever algo de qualidade, precisa deixar o seu mundinho confortável e olhar para o outro. Adélia Prado caminhava mirando florzinhas no chão e Ali Smith conversava com a namorada sobre a programação do dia. Essa parte dos autores eu inventei, é claro! :-)
Mas a pousada era boa. E a promessa das palestras, da movimentação na cidade, dos dias de descanso me animaram novamente. E esse era só o primeiro dia...
Até,
M.
Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno
domingo, agosto 13, 2006
terça-feira, julho 18, 2006
E, de repente... a luz!

Querido F.,
Lembro que, quando visitei meu apartamento pela primeira vez, o teto altíssimo me chamou atenção. Achei lindo. Arejado. Espaço sobrando de monte. Seu Zé ainda ressaltou:
_ São três metros! Apartamento antigo é assim mesmo.
E abriu um sorriso largo, como se o vão livre fosse a maior das qualidades. Não era, mas fiquei encantada com o pé-direito, as janelas de madeira, a luz que entrava de manhã pela sala... Tudo bom. Aluguei.
Até que, num dia de noite, fui acender a luz do banheiro e ela queimou. Olhei a lâmpada lá em cima, sozinha, pequenininha, grudada no teto, que, neste momento, me pareceu ainda mais alto.
Achei que o melhor era pensar no assunto no dia seguinte. E ele passou e mais outro e outro e outro. Meus olhos já estavam acostumados à penumbra, quando, numa sexta de noite, cheguei em casa, toquei o interruptor do corredor e... pif... outra luz sumindo.
Queimada. Sem luz no corredor! Sem luz no banheiro! Desci até a portaria e peguei a escada emprestada. Era hoje! Nem mais um dia. O problema seria resolvido. Subi até o último degrau, braço esticado e... Nada. A lâmpada queimada continuou lá em cima. Inatingível. Impossível de tocar!!!!!
Como viviam os vizinhos? Eram todos gigantes? Andavam com velas pelos cômodos? Já tinha notado que, de noite, a maioria das janelas ficava apagada, mas achava que os moradores tinham saído. Agora sabia da verdade. Nada. Deviam estar dormindo. Sem luz, mal o sol baixava e se enfiavam embaixo das cobertas.
Ontem, não agüentei mais. Pedi ajuda.
_ Seu Zéééééééééééééé!
Ele subiu com uma escada enorme, muito maior do que a primeira. Trocou tudo em dez minutos. É... Acho que, por enquanto, vou continuar podendo dormir tarde...
Até,
M.
domingo, junho 18, 2006
verde-amarelo-azul-e-branco
Querido F.,
Não sei como andam os franceses quando a bola começa a rolar nos campos da Alemanha, mas, por aqui, em dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo, ninguém faz nada. Os estabelecimentos costumam fechar duas horas antes da partida, mas isso não quer dizer que os funcionários tenham ido trabalhar de manhã. Experimente comprar uma caixinha de fósforos num dia de jogo pra ver.
No supermercado, estão todos uniformizados. Não com a roupa da empresa, mas com a blusa da seleção. E é bem capaz de você pagar três vezes o preço, porque a atendente registrou o número errado. Ou sair com três sacolas de compras que nem eram suas. Os corpos estão lá, é verdade, exercendo as tarefas do dia. Mas a cabeça, a alma e sei lá mais o que já estão longe, comendo pipoca na frente de alguma TV, esperando o Ronaldinho cantar o hino nacional num gramado alemão.
Fiz o mesmo. Sem me dar conta estava com a Juma fazendo uma tigela de pipoca ligth, me vestindo de verde e amarelo dos pés a cabeça e gritando BRASIL, empolgada, toda vez que um vizinho assoprava numa corneta de plástico e um som grave, irritante, invadia todo o prédio. TOOOOOOOOOOOOMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
Pendurei uma bandeira enorme na janela e acompanhei atenta cada passe. Gol! Tooommm! Pulinhos de alegria. Grande Adriano!!! Fred entrou em campo e fez o segundo do Brasil!!!! Fred? Quem era esse mesmo? Não importa. Mais Toooommmm. Mais festa!!! Sorrisos e fogos de artifício espocando no céu, para desespero da Juma.
O jogo acabou. Satisfeita com a vitória tirei minha blusa da seleção e botei um vestido marrom para caminhar na praia. Enrolei a bandeira e arrumei os móveis novamente. Acabou o meu espetáculo de patriotismo. Quinta-feira tem mais.
Lamentei a morte do Bussunda. Disseram que ele era a cara do Brasil. O que será isso?
Até,
M.
Não sei como andam os franceses quando a bola começa a rolar nos campos da Alemanha, mas, por aqui, em dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo, ninguém faz nada. Os estabelecimentos costumam fechar duas horas antes da partida, mas isso não quer dizer que os funcionários tenham ido trabalhar de manhã. Experimente comprar uma caixinha de fósforos num dia de jogo pra ver.
No supermercado, estão todos uniformizados. Não com a roupa da empresa, mas com a blusa da seleção. E é bem capaz de você pagar três vezes o preço, porque a atendente registrou o número errado. Ou sair com três sacolas de compras que nem eram suas. Os corpos estão lá, é verdade, exercendo as tarefas do dia. Mas a cabeça, a alma e sei lá mais o que já estão longe, comendo pipoca na frente de alguma TV, esperando o Ronaldinho cantar o hino nacional num gramado alemão.
Fiz o mesmo. Sem me dar conta estava com a Juma fazendo uma tigela de pipoca ligth, me vestindo de verde e amarelo dos pés a cabeça e gritando BRASIL, empolgada, toda vez que um vizinho assoprava numa corneta de plástico e um som grave, irritante, invadia todo o prédio. TOOOOOOOOOOOOMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
Pendurei uma bandeira enorme na janela e acompanhei atenta cada passe. Gol! Tooommm! Pulinhos de alegria. Grande Adriano!!! Fred entrou em campo e fez o segundo do Brasil!!!! Fred? Quem era esse mesmo? Não importa. Mais Toooommmm. Mais festa!!! Sorrisos e fogos de artifício espocando no céu, para desespero da Juma.
O jogo acabou. Satisfeita com a vitória tirei minha blusa da seleção e botei um vestido marrom para caminhar na praia. Enrolei a bandeira e arrumei os móveis novamente. Acabou o meu espetáculo de patriotismo. Quinta-feira tem mais.
Lamentei a morte do Bussunda. Disseram que ele era a cara do Brasil. O que será isso?
Até,
M.
segunda-feira, maio 22, 2006
mi casa, su casa
Querido F.,
Foi de madrugada. E a minha televisão de repente ficou preta-e-branca. Laura Cardoso circulava por um apartamento, suspirando de saudades da Espanha natal, sentindo ainda o cheiro da casa distante. Na sua sala, uma TV também sintonizada e o rosto do ex-presidente Collor, anunciando um plano econômico que acabaria com a poupança de muita gente. Lá, junto com o dinheiro perdido, ia o sonho da viagem.
E me lembrei de quando você arrumou as malas para Paris. Tava frio no Rio e cê chegou lá em casa com uma pilha de guias turísticos, pra gente traçar o roteiro dos primeiros dias na França. E a hora da partida chegou e durante uma semana, duas, não me lembro mais quantas, acordei de noite sobressaltada com um cheiro de cigarro forte pelos cantos. Não fumo, não guardo cinzeiros usados e uma faxineira vinha toda semana esfregar paredes e piso. Não adiantava. Era como se, todo dia de noite, você aparecesse novamente na sala, com a pilha de guias, as folhas marcadas com pequenos papéis coloridos. Meses depois, me ligou com voz chorosa. O Louvre era lindo; as aulas na universidade, ótimas; uma namorada nova preenchia as noites. Mas tinha um vazio não sei onde. Uma vontade de casa.
E na tela da TV, no momento mesmo em que recordei desta cena, Fernanda Torres apareceu jovem, com os cabelos voando, caminhando pelas ruas de Lisboa e lamentando o sotaque que saía pela boca dos outros e os acentos desencontrados que os outros escutavam da sua. Estrangeira. Não adiantava falar a mesma língua. Lá estava o sotaque. Com residência, trabalho, amigo e, mesmo assim, estrangeira. A casa ficava onde? Onde estava o seu lugar?
E me senti um pouco como Fernanda. Passeio pelas ruas do Rio e sinto falta da Petrópolis da infância, de uma inocência que eu achava que existia atrás das janelas de madeira. Mas quando volto pra visitar um parente, não me encaixo mais. Fiquei no meio. Sou a própria Rio-Petrópolis. Uma mistura de menina de interior com senhora de cidade grande e, nunca mais. Digo. Nunca uma coisa só. Sempre vazio.
É como uma visita pelos corredores do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. A árvore da língua, o jogo que mostra influências e origens das palavras que falamos hoje. Uma mistura do que diziam os índios, os escravos, os portugueses. Nem mais uma coisa, nem outra. Uma transformação sem retorno. Uma língua que viaja, como as pessoas, e nunca mais é a mesma.
E enquanto Fernanda dirigia desesperada em direção à fronteira, olhando de esguelha pra um navio parado que leva pra longe, junto cenas do passado na cabeça. Penso na palavra casa e não aparecem ruas, residências, paisagens. Vejo encontros com amigos, natais em família, pessoas, pessoas, pessoas. E penso que, se pudesse reunir todos numa cena só, todos os VIPs da minha vida num único encontro, resolveria o meu problema. Só assim.
Até,
M.
Foi de madrugada. E a minha televisão de repente ficou preta-e-branca. Laura Cardoso circulava por um apartamento, suspirando de saudades da Espanha natal, sentindo ainda o cheiro da casa distante. Na sua sala, uma TV também sintonizada e o rosto do ex-presidente Collor, anunciando um plano econômico que acabaria com a poupança de muita gente. Lá, junto com o dinheiro perdido, ia o sonho da viagem.
E me lembrei de quando você arrumou as malas para Paris. Tava frio no Rio e cê chegou lá em casa com uma pilha de guias turísticos, pra gente traçar o roteiro dos primeiros dias na França. E a hora da partida chegou e durante uma semana, duas, não me lembro mais quantas, acordei de noite sobressaltada com um cheiro de cigarro forte pelos cantos. Não fumo, não guardo cinzeiros usados e uma faxineira vinha toda semana esfregar paredes e piso. Não adiantava. Era como se, todo dia de noite, você aparecesse novamente na sala, com a pilha de guias, as folhas marcadas com pequenos papéis coloridos. Meses depois, me ligou com voz chorosa. O Louvre era lindo; as aulas na universidade, ótimas; uma namorada nova preenchia as noites. Mas tinha um vazio não sei onde. Uma vontade de casa.
E na tela da TV, no momento mesmo em que recordei desta cena, Fernanda Torres apareceu jovem, com os cabelos voando, caminhando pelas ruas de Lisboa e lamentando o sotaque que saía pela boca dos outros e os acentos desencontrados que os outros escutavam da sua. Estrangeira. Não adiantava falar a mesma língua. Lá estava o sotaque. Com residência, trabalho, amigo e, mesmo assim, estrangeira. A casa ficava onde? Onde estava o seu lugar?
E me senti um pouco como Fernanda. Passeio pelas ruas do Rio e sinto falta da Petrópolis da infância, de uma inocência que eu achava que existia atrás das janelas de madeira. Mas quando volto pra visitar um parente, não me encaixo mais. Fiquei no meio. Sou a própria Rio-Petrópolis. Uma mistura de menina de interior com senhora de cidade grande e, nunca mais. Digo. Nunca uma coisa só. Sempre vazio.
É como uma visita pelos corredores do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. A árvore da língua, o jogo que mostra influências e origens das palavras que falamos hoje. Uma mistura do que diziam os índios, os escravos, os portugueses. Nem mais uma coisa, nem outra. Uma transformação sem retorno. Uma língua que viaja, como as pessoas, e nunca mais é a mesma.
E enquanto Fernanda dirigia desesperada em direção à fronteira, olhando de esguelha pra um navio parado que leva pra longe, junto cenas do passado na cabeça. Penso na palavra casa e não aparecem ruas, residências, paisagens. Vejo encontros com amigos, natais em família, pessoas, pessoas, pessoas. E penso que, se pudesse reunir todos numa cena só, todos os VIPs da minha vida num único encontro, resolveria o meu problema. Só assim.
Até,
M.
segunda-feira, maio 01, 2006
o ataque das formigas gigantes...
Acho que fui envenenada... O caso é que minha casa foi invadida por formigas gigantes. Enormes. Inacreditavelmente grandes. Nunca imaginei que pudessem existir formigas assim. Elas vêm atrás da ração da Juma e saem, uma a uma, carregando os grãos pela cozinha. Juro! Sem exageros. Passam por embaixo da porta e se metem sei lá onde, engordando a pança com a ração da minha cachorrinha. Estão, a cada dia, em maior número. No começo eram só umas poucas, grandes, sempre enormes. E eu achava até bonitinho. Ficava com pena de matar. Devia ser grande o esforço pra carregar a ração pela cabeça.
Mas agora elas vêm aos montes. E já vejo pequenininhas no meio. Acho que procriaram. Eu e a Pedigree estamos ajudando a alimentar uma família inteira de insetos. Por mais que eu saia como uma louca, pisando com meu chinelo pelos cantos, gritando: Morram! Morram! Sem piedade por carregarem migalhas ou grãos inteiros de ração. Não adianta. Elas resistem! Não devem ser daqui.
Fui reclamar com o porteiro. Não era possível. Em algum lugar do prédio elas deviam morar. Qualquer dia desses, acordava e encontrava umas quatro na minha cama, dividindo o travesseiro comigo. E lá veio ele com um saquinho lacrado, cheio de grãos verdes no interior. E explicou direitinho: era pra eu isolar a área, prender a Juma e espalhar o granulado pelo chão da cozinha. As dita-cujas iam levando as pedrinhas, como faziam com a ração, e morreriam todas dentro da própria casa. Cruel. Mas, lembrando da cozinha ocupada por elas, resolvi levar o remédio.
Deixei o saquinho no tanque para ler melhor depois. Lavei a mão de leve, repito, de levinho, sem muitas esfregações e comecei a escovar os dentes para dormir. Fio dental, dedos passeando pela boca, escova, pasta, líquido verdinho para, segundo o comercial, exterminar as placas e sei lá mais o quê. E, quando terminei a operação, me toquei: peguei o saquinho com as tais pedras verdes!!!!!! Tomei um copo de leite (dizem que é bom! Corta o efeito!), peguei uma revista pra distrair a cabeça e comecei a ler: Angélica clicando o Luciano Huck numa cachoeira. Ele só de sunga (até que é bonitinho). Meninas com vestidos esquisitos tentando convencer as leitoras de que dá pra sair na rua daquele jeito. Uma receita pra deixar o cabelo bonito e brilhoso.... e, de repente, nem conseguia mais engolir direito. A boca seca, incrivelmente seca! Fui até a cozinha, despejei um copo inteiro de água. Nada. E, daqui a pouco, não era mais só a boca, mais a garganta inteira. Seca, seca, seca! Entrei na cozinha e fiquei olhando atenta para elas. Pareciam alegres, como nunca, passeando pelos cantos. Tomando conta da casa. Acho que me envenenaram. Vou tentar dormir. Talvez seja impressão. Se não escrever amanhã, telefone pra minha casa.
Até,
M.
Mas agora elas vêm aos montes. E já vejo pequenininhas no meio. Acho que procriaram. Eu e a Pedigree estamos ajudando a alimentar uma família inteira de insetos. Por mais que eu saia como uma louca, pisando com meu chinelo pelos cantos, gritando: Morram! Morram! Sem piedade por carregarem migalhas ou grãos inteiros de ração. Não adianta. Elas resistem! Não devem ser daqui.
Fui reclamar com o porteiro. Não era possível. Em algum lugar do prédio elas deviam morar. Qualquer dia desses, acordava e encontrava umas quatro na minha cama, dividindo o travesseiro comigo. E lá veio ele com um saquinho lacrado, cheio de grãos verdes no interior. E explicou direitinho: era pra eu isolar a área, prender a Juma e espalhar o granulado pelo chão da cozinha. As dita-cujas iam levando as pedrinhas, como faziam com a ração, e morreriam todas dentro da própria casa. Cruel. Mas, lembrando da cozinha ocupada por elas, resolvi levar o remédio.
Deixei o saquinho no tanque para ler melhor depois. Lavei a mão de leve, repito, de levinho, sem muitas esfregações e comecei a escovar os dentes para dormir. Fio dental, dedos passeando pela boca, escova, pasta, líquido verdinho para, segundo o comercial, exterminar as placas e sei lá mais o quê. E, quando terminei a operação, me toquei: peguei o saquinho com as tais pedras verdes!!!!!! Tomei um copo de leite (dizem que é bom! Corta o efeito!), peguei uma revista pra distrair a cabeça e comecei a ler: Angélica clicando o Luciano Huck numa cachoeira. Ele só de sunga (até que é bonitinho). Meninas com vestidos esquisitos tentando convencer as leitoras de que dá pra sair na rua daquele jeito. Uma receita pra deixar o cabelo bonito e brilhoso.... e, de repente, nem conseguia mais engolir direito. A boca seca, incrivelmente seca! Fui até a cozinha, despejei um copo inteiro de água. Nada. E, daqui a pouco, não era mais só a boca, mais a garganta inteira. Seca, seca, seca! Entrei na cozinha e fiquei olhando atenta para elas. Pareciam alegres, como nunca, passeando pelos cantos. Tomando conta da casa. Acho que me envenenaram. Vou tentar dormir. Talvez seja impressão. Se não escrever amanhã, telefone pra minha casa.
Até,
M.
segunda-feira, março 27, 2006
Tudo e nada
Querido F.,
... não se avexe não. amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada... A música vinha da vitrola do vizinho, que chegou de férias hoje de manhã com a família. Sim. Eles ainda têm vitrola, com uma pilha de discos de vinil de cobrir uma estante do chão ao teto. E, quando a agulha toca cada um deles, um som cheio de um ruído reconfortante entra aqui dentro de casa. E vai invadindo cada cômodo, até chegar em mim e me encher de uma saudade danada.
E é só fechar os olhos para me ver de manhã, abrindo uma janela de madeira com a pintura descascada. Do outro lado da rua, uma fileira de casas coloridas. No meio, um risco de terra batida para servir de passagem pros carros. E, quando alguém dizia Centro, tava falando das ruas casadas de Petrópolis. História significava andar de pantufas pelos corredores do Museu Imperial ou subir no ziguezague da escada espremida da casa de Santos Dummont.
De tarde tinha bolo de fubá, brigadeiro de colher, queijo-quente com um queijo amarelo escorrendo pelos lados, de fazer qualquer médico de hoje arregalar os olhos. E a diversão era apoiar os cotovelos na janela e fingir que via os passantes, enquanto o pensamento ia longe, num futuro movimentado e cheio de gente. Uma gente que fazia tanta, mas tanta coisa, que o dia pra eles era apertado. O meu, sobrava pelos cantos.
E diziam que em Copacabana dava pra ir andando até o mar. Os turista desfilavam no calçadão. E era esta mesma calçada, exatamente a mesma, que falava inglês de dia e virava cama de noite pruma penca de pessoas sem teto. Rua e casa num mesmo lugar. Prédio com escritórios e consultórios e outros com apartamentos para famílias inteiras, pras pessoas morarem e fazerem tudo a pé, resolvendo qualquer história, das mais cabeludas às mais sem importância, numa caminhada de dez minutinhos. E era lá que eu queria estar. Onde as coisas aconteciam. Onde, numa virada de olho, eu podia ver como andava o mundo.
E era pensamento de menina de treze anos, num fim de tarde de uma rua parada do interior, do interior, do interior de Petrópolis. Mas é claro que as idéias vinham junto com a lembrança do João na sala de aula, do professor de português, dos deveres de casa, da fofoca da Marina, da pipoca quente e do filme da sessão da tarde.
E eu vim. E um dia descobri que o supermercado da esquina tava com uma promoção para o iogurte Danone. Num outro, cheguei podre do trabalho e fui dormir sem jantar. Descobri, num sábado de tarde, que ir ao cinema de Havaianas tava na moda e fumaça de cigarro tinha virado sinônimo da falta de educação (era um charme na minha época!). Numa quarta, me apaixonei por um menino bonito, de sorriso largo. Num domingo, passei uma tarde chuvosa inteirinha lendo em casa. E conheci você F. e ganhei a Juma e fiquei amiga da Irene. Pintei o cabelo de louro e as unhas do pé de vermelho em janeiro. Um dia de manhã, fui na esquina comprar os jornais e vi um homem atropelado. E acordei no meio da noite com o barulho de tiros, mas descobri, pouco depois, que era sonho. E tantas vezes arrumei as malas para conhecer como viviam os outros, nos outros lugares. Numa sucessão de segundos, minutos e horas, que, todos juntos, formaram 52 anos...não se avexe não. amanh
... não se avexe não. amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada... A música vinha da vitrola do vizinho, que chegou de férias hoje de manhã com a família. Sim. Eles ainda têm vitrola, com uma pilha de discos de vinil de cobrir uma estante do chão ao teto. E, quando a agulha toca cada um deles, um som cheio de um ruído reconfortante entra aqui dentro de casa. E vai invadindo cada cômodo, até chegar em mim e me encher de uma saudade danada.
E é só fechar os olhos para me ver de manhã, abrindo uma janela de madeira com a pintura descascada. Do outro lado da rua, uma fileira de casas coloridas. No meio, um risco de terra batida para servir de passagem pros carros. E, quando alguém dizia Centro, tava falando das ruas casadas de Petrópolis. História significava andar de pantufas pelos corredores do Museu Imperial ou subir no ziguezague da escada espremida da casa de Santos Dummont.
De tarde tinha bolo de fubá, brigadeiro de colher, queijo-quente com um queijo amarelo escorrendo pelos lados, de fazer qualquer médico de hoje arregalar os olhos. E a diversão era apoiar os cotovelos na janela e fingir que via os passantes, enquanto o pensamento ia longe, num futuro movimentado e cheio de gente. Uma gente que fazia tanta, mas tanta coisa, que o dia pra eles era apertado. O meu, sobrava pelos cantos.
E diziam que em Copacabana dava pra ir andando até o mar. Os turista desfilavam no calçadão. E era esta mesma calçada, exatamente a mesma, que falava inglês de dia e virava cama de noite pruma penca de pessoas sem teto. Rua e casa num mesmo lugar. Prédio com escritórios e consultórios e outros com apartamentos para famílias inteiras, pras pessoas morarem e fazerem tudo a pé, resolvendo qualquer história, das mais cabeludas às mais sem importância, numa caminhada de dez minutinhos. E era lá que eu queria estar. Onde as coisas aconteciam. Onde, numa virada de olho, eu podia ver como andava o mundo.
E era pensamento de menina de treze anos, num fim de tarde de uma rua parada do interior, do interior, do interior de Petrópolis. Mas é claro que as idéias vinham junto com a lembrança do João na sala de aula, do professor de português, dos deveres de casa, da fofoca da Marina, da pipoca quente e do filme da sessão da tarde.
E eu vim. E um dia descobri que o supermercado da esquina tava com uma promoção para o iogurte Danone. Num outro, cheguei podre do trabalho e fui dormir sem jantar. Descobri, num sábado de tarde, que ir ao cinema de Havaianas tava na moda e fumaça de cigarro tinha virado sinônimo da falta de educação (era um charme na minha época!). Numa quarta, me apaixonei por um menino bonito, de sorriso largo. Num domingo, passei uma tarde chuvosa inteirinha lendo em casa. E conheci você F. e ganhei a Juma e fiquei amiga da Irene. Pintei o cabelo de louro e as unhas do pé de vermelho em janeiro. Um dia de manhã, fui na esquina comprar os jornais e vi um homem atropelado. E acordei no meio da noite com o barulho de tiros, mas descobri, pouco depois, que era sonho. E tantas vezes arrumei as malas para conhecer como viviam os outros, nos outros lugares. Numa sucessão de segundos, minutos e horas, que, todos juntos, formaram 52 anos...não se avexe não. amanh
terça-feira, março 21, 2006
Terezinha...
Querido F.,
Tem tempo. É... bastante tempo. Mas sempre me lembro desta história. Hoje, me veio de novo, enquanto a televisão mostrava um filme choroso na sessão da tarde. Foi durante uma festa de casamento em Paraty. As madrinhas saindo da igreja com os sapatos na mão, porque nenhuma tinha levado muito a sério esta história de calçamento em pé-de-moleque e todas tinham teimado que conseguiam se equilibrar em saltos, mesmo com o alto e baixo das pedras. E fomos todos para um restaurante, sem os sapatos mesmo, porque ninguém ligou de calçar os saltos depois, quando os pés já pisavam em tábuas de madeira.
Uma bandinha tocava músicas alegres e pratos saíam da cozinha para as mesas, com uma fumacinha de quentura em cima de cada um deles. Fiquei debruçada pela janela, olhando espantada para aquela cidade que parecia cenário de novela. Uma corrente separava uma teia de ruas de terra batida e casas sem graça, de um trecho com casario antigo e preservado, chão ondulado de pedrinhas e cheiro de mar pelos cantos. Sinhá Moça poderia bem virar uma esquina daquelas, mas quem me encarava era um senhor arrumado, de seus mais de setenta, parado na rua, de frente pra festa.
- O que tá acontecendo aí dentro? Moro aqui na cidade... Fiquei querendo saber o que era...
- É um casamento. Da Rose e do César.
E a resposta não pareceu suficiente, porque o olhar continuou em mim. E achei que ele queria era saber quem era a Rose e como ela e o César tinham se conhecido e alguma coisa assim, mas só depois notei que a comemoração lá dentro não era o motivo, mas o pretexto.
- Você se parece muito com uma ex-namorada minha: a Terezinha... foi o amor da minha vida....Se tivesse a sua idade, ia querer namorar você.
E as mãos enrugadas tocaram as minhas. E ele sorriu. Disse que era bonito o que via e foi embora. Ri de volta, achei engraçado, aliás, engraçadíssimo. Comentei com os presentes. Mas por dentro me perguntava porque afinal de contas ele tinha deixado a Terezinha ir embora. Não era o tal amor da vida dele?
E até hoje encasqueto nesta cena. E me pergunto se é só depois, lá pelo fim da vida, que descobrimos quem foi o tal do amor importante? E fico achando que, se é que ele existe (e logo decido tirar o se da frase, porque deve mesmo existir. Talvez não O, mas UM importante), muita gente deve ter deixado ele passar. Num surto de racionalidade, de emoções pensadas, motivos pesados, deixar a pessoa se perder pela vida, contando que talvez o futuro pudesse juntar novamente. E fico pensando que talvez o tal do amor não tenha nada a ver com uma história comprida, mas com um sentimento forte, que a gente fingiu que não viu e seguiu adiante, achando que era o certo a fazer no momento. E que isso não tem nada a ver com pessoas casadas e romantismo em excesso também, mas com histórias que precisavam ser vividas e foram deixadas pra trás.
E, hoje, tantos e tantos anos depois, no meio das lágrimas por causa de um filme bobo e sem graça, lá estava eu neste caso novamente. Terezinha. Olhei pra trás e fiquei tentando achar o meu no meio de tantas histórias vividas. Não consegui. Ou fingi que não vi mais uma vez. Talvez ainda precise de mais alguns anos. Talvez, talvez, talvez...
Até,
M.
Tem tempo. É... bastante tempo. Mas sempre me lembro desta história. Hoje, me veio de novo, enquanto a televisão mostrava um filme choroso na sessão da tarde. Foi durante uma festa de casamento em Paraty. As madrinhas saindo da igreja com os sapatos na mão, porque nenhuma tinha levado muito a sério esta história de calçamento em pé-de-moleque e todas tinham teimado que conseguiam se equilibrar em saltos, mesmo com o alto e baixo das pedras. E fomos todos para um restaurante, sem os sapatos mesmo, porque ninguém ligou de calçar os saltos depois, quando os pés já pisavam em tábuas de madeira.
Uma bandinha tocava músicas alegres e pratos saíam da cozinha para as mesas, com uma fumacinha de quentura em cima de cada um deles. Fiquei debruçada pela janela, olhando espantada para aquela cidade que parecia cenário de novela. Uma corrente separava uma teia de ruas de terra batida e casas sem graça, de um trecho com casario antigo e preservado, chão ondulado de pedrinhas e cheiro de mar pelos cantos. Sinhá Moça poderia bem virar uma esquina daquelas, mas quem me encarava era um senhor arrumado, de seus mais de setenta, parado na rua, de frente pra festa.
- O que tá acontecendo aí dentro? Moro aqui na cidade... Fiquei querendo saber o que era...
- É um casamento. Da Rose e do César.
E a resposta não pareceu suficiente, porque o olhar continuou em mim. E achei que ele queria era saber quem era a Rose e como ela e o César tinham se conhecido e alguma coisa assim, mas só depois notei que a comemoração lá dentro não era o motivo, mas o pretexto.
- Você se parece muito com uma ex-namorada minha: a Terezinha... foi o amor da minha vida....Se tivesse a sua idade, ia querer namorar você.
E as mãos enrugadas tocaram as minhas. E ele sorriu. Disse que era bonito o que via e foi embora. Ri de volta, achei engraçado, aliás, engraçadíssimo. Comentei com os presentes. Mas por dentro me perguntava porque afinal de contas ele tinha deixado a Terezinha ir embora. Não era o tal amor da vida dele?
E até hoje encasqueto nesta cena. E me pergunto se é só depois, lá pelo fim da vida, que descobrimos quem foi o tal do amor importante? E fico achando que, se é que ele existe (e logo decido tirar o se da frase, porque deve mesmo existir. Talvez não O, mas UM importante), muita gente deve ter deixado ele passar. Num surto de racionalidade, de emoções pensadas, motivos pesados, deixar a pessoa se perder pela vida, contando que talvez o futuro pudesse juntar novamente. E fico pensando que talvez o tal do amor não tenha nada a ver com uma história comprida, mas com um sentimento forte, que a gente fingiu que não viu e seguiu adiante, achando que era o certo a fazer no momento. E que isso não tem nada a ver com pessoas casadas e romantismo em excesso também, mas com histórias que precisavam ser vividas e foram deixadas pra trás.
E, hoje, tantos e tantos anos depois, no meio das lágrimas por causa de um filme bobo e sem graça, lá estava eu neste caso novamente. Terezinha. Olhei pra trás e fiquei tentando achar o meu no meio de tantas histórias vividas. Não consegui. Ou fingi que não vi mais uma vez. Talvez ainda precise de mais alguns anos. Talvez, talvez, talvez...
Até,
M.
sábado, março 11, 2006
Alguma coisa acontece...
Querido F.,
Meu vizinho assina o Estado de São Paulo. A família deve estar viajando, porque a pilha aumenta cada vez mais ao longo da semana. Tenho pena. Desperdício aquele monte de informação amontoada, pronta para ser jogada fora. Não acredito que alguém chegue disposto a ler aquela montoeira toda depois de uma semana de férias onde quer que seja. Então, resolvi pegar um exemplar ou outro para dar uma espiada. Coisa rápida. Depois eu coloco tudo de volta naquela torre de papel. Foi assim que me deparei com um encarte inteiro dedicado à Bienal do Livro de São Paulo.
Não gosto muito de bienais. Elas servem pra você fazer compras, voltar cheia de sacolas com livros em desconto. As palestras são tão disputadas que é preciso passar horas na fila para avistar, de um canto espremido, uma personalidade das letras falando de um assunto qualquer. Cortei as tais da minha vida. A Flip é a única festa literária que não falto. Vou feliz para Paraty todos os anos. Mas acontece que, desta vez, movida pela desculpa do encarte, fiquei tentada. Arrumei uma mala pequena, dois dias só, deixei Juma aos cuidados do porteiro, e lá fui eu.
Minhas sandálias percorreram grande parte dos vinte mil metros quadrados descritos no jornal. Não me pareceram tanto assim. Estandes e mais estandes com livros empilhados. Comprei vários. Impossível resistir a um exemplar de “Grande Sertão: Veredas” com 40% de desconto. O título está completando 50 anos e nunca esteve na minha prateleira até então. Tava na hora.
Saí feliz do Anhembi. Mas o contentamento acabou na mesma hora em que entrei no táxi. Cidade espalhada é São Paulo. Me sinto pequena, perdida naquele monte de ruas e prédios sem sentido, intermináveis. Os restaurantes podem ser maravilhosos, a comida deliciosa, as lojas com roupas irresistíveis, mas tudo o que sinto quando cruzo suas ruas é vontade de ir pra casa. Tenho a impressão de que a cidade é dividida por blocos e que cada um dos moradores só freqüenta um número limitadíssimo de quadras e ninguém se importa com o pedaço dos outros. São Paulo me deixa com um vazio por dentro.
Marquei a passagem para a manhã seguinte. Estava de bom tamanho e, quando o despertador tocou, levantei aos pulos. Feliz. Congonhas me pareceu acolhedor e, cada vez que Rio de Janeiro piscava nas telas de chamada, uma coisa vibrava aqui dentro. Casa. E lá fui arrastando minhas malinhas pelo saguão, uma só com livros. Na entrada para o embarque, dois taxistas descansavam do lanche observando os passantes.
_ Essa é carioca.
_ Do Rio?
_ Com certeza.
Falavam de mim e, no primeiro momento, achei que estava mal-vestida. Mas foi só olhar para os lados com mais atenção para notar que todos desfilavam casacos, calças compridas e sapatos fechados. Só eu com vestido de alça e sandália rasteira. Não adianta. Para mim, São Paulo vai ser sempre só um endereço para um compromisso marcado na agenda.
Até,
M.
Meu vizinho assina o Estado de São Paulo. A família deve estar viajando, porque a pilha aumenta cada vez mais ao longo da semana. Tenho pena. Desperdício aquele monte de informação amontoada, pronta para ser jogada fora. Não acredito que alguém chegue disposto a ler aquela montoeira toda depois de uma semana de férias onde quer que seja. Então, resolvi pegar um exemplar ou outro para dar uma espiada. Coisa rápida. Depois eu coloco tudo de volta naquela torre de papel. Foi assim que me deparei com um encarte inteiro dedicado à Bienal do Livro de São Paulo.
Não gosto muito de bienais. Elas servem pra você fazer compras, voltar cheia de sacolas com livros em desconto. As palestras são tão disputadas que é preciso passar horas na fila para avistar, de um canto espremido, uma personalidade das letras falando de um assunto qualquer. Cortei as tais da minha vida. A Flip é a única festa literária que não falto. Vou feliz para Paraty todos os anos. Mas acontece que, desta vez, movida pela desculpa do encarte, fiquei tentada. Arrumei uma mala pequena, dois dias só, deixei Juma aos cuidados do porteiro, e lá fui eu.
Minhas sandálias percorreram grande parte dos vinte mil metros quadrados descritos no jornal. Não me pareceram tanto assim. Estandes e mais estandes com livros empilhados. Comprei vários. Impossível resistir a um exemplar de “Grande Sertão: Veredas” com 40% de desconto. O título está completando 50 anos e nunca esteve na minha prateleira até então. Tava na hora.
Saí feliz do Anhembi. Mas o contentamento acabou na mesma hora em que entrei no táxi. Cidade espalhada é São Paulo. Me sinto pequena, perdida naquele monte de ruas e prédios sem sentido, intermináveis. Os restaurantes podem ser maravilhosos, a comida deliciosa, as lojas com roupas irresistíveis, mas tudo o que sinto quando cruzo suas ruas é vontade de ir pra casa. Tenho a impressão de que a cidade é dividida por blocos e que cada um dos moradores só freqüenta um número limitadíssimo de quadras e ninguém se importa com o pedaço dos outros. São Paulo me deixa com um vazio por dentro.
Marquei a passagem para a manhã seguinte. Estava de bom tamanho e, quando o despertador tocou, levantei aos pulos. Feliz. Congonhas me pareceu acolhedor e, cada vez que Rio de Janeiro piscava nas telas de chamada, uma coisa vibrava aqui dentro. Casa. E lá fui arrastando minhas malinhas pelo saguão, uma só com livros. Na entrada para o embarque, dois taxistas descansavam do lanche observando os passantes.
_ Essa é carioca.
_ Do Rio?
_ Com certeza.
Falavam de mim e, no primeiro momento, achei que estava mal-vestida. Mas foi só olhar para os lados com mais atenção para notar que todos desfilavam casacos, calças compridas e sapatos fechados. Só eu com vestido de alça e sandália rasteira. Não adianta. Para mim, São Paulo vai ser sempre só um endereço para um compromisso marcado na agenda.
Até,
M.
sábado, março 04, 2006
Bonecas russas
Querido F.,
Alberto me convidou para assistir a uma maratona Odeon. Não estamos mais juntos, mas, quando o amor acaba e a pessoa continua querida, conseguimos ser amigos. Claro que não agüentei os três filmes seguidos, não subi para ver o DJ tocando no segundo andar e apenas gostei de saber que, às 5h, eles servem café e bolo para os sobreviventes da noite. Com certeza, não seria uma delas. Sou uma senhora e, apesar de não dormir cedo, gosto de passar as madrugadas na minha casa. Assistimos somente à primeira sessão, “Bonecas russas”, continuação de “Albergue espanhol”, com mesmo diretor e elenco. A história fala novamente de relacionamentos. Estamos sempre a procura daquela bonequinha russa, a do miolo, a principal. Depois dela, mais nada. Acabou a busca. Encontramos o amor. Mas, surpresos, descobrimos que há sempre mais uma, numa sucessão de relacionamentos que não parece acabar nunca. Cansativo. Difícil. E lá vem Xavier aparecendo na tela, com trinta anos agora, morando de favor na casa de amigos, trabalhando em bicos a espera de uma editora que publique o seu livro, colecionando uma série de namoros que terminaram em desastre. E as nacionalidades se misturam, as fronteiras são cruzadas com facilidade. Ele acorda em Paris, dorme em Londres, viaja para a Rússia. Os amigos vêm da Itália, Espanha, Inglaterra, França... As culturas são diferentes, os idiomas idem, mas eles se entendem, conseguem se comunicar apesar de toda a dificuldade, das muitas imperfeições e ruídos. Vão seguindo. E o irmão de Wendy supera a maior das adversidades. Trabalhando como iluminador, conhece uma bailarina de uma companhia russa de balé clássico. Ela não fala nem uma palavra de inglês, ele não entende nada de seu idioma enrolado. São só sorrisos, acenos, mímicas. O grupo vai embora, o rapaz se matricula num curso para aprender a língua. Um ano passa, até que ele a procura de novo. Acha, claro. E, sim, há um casamento. Mas será que ela é a última bonequinha russa? O tal amor verdadeiro? Aquele do para todo o sempre, até que a morte os separe e coisa e tal? O filme acaba antes de a gente descobrir se, depois da bailarina, o menino se apaixona por uma dançarina de cabaré ou uma trocadora de ônibus. Olhei para o Alberto sentado ao meu lado. Qual será o próximo?
Até,
M.
Alberto me convidou para assistir a uma maratona Odeon. Não estamos mais juntos, mas, quando o amor acaba e a pessoa continua querida, conseguimos ser amigos. Claro que não agüentei os três filmes seguidos, não subi para ver o DJ tocando no segundo andar e apenas gostei de saber que, às 5h, eles servem café e bolo para os sobreviventes da noite. Com certeza, não seria uma delas. Sou uma senhora e, apesar de não dormir cedo, gosto de passar as madrugadas na minha casa. Assistimos somente à primeira sessão, “Bonecas russas”, continuação de “Albergue espanhol”, com mesmo diretor e elenco. A história fala novamente de relacionamentos. Estamos sempre a procura daquela bonequinha russa, a do miolo, a principal. Depois dela, mais nada. Acabou a busca. Encontramos o amor. Mas, surpresos, descobrimos que há sempre mais uma, numa sucessão de relacionamentos que não parece acabar nunca. Cansativo. Difícil. E lá vem Xavier aparecendo na tela, com trinta anos agora, morando de favor na casa de amigos, trabalhando em bicos a espera de uma editora que publique o seu livro, colecionando uma série de namoros que terminaram em desastre. E as nacionalidades se misturam, as fronteiras são cruzadas com facilidade. Ele acorda em Paris, dorme em Londres, viaja para a Rússia. Os amigos vêm da Itália, Espanha, Inglaterra, França... As culturas são diferentes, os idiomas idem, mas eles se entendem, conseguem se comunicar apesar de toda a dificuldade, das muitas imperfeições e ruídos. Vão seguindo. E o irmão de Wendy supera a maior das adversidades. Trabalhando como iluminador, conhece uma bailarina de uma companhia russa de balé clássico. Ela não fala nem uma palavra de inglês, ele não entende nada de seu idioma enrolado. São só sorrisos, acenos, mímicas. O grupo vai embora, o rapaz se matricula num curso para aprender a língua. Um ano passa, até que ele a procura de novo. Acha, claro. E, sim, há um casamento. Mas será que ela é a última bonequinha russa? O tal amor verdadeiro? Aquele do para todo o sempre, até que a morte os separe e coisa e tal? O filme acaba antes de a gente descobrir se, depois da bailarina, o menino se apaixona por uma dançarina de cabaré ou uma trocadora de ônibus. Olhei para o Alberto sentado ao meu lado. Qual será o próximo?
Até,
M.
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