As coisas andam um pouco estranhas por aqui.... Hoje de manhã os jornais amanheceram com a notícia de que dois assaltantes roubaram um carro e arrastaram uma criança de seis anos pelas ruas da cidade. Não deu tempo dela sair. O corpo ficou preso no cinto de segurança, e eles arrancaram assim mesmo. A mãe ficou olhando do lado de fora, enquanto o filho gritava preso. Mas não por muito tempo. Porque o motorista, tentando se livrar do corpo, ficava andando com o veículo em ziguezague para ver se o garoto se soltava, passava pelos quebra-molas a toda. E ele lá preso, batendo na lataria. Não durou muito. Que jeito? Foram embora assim. Largaram o carro numa rua e deixaram os restos do menino por lá.
Imagino a cena e acho que já assisti a isso num filme do Tarantino. Será que os motoristas pensaram o mesmo? Que estavam num filme de perseguição e era tudo gravado? Um boneco preso no carro. E um menino real gritando, protegido numa calçada, enquanto as câmeras juntavam imagem e som e davam a ilusão de realidade. Ou eles já viveram tantas cenas semelhantes que nada tem mais importância?
Desliguei a televisão e me lembrei que outro dia eu fui ligar pra Lúcia e ela me contou que o pai estava com problemas de saúde, internado num hospital público, esperando para ser transferido para uma clínica especializada. Lá, talvez pudesse operar. Lá, talvez houvesse esperança. Mas era preciso um contato. Alguém que facilitasse as coisas, que agilizasse uma fila que não anda há meses. Como esperar por meses? Tentei ajudar. Não deu tempo. Passou. E imaginei os funcionários da tal clínica atendendo o telefonema desesperado da Lúcia e repetindo com voz calma que não tinha mais vaga. Que talvez eles pudessem conseguir uma internação para dali a três meses. E desligando sem pensar. E indo tomar um café na lanchonete logo depois, imaginando a roupa que iam botar de noite. Parte do dia-a-dia. Tantos e tantos casos parecidos que já não têm mais importância.
E, enquanto eu arrumava as compras na cozinha, com a Juma pulando no meu joelho, a porta de casa ainda aberta e os sacos espalhados pelo corredor, ouvi a filha da vizinha contar que não gostava de ir mais pro baile. Que lá, quando ela queria ir no banheiro, tinha sempre um cara que agarrava as meninas pelo pescoço e tascava um beijo forçado, indo embora logo depois. E ela achava aquilo meio ruim, porque volta e meia uns fios de cabelo ficavam presos no relógio do moço.
_ Ah, eu, heim? Fico horas secando com secador. Compro creme caro pra cacete e ficam aí arrancando os fios todos. Olha lá, Vilma! Tudo quebrado! Uma nuvem de cabelos quebrados aqui em cima da minha cabeça. Olha!
E a Vilma deve ter olhado, porque fez silêncio. E depois começou a contar de um cara que tinha saído:
_ Saí umas vezes só. Coisa rápida. Eu nem queria ficar muito tempo, inventava logo uma desculpa e ia embora. Agora ele fica me ligando. Um saco. Não atendo não. Cara mala. Parece que gosta de mim. Eu, heim? Que cara maluco!
E a Vilma concordando:
_ Ah, é assim mesmo. Eu só saio umas vezes também. Depois vô embora e, se encontrar na rua, viro a cara. Eu, heim?
Achei tudo muito esquisito, que ninguém sentia mais nada. Mas parece que não. Parece que é assim mesmo. O assalto, o hospital, os casos. Tem todo dia isso aqui. É normal. Eu é que não sei mais o que significa essa palavra. Meu dicionário é que está desatualizado. Li na revista Bons Fluidos (ou seria outra?) que é pra desligar a televisão, respirar fundo, repetir num mantra três vezes, entrar no quarto e ligar o ar-condicionado. Não sei. Estou ficando velha e aqui em casa não tem ar-condicionado.
Os textos desta página são cartas que M. escreve para um amigo que (acho) mora na Europa. Todos os dia de manhã, ela deposita um envelope embaixo da minha porta. Depois de encher as latas do condomínio de bolos de papel, desisti, e resolvi publicar algumas por aqui. Assim, quem sabe, podem algum dia atingir o seu destinatário... Renata Magdaleno
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
quarta-feira, janeiro 17, 2007
...
Acho que eu devia chegar no teatro logo com uma confissão escrita. Algo como:
... é com vergonha que confesso que... tantas e tantas vezes, em vez de olhar entre os meus, roubei um verso teu e dei de presente. E não foi uma, nem duas ou três. Tantas que perdi a conta. E me perdoe, pois não resisto, e sei que vou fazer outra vez....
Mas depois fico pensando que deve haver um quarto cheio delas. Apartamentos inteiros cheios de cartas, caixas de e-mail explodindo de mensagens. Confissões iguais às minhas. Talvez piores. E ninguém ficaria espantado com o volume. Já deve existir um funcionário esperando a remessa antes de cada apresentação.
Ainda me lembro da última vez que assisti a um show dele. Faz tempo. Fui com a Judith e sentamos numa mesa central. Lá pelas tantas ela olhou na minha direção:
- São os olhos. O que me mata neste homem são os olhos. Um azul tão limpo.
- Então são azuis?
E ela ficou rindo, achando que eu brincava. Mas juro que nunca tinha notado. E com aqueles versos que prendem a gente por dentro lá dá pra notar alguma coisa?
Sei que em março vou voltar a contar os tostões. Já tenho pesadelos com notas voando, micro saquinhos de dinheiro com asas, como nos desenhos animados. Mas este é um dos meus momentos Scarlett O’Hara. Amanhã eu penso. Só sei que... Mês que vem vou ver o Chico no Canecão.
... é com vergonha que confesso que... tantas e tantas vezes, em vez de olhar entre os meus, roubei um verso teu e dei de presente. E não foi uma, nem duas ou três. Tantas que perdi a conta. E me perdoe, pois não resisto, e sei que vou fazer outra vez....
Mas depois fico pensando que deve haver um quarto cheio delas. Apartamentos inteiros cheios de cartas, caixas de e-mail explodindo de mensagens. Confissões iguais às minhas. Talvez piores. E ninguém ficaria espantado com o volume. Já deve existir um funcionário esperando a remessa antes de cada apresentação.
Ainda me lembro da última vez que assisti a um show dele. Faz tempo. Fui com a Judith e sentamos numa mesa central. Lá pelas tantas ela olhou na minha direção:
- São os olhos. O que me mata neste homem são os olhos. Um azul tão limpo.
- Então são azuis?
E ela ficou rindo, achando que eu brincava. Mas juro que nunca tinha notado. E com aqueles versos que prendem a gente por dentro lá dá pra notar alguma coisa?
Sei que em março vou voltar a contar os tostões. Já tenho pesadelos com notas voando, micro saquinhos de dinheiro com asas, como nos desenhos animados. Mas este é um dos meus momentos Scarlett O’Hara. Amanhã eu penso. Só sei que... Mês que vem vou ver o Chico no Canecão.
terça-feira, janeiro 02, 2007
primeiro dia útil do ano
Ester entrou ontem aqui em casa toda de branco, com um papo de réveillon. Agora que 2007 chegou, ela quer abrir as janelas pra deixar a luz entrar e está andando pela rua com os pulmões cheios, pronta para (vejam só, nunca é tarde!) novas experiências. Ester que me perdoe, mas eu começo o ano fazendo o movimento oposto. Tô é fechando algumas. Algumas. Não é desesperança, medo, nada disso. Muito pelo contrário. É vontade de cuidar do que tem aqui dentro. E passei o primeiro dia útil do ano fazendo faxina! A fantasia de Cabíria que entulhava o armário, por exemplo, foi pro lixo. E viva 2007!
quinta-feira, dezembro 28, 2006
OOOOOOOOOOMMMMM...
...estou ocupada. Como aqueles avisos que as pessoas colocam no messenger. Podem até me ver andando pela rua, falando pelo telefone, navegando pela internet. Mas estou ocupada. Uma plaquinha vermelha com um tracinho branco bem no meio. E, sim, tudo bem, isto tem a ver com o fim do ano. Mas não com estas coisas de fazer retrospectivas ou uma lista de metas e estratégias para 2007. Não estranhem se me virem arrastando um carrinho de feira pela rua, lotado de plantinhas embaladas em sacos plásticos. Ou se passarem pela portaria do prédio e sentirem um cheiro insuportavelmente forte de incenso. Ou olharem pela janela e acharem que tem uma velinha iluminando o ambiente. Tem mesmo. Vou sentar em cima da cama, cruzar as pernas, entoar um mantra e esperar 2007 pensando no branco. Imaginando o nada sem imagens intermediárias. A hora é de tentar paz. E não me inventem viagens mirabolantes, projetos cheios de aventuras, amores de explodir o coração. São três dias. Três dias só e a luz fica verde novamente. Por enquanto, ocupada....
segunda-feira, novembro 27, 2006
o dia em que o contra-regra tirou folga
Encontrei, numa caixa de guardados, uma foto do Carlos. E me lembrei de uma viagem que fizemos. A estrada enlameada de Visconde de Mauá e foi só o carro engatar na porta da pousada pra cair um pé d´água de novela das oito. Eu me espremia embaixo de um guarda-chuva florido que a recepcionista foi buscar atrás do balcão e era mais em sinal de protesto mesmo, uma forma de reclamar com o tempo a água que ele deixava cair lá de cima. Porque não adiantava nada, era daquelas chuvas de novela, como eu disse. Quando parece que a atriz entrou embaixo de um chuveiro ligado no máximo e um bando de ventiladores fazem a água dançar de um lado pro outro e enchem o chão de poçinhas bem no lugar onde a gente tá botando o pé. Parece tudo planejado. Pra deixar a roupa grudando no corpo. E quando você pensa que o guarda-chuva tá cobrindo pelo menos a franja do penteado, vem um vento não sei de onde e vira ele todo pra cima. E lá se vai o penteado. A água escorrendo na cara e a franja grudada na testa.
E me lembro de sentir vergonha. Tinha feito uma mala com roupa nova, os trajes combinando pro fim de semana. Unha feita e tudo mais. E foi só pisar no tal do paraíso verde, pra um céu azul, sem nuvens, cismar em jogar água aos montes de lá. E não dava mais pra disfarçar nada. Logo do começo, de cara, era aquilo ali e pronto. Com o cabelo grudando na testa, a roupa colada no corpo, respingos de lama cobrindo as pernas, eu era eu mesma. Daquele jeitinho lá. Pegar ou largar. Sem muito glacê pra enfeitar o bolo.
E quando a gente entrou no bagalô, que era lindo e tudo, com lareira e cestinha de flores em cima da mesa, ficamos olhando um pra cara do outro sem saber o que fazer. E parecia que a gente nem tinha lá muito interesse, que tava em Mauá por engano, que tinham trocado o par no meio do caminho e, lá, só dentro da casa, a gente tinha se dado conta. Ué, acho que não tem lá muito a ver.
Mas era só um jeito de quem tava meio sem jeito mesmo. Quando a intimidade chega rápido demais, pelas circunstâncias e não pela convivência. E você fica quieto, sem ação, esperando pra ver como o outro age, depois de olhar assim tão de perto.
Eu desconjuntada e o Carlos com a cara de quem deixou o carro atolar na lama, já lá quase na linha de chegada. Tinha ficado engatado no meio de três pedras, na porta da pousada. Ele encharcado tentando empurrar com força a traseira e nada do bicho mover um milímetro. Só as pernas do Carlos que escorregavam, patinando na terra. E ele caía e levantava. No joelho esquerdo descia um fio de sangue e os óculos, molhados, vinham tortos no rosto. Lá pelas tantas tinha engasgado do esforço e da boca saiu uma espécie de vômito. E eu fingi que não vi, que era pra ele não se sentir constrangido. Mas o Carlos achou que era só falta de atenção mesmo, indiferença, coisa de quem tinha ficado com nojo.
E, em pé no quarto, com a porta fechada, só conseguimos pensar numa coisa: foto. Vamos tirar uma foto. Fingimos que era engraçado e sacamos a máquina da bolsa. Saiu aquela foto que eu tinha achado na caixa de guardados. Ele com um sorriso forçado, apontando com o dedo pro joelho. E o fim de semana passou meio morno e os dois foram pra casa com uma sensação de frustração, querendo que o tempo voltasse e desse pra viver tudo de novo.
Da história ficou aquela foto amarelada, guardada no fundo de uma caixa por anos. Olhava pra ela e estalava a língua, balançava a cabeça. E ria. Agora, fazer o quê? Ria. Coloquei no meu quadro de cortiça...
E me lembro de sentir vergonha. Tinha feito uma mala com roupa nova, os trajes combinando pro fim de semana. Unha feita e tudo mais. E foi só pisar no tal do paraíso verde, pra um céu azul, sem nuvens, cismar em jogar água aos montes de lá. E não dava mais pra disfarçar nada. Logo do começo, de cara, era aquilo ali e pronto. Com o cabelo grudando na testa, a roupa colada no corpo, respingos de lama cobrindo as pernas, eu era eu mesma. Daquele jeitinho lá. Pegar ou largar. Sem muito glacê pra enfeitar o bolo.
E quando a gente entrou no bagalô, que era lindo e tudo, com lareira e cestinha de flores em cima da mesa, ficamos olhando um pra cara do outro sem saber o que fazer. E parecia que a gente nem tinha lá muito interesse, que tava em Mauá por engano, que tinham trocado o par no meio do caminho e, lá, só dentro da casa, a gente tinha se dado conta. Ué, acho que não tem lá muito a ver.
Mas era só um jeito de quem tava meio sem jeito mesmo. Quando a intimidade chega rápido demais, pelas circunstâncias e não pela convivência. E você fica quieto, sem ação, esperando pra ver como o outro age, depois de olhar assim tão de perto.
Eu desconjuntada e o Carlos com a cara de quem deixou o carro atolar na lama, já lá quase na linha de chegada. Tinha ficado engatado no meio de três pedras, na porta da pousada. Ele encharcado tentando empurrar com força a traseira e nada do bicho mover um milímetro. Só as pernas do Carlos que escorregavam, patinando na terra. E ele caía e levantava. No joelho esquerdo descia um fio de sangue e os óculos, molhados, vinham tortos no rosto. Lá pelas tantas tinha engasgado do esforço e da boca saiu uma espécie de vômito. E eu fingi que não vi, que era pra ele não se sentir constrangido. Mas o Carlos achou que era só falta de atenção mesmo, indiferença, coisa de quem tinha ficado com nojo.
E, em pé no quarto, com a porta fechada, só conseguimos pensar numa coisa: foto. Vamos tirar uma foto. Fingimos que era engraçado e sacamos a máquina da bolsa. Saiu aquela foto que eu tinha achado na caixa de guardados. Ele com um sorriso forçado, apontando com o dedo pro joelho. E o fim de semana passou meio morno e os dois foram pra casa com uma sensação de frustração, querendo que o tempo voltasse e desse pra viver tudo de novo.
Da história ficou aquela foto amarelada, guardada no fundo de uma caixa por anos. Olhava pra ela e estalava a língua, balançava a cabeça. E ria. Agora, fazer o quê? Ria. Coloquei no meu quadro de cortiça...
terça-feira, novembro 07, 2006
depois...
Tudo o que me inspira hoje é uma música do Los Hermanos. Uma em que o cantor termina com uma série de ãããããnnnnããããããnnnns. Um em cada tom. Que começa com...
... ah, depois eu escrevo...
Só tenho vontade de estender meus pés em cima da cadeira, calçados com havaianas (e olhe lá) e esticar os braços até achar que estou crescendo. Estou de férias. Igual ao cara da música que se permite largar o corpo em cima de um sofá... Férias. Não quero saber se apareceu um novo restaurante na Dias Ferreira, se a moda agora é comer lichia no café da manhã, se o Coqueirão está ultrapassado, se descobriram que iogurte de maracujá é a bebida da estação, se os moderninhos de Ipanema vão tomar banho na laje do Dama de Ferro no pós-praia. O horário de verão começou no domingo, as lojas da cidade já estão prontas para o Natal e daqui a pouco (eu sei) as revistas e matérias de comportamento vão tentar nos convencer de que coisas fantásticas, incríveis, estão tomando a cidade, novas manias, novas histórias. E que nós precisamos, urgente, nos atualizar. Preguiçaaaaaa... Quando o verão chegar, quero férias. Deixa o verão pra mais tarde...
Deixa eu decidir é cedo ou tarde,
espere eu considerar,
ver se eu vou assim chique-à-vontade,
qual o tom do lugar
Enquanto eu penso você sugeriu
um bom motivo pra tudo atrasar
E ainda é cedo pra lá,
chegando às seis tá bom demais!
Deixa o verão pra mais tarde...
Uh ah ãã aeãeã
Não tô muito a fim de novidade
fila em banco de bar
Considere toda a hostilidade
que há da porta pra lá!
Enquanto eu fujo você inventou
qualquer desculpa pra gente ficar
E assim a gente não sai
que esse sofá tá bom demais!
Deixa o verão pra mais tarde...
Uh ah ãã aeãeã
E eu digo cá entre nós
deixa o verão pra mais tarde...
Uh ah ãã aeãeã
... ah, depois eu escrevo...
Só tenho vontade de estender meus pés em cima da cadeira, calçados com havaianas (e olhe lá) e esticar os braços até achar que estou crescendo. Estou de férias. Igual ao cara da música que se permite largar o corpo em cima de um sofá... Férias. Não quero saber se apareceu um novo restaurante na Dias Ferreira, se a moda agora é comer lichia no café da manhã, se o Coqueirão está ultrapassado, se descobriram que iogurte de maracujá é a bebida da estação, se os moderninhos de Ipanema vão tomar banho na laje do Dama de Ferro no pós-praia. O horário de verão começou no domingo, as lojas da cidade já estão prontas para o Natal e daqui a pouco (eu sei) as revistas e matérias de comportamento vão tentar nos convencer de que coisas fantásticas, incríveis, estão tomando a cidade, novas manias, novas histórias. E que nós precisamos, urgente, nos atualizar. Preguiçaaaaaa... Quando o verão chegar, quero férias. Deixa o verão pra mais tarde...
Deixa eu decidir é cedo ou tarde,
espere eu considerar,
ver se eu vou assim chique-à-vontade,
qual o tom do lugar
Enquanto eu penso você sugeriu
um bom motivo pra tudo atrasar
E ainda é cedo pra lá,
chegando às seis tá bom demais!
Deixa o verão pra mais tarde...
Uh ah ãã aeãeã
Não tô muito a fim de novidade
fila em banco de bar
Considere toda a hostilidade
que há da porta pra lá!
Enquanto eu fujo você inventou
qualquer desculpa pra gente ficar
E assim a gente não sai
que esse sofá tá bom demais!
Deixa o verão pra mais tarde...
Uh ah ãã aeãeã
E eu digo cá entre nós
deixa o verão pra mais tarde...
Uh ah ãã aeãeã
quarta-feira, outubro 04, 2006
Ester me convidou...
Eu não tinha como dizer não. Ester me ligou na sexta de tarde e foi ditando o endereço por telefone.
_ É na Glória. Na mesma rua da Termas Rio. Mas avisa ao taxista que o bar fica na esquina da via da Termas com outra pequenininha, paralela àquela dos travestis!
E o endereço veio assim, sem nenhum nome de rua, mas cheio de indicações inconfundíveis, inesquecíveis. E, enquanto ela falava, eu ficava pensando o que afinal de contas a Ester ia fazer lá. Ester. Aquela que aluga uma van toda vez que o Miguel Falabella estréia peça nova no Shopping da Gávea. Lembra? Pois, então. Fui. Com todas as direções na cabeça e um papelzinho com o nome do bar escrito em caneta Bic azul royal: Beco do Rato.
Confesso que tive vergonha do motorista. Não sou uma senhora tão moderna assim. E, antes de sair despejando as diretrizes, falei que ia a um samba num barzinho. Que era convite de uma amiga antiga e querida. E, mal as palavras saíram da boca, senti mais vergonha ainda de ter dado explicações. Não dava mais pra engoli-las de volta. Já tinham ido.
Foi fácil de achar. Dizem que o lugar tá famoso. Que nas quintas de noite vira cinema, com tela ao ar livre. Mas eu, que (repito) não sou moderna, desconhecia. No dia em que fui não tinha cinema. Era carnaval. As pessoas lotavam a rua e um monte de mesinhas, decoradas com garrafas de cerveja, completavam o espaço. Num cantinho, na frente de uma parede com pôsteres de uma seleção brasileira das antigas, um grupo tocava samba. E foi bonito de ver. Pelé comemorava um gol lá atrás, na foto de um cartaz, com Garrincha ao fundo correndo pro abraço, e todo mundo cantava e acompanhava a música com palmas. Cada letra triste que só, mas o ritmo era alegre e enquanto o cantor ia desfiando amarguras, amores não concretizados, paixões interrompidas, a gente ria e dançava.
Juro que sambei. Sem quase mexer os pés, se isso é possível. Rebolando desengonçada. Esquecida de quem quer que estivesse à volta. Ester era só sorrisos. Está namorando um compositor agora, ou coisa parecida, mas me fez jurar que não contava a história pra ninguém. Calo, portanto.
Lá pelas tantas, vi uma menina cheia de piercings e cabelo picotado. Na blusa preta, uma estampa com o cartaz do filme Jules e Jim. Os três personagens correndo sorridentes. Em cima da foto uma frase dizia que nada é perfeito e outra completava com um nada é eterno. Depois de três copos de cerveja (tá... Tá certo. Talvez um pouco mais) achei que fazia todo sentido. Que era assim mesmo. E era bonito que fosse.
Fui embora prometendo voltar. No dia seguinte, contei a história pro Zé, meu porteiro. Ele ouviu desconfiado, analisando minha figura em pé, segurando a coleira da Juma com a pontinha dos dedos. Disse que ia. Que um dia pisava por lá. Mas deve ter achado que a idade, enfim, anda fazendo efeito por aqui. Quem sabe? Talvez esteja.
Até,
M.
_ É na Glória. Na mesma rua da Termas Rio. Mas avisa ao taxista que o bar fica na esquina da via da Termas com outra pequenininha, paralela àquela dos travestis!
E o endereço veio assim, sem nenhum nome de rua, mas cheio de indicações inconfundíveis, inesquecíveis. E, enquanto ela falava, eu ficava pensando o que afinal de contas a Ester ia fazer lá. Ester. Aquela que aluga uma van toda vez que o Miguel Falabella estréia peça nova no Shopping da Gávea. Lembra? Pois, então. Fui. Com todas as direções na cabeça e um papelzinho com o nome do bar escrito em caneta Bic azul royal: Beco do Rato.
Confesso que tive vergonha do motorista. Não sou uma senhora tão moderna assim. E, antes de sair despejando as diretrizes, falei que ia a um samba num barzinho. Que era convite de uma amiga antiga e querida. E, mal as palavras saíram da boca, senti mais vergonha ainda de ter dado explicações. Não dava mais pra engoli-las de volta. Já tinham ido.
Foi fácil de achar. Dizem que o lugar tá famoso. Que nas quintas de noite vira cinema, com tela ao ar livre. Mas eu, que (repito) não sou moderna, desconhecia. No dia em que fui não tinha cinema. Era carnaval. As pessoas lotavam a rua e um monte de mesinhas, decoradas com garrafas de cerveja, completavam o espaço. Num cantinho, na frente de uma parede com pôsteres de uma seleção brasileira das antigas, um grupo tocava samba. E foi bonito de ver. Pelé comemorava um gol lá atrás, na foto de um cartaz, com Garrincha ao fundo correndo pro abraço, e todo mundo cantava e acompanhava a música com palmas. Cada letra triste que só, mas o ritmo era alegre e enquanto o cantor ia desfiando amarguras, amores não concretizados, paixões interrompidas, a gente ria e dançava.
Juro que sambei. Sem quase mexer os pés, se isso é possível. Rebolando desengonçada. Esquecida de quem quer que estivesse à volta. Ester era só sorrisos. Está namorando um compositor agora, ou coisa parecida, mas me fez jurar que não contava a história pra ninguém. Calo, portanto.
Lá pelas tantas, vi uma menina cheia de piercings e cabelo picotado. Na blusa preta, uma estampa com o cartaz do filme Jules e Jim. Os três personagens correndo sorridentes. Em cima da foto uma frase dizia que nada é perfeito e outra completava com um nada é eterno. Depois de três copos de cerveja (tá... Tá certo. Talvez um pouco mais) achei que fazia todo sentido. Que era assim mesmo. E era bonito que fosse.
Fui embora prometendo voltar. No dia seguinte, contei a história pro Zé, meu porteiro. Ele ouviu desconfiado, analisando minha figura em pé, segurando a coleira da Juma com a pontinha dos dedos. Disse que ia. Que um dia pisava por lá. Mas deve ter achado que a idade, enfim, anda fazendo efeito por aqui. Quem sabe? Talvez esteja.
Até,
M.
sexta-feira, setembro 08, 2006
entre quatro paredes
Querido F.,
Há cerca de um mês, Marisa Monte solta a voz na minha vitrola (sim, sou antiga e, mesmo com estas bolachas prateadas, na minha casa o aparelho de som vai sempre se chamar vitrola). Abro a porta do quarto de manhã e uma voz afinada começa a cantar:
Eu só não te convido pra dançar
Porque eu quero encontrar com você em particular
Há tempos tento encontrar um bom momento
Alguma ocasião propícia
Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus
Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus
Procuro explicar o meu sentimento
E só consigo encontrar
Palavras que não existem no dicionário
Você podia entender meu vocabulário
Decifrar meus sinais, seria bom
Eu só não te convido pra dançar
Porque o assunto que eu quero contigo é em particular
Há tempos tento encontrar um bom momento
Alguma ocasião propícia
Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus
Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus
Cantarolo outro som, finjo que não escuto, mas Marisa não desiste. Some por uns dias e, numa manhã inesperada, lá está ela de novo, martelando com voz potente minha cabeça. Hoje acordei e botei o disco bem alto. Estou dançando pela sala, Juma me acompanha aos saltos. Não me interrompa, por favor. É, por enquanto... só por enquanto... amanhã, quem sabe, consigo encher os ouvidos de algodão novamente.
Até,
M.
Há cerca de um mês, Marisa Monte solta a voz na minha vitrola (sim, sou antiga e, mesmo com estas bolachas prateadas, na minha casa o aparelho de som vai sempre se chamar vitrola). Abro a porta do quarto de manhã e uma voz afinada começa a cantar:
Eu só não te convido pra dançar
Porque eu quero encontrar com você em particular
Há tempos tento encontrar um bom momento
Alguma ocasião propícia
Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus
Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus
Procuro explicar o meu sentimento
E só consigo encontrar
Palavras que não existem no dicionário
Você podia entender meu vocabulário
Decifrar meus sinais, seria bom
Eu só não te convido pra dançar
Porque o assunto que eu quero contigo é em particular
Há tempos tento encontrar um bom momento
Alguma ocasião propícia
Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus
Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus
Cantarolo outro som, finjo que não escuto, mas Marisa não desiste. Some por uns dias e, numa manhã inesperada, lá está ela de novo, martelando com voz potente minha cabeça. Hoje acordei e botei o disco bem alto. Estou dançando pela sala, Juma me acompanha aos saltos. Não me interrompa, por favor. É, por enquanto... só por enquanto... amanhã, quem sabe, consigo encher os ouvidos de algodão novamente.
Até,
M.
sábado, agosto 19, 2006
receita de peixe
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado estava no palco declamando poemas, contando histórias. Lembrou do passado. De uma vez que foi na TV ler um poema sobre um casal e recebeu uma carta indignada de uma professora, chamando de machismo a história de uma mulher que levantava no meio da noite só para limpar os peixes que o marido trazia da pesca. Quer dizer que devemos voltar ao século passado? Servir aos homens sempre? E Adélia lá, rindo da lembrança. Achando graça de tudo.
Não acompanhei a risada. Bati na testa. Anta! Eu seria capaz de fazer um comentário desses. Não em relação ao machismo. Mas era capaz de ler um poema bonito que nem aquele e interpretar com meus preconceitos. E lembrei de quando li uma entrevista sobre ela numa revista literária. Numa das perguntas, dizia que era católica praticante e o repórter ainda reforçava o quanto sua obra falava de Deus. E eu criei este rótulo estúpido. Adélia para mim passou a ser sinônimo de quem propaga em seus versos sua religiosidade. Quanta ignorância... Não que eu não tenha a minha, mas implico com quem estampa na camisa suas crenças. Com esta idéia na cabeça, não quis ler mais poema nenhum. E ali estava eu na Flip, tão encantada com a pessoa, tão emocionada com a obra e em como ela conseguia ressaltar a beleza do cotidiano, da vida, da convivência.
“Só as pessoas equivocadas quanto à natureza do fato literário repudiam um livro por sua casuística religiosa. O enredo ou tema de um livro não é o que o torna bom ou mau. Seu valor e desvalor têm a ver com a “forma”, apenas”, dizia Adélia na entrevista. Enxugando os olhos depois de ouvir seus versos, tive que concordar plenamente.
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado estava no palco declamando poemas, contando histórias. Lembrou do passado. De uma vez que foi na TV ler um poema sobre um casal e recebeu uma carta indignada de uma professora, chamando de machismo a história de uma mulher que levantava no meio da noite só para limpar os peixes que o marido trazia da pesca. Quer dizer que devemos voltar ao século passado? Servir aos homens sempre? E Adélia lá, rindo da lembrança. Achando graça de tudo.
Não acompanhei a risada. Bati na testa. Anta! Eu seria capaz de fazer um comentário desses. Não em relação ao machismo. Mas era capaz de ler um poema bonito que nem aquele e interpretar com meus preconceitos. E lembrei de quando li uma entrevista sobre ela numa revista literária. Numa das perguntas, dizia que era católica praticante e o repórter ainda reforçava o quanto sua obra falava de Deus. E eu criei este rótulo estúpido. Adélia para mim passou a ser sinônimo de quem propaga em seus versos sua religiosidade. Quanta ignorância... Não que eu não tenha a minha, mas implico com quem estampa na camisa suas crenças. Com esta idéia na cabeça, não quis ler mais poema nenhum. E ali estava eu na Flip, tão encantada com a pessoa, tão emocionada com a obra e em como ela conseguia ressaltar a beleza do cotidiano, da vida, da convivência.
“Só as pessoas equivocadas quanto à natureza do fato literário repudiam um livro por sua casuística religiosa. O enredo ou tema de um livro não é o que o torna bom ou mau. Seu valor e desvalor têm a ver com a “forma”, apenas”, dizia Adélia na entrevista. Enxugando os olhos depois de ouvir seus versos, tive que concordar plenamente.
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